Eduardo Athayde: Hackathons, de 1808 a 2017

Eduardo Athayde: Hackathons, de 1808 a 2017

Quando o Barão de Goyana, José Correio Picanço, cirurgião-mor de Portugal, aclamado como Patriarca da Medicina Brasileira, reuniu os hackathonistas da sua época para inovar, programar, apli car ciência e mudar o seu presente, fundando, em 1808, a primeira Faculdade de Medicina do país no Terreiro de Jesus, deu o tom inovador que regeria aquele espaço.

O Hackathon do Centro Histórico de Salvador de 2017, aberto no auditório da antiga universidade, parecia estar sendo presidido pelo Barão de Goyana, cujo retrato, com olhos atentos no alto do palco, atravessou os séculos observando as solenidades realizadas no seu inovador salão bicentenário.

“O espaço do tradicional auditório foi escolhido para juntar inovadores que atravessam os tempos ajudando a construir a sociedade”, afirmou o empresário Rodrigo Paolilo, realizador do evento e presidente do Grupo Rede+, um conjunto de espaços colaborativos para o desenvolvimento empreendedor.

Sensibilizando os presentes, a historiadora Lucia Góes lembrou que “Salvador é a primeira cidade da América e nós somos seus herdeiros”, destacando a importância transtemporal do momento. Fachadas das igrejas funcionam como “QR codes”, códigos que nos dão acesso a registros históricos, econômicos e sociológicos de presentes pretéritos.

O hackathon é uma maratona de programação e resulta de uma combinação das palavras inglesas “hack” (programar de forma excepcional) e “marathon” (maratona), reunindo programadores, designers e profissionais com objetivo de desenvolver softwares que atendam a fins específicos ou a projetos livres. O de Salvador, visa ativar virtualmente o monumental - e esquecido - Centro Histórico, declarado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Hackathons acontecem pelo mundo. A cidade de São Francisco, na Califórnia, incentivou participantes a apresentarem soluções tecnológicas para questões mundiais como fome, alívio de desastres, conservação da natureza e educação. O Climathon, realizado simultaneamente em várias cidades do mundo, foi articulado pelo WWI-Worldwatch Institute para abastecer o Acordo de Paris com soluções locais para os desafios das mudanças climáticas.

Todos os aspectos de nossas vidas hoje são afetados de alguma forma pela engenharia de software - seja a mídia que lemos ou a fruta que comemos - e existe um enorme potencial para gerenciar melhor os problemas que enfrentamos, disse Reuben Katz, fundador e CEO da Geeklist [blog.geekli.st], plataforma social para desenvolvedores e a comunidade tecnológica. Hackathons podem ser presenciais ou virtuais e qualquer um pode ativar ideias, ou negócios, seguindo as regras do hackdaymanifesto.com.

A cidade baiana de Piritiba, por exemplo, situada no piemonte da Chapada Diamantina, famosa pelo seu São João, fará o seu primeiro hackathon dia 18 de agosto próximo, reunindo gente do Brasil e do mundo para ativar-se como Cidade Digital, ligada à Rede Nacional de Pesquisa (RNP), aos Institutos Federais (IFs) e adotando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS da ONU, migrando do status de cidade do interior da Bahia para ponto ativado do planeta, entendendo que o universo virtual do conhecimento busca pontos para chamar de  seu.

Hackathons espalham-se por localidades do mundo. As centenas de candidatos inscritos para seleção dos 50 que participaram do evento do Centro Histórico de Salvador, no último fim de semana, revelam a ânsia atemporal de colocar o conhecimento a serviço do desenvolvimento, concordando com Platão quando afirmou: “A necessidade é a mãe da inovação”.

Eduardo Athayde é diretor do WWI-Worldwatch Institute – eduathayde@gmail.com