Se perdendo no tempo: azulejos seculares da Ordem Terceira descascam

salvador
07.07.2017, 05:30:00
Atualizado: 07.07.2017, 13:20:33

Se perdendo no tempo: azulejos seculares da Ordem Terceira descascam

Igreja é tombada como patrimônio histórico desde 1939 e última restauração aconteceu há cerca de 20 anos

Em meio às seculares acomodações da Ordem Terceira de São Francisco, onde funcionam a Igreja e o Museu da Ordem, no Terreiro de Jesus, em Salvador, o guia Carmelito Gabriel Ferreira, 55 anos, descreve com detalhes a história impressa em cada pedaço de azulejo que recobre as paredes.

“Estou aqui há 30 anos e sempre que encontro algum detalhe, vou pesquisar”, conta o guia, também historiador. A memória de Carmelito contrasta com o estado das instalações, do século XVII, tombadas em 1939 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Turista de São Paulo, Roberto Carlos Gomes, 51, pela primeira vez no lugar, se impressionou com o volume de história exposta, mas lamentou ver os registros descascados: “Não é o tipo da coisa que deveriam deixar o tempo tomar conta”.

Trazidos de Lisboa em 1753, os 19 painéis de azulejos retratam o cortejo do casamento de Dom José I, futuro rei, com Mariana Vitória de Bourbon e Farnésio, em 1729. O mau estado deles foi tema de uma reportagem da Folha de S. Paulo.

Enquanto os painéis mostram Lisboa de séculos atrás, Carmelito aponta detalhes da ação do tempo, do descaso do poder público, e das mãos de quem ele chama de “visitantes mal-educados”. “Esse chão daqui era de jacarandá, mas já foi trocado. Temos infiltração e a coluna [de ouro] da igreja foi raspada por visitantes”.

Mais peças
O acervo do museu traz ainda vasos históricos da Europa e Ásia, roupas usadas pelos padres que passaram pela igreja, além de objetos mais inusitados, como uma máquina de fazer hóstias e um aparelho telefônico que, segundo o guia, foi dado de presente pelo inventor, Graham Bell, a Dom Pedro II. Empoeirado, parece aguardar um chamado de socorro.

Ainda há uma pia chinesa e um órgão alemão, com 860 tubos de chumbo, que, de tão potente, danificou o teto e os cristais da igreja. Carmelito conta que são necessárias seis pessoas para manusear o instrumento. Após a restauração, prevista para acontecer em Munique (Alemanha), sem data, ele não será tocado.

Restaurar de novo
Há cerca de 20 anos, uma restauração dos painéis de azulejos da Ordem foi feita pela portuguesa Fundação Ricardo do Espírito Santo. A obra, segundo a recepcionista do museu, Marilice Natividade, 47, durou cerca de dois anos e teve um bom resultado. “Quando eles entregaram o serviço, estava bom, mas uns cinco anos depois começou a descascar e apareceram os primeiros sinais de infiltração”, conta.

Segundo o diretor executivo da Ordem, Jayme Baleeiro Neto, a parceria com instituições portuguesas é antiga. “A Ordem Terceira é muito ligada a Portugal desde sua fundação, porque os países eram uma coisa só e esses laços se mantiveram”, diz. Baleeiro, que tomou posse do cargo em 2013, não sabe dizer quanto custou a obra.

De acordo com o professor de História da Arte da Ufba e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), Luiz Alberto Freire, não foram capacidades técnicas que gabaritaram a Fundação Ricardo do Espírito Santo: “Essa fundação é conhecida por preparar técnicos para fazer réplicas de qualquer coisa antiga, mas não tem condições de fazer um restauro como a ciência manda”.

Freire cita que a organização queria voltar para refazer a obra, mas a igreja não quis. “Eles deveriam ter tirado as pedras e dessalinizado, reparado a infiltração e criado um suporte intermediário para evitar que fosse afetado novamente”, completa.

Diálogo
Jayme Baleeiro critica a falta de diálogo com o Iphan: “O tombamento é muito bonito no papel, mas cria limitações. Qualquer coisa que a gente queira fazer na estrutura tem que submeter ao Iphan e não há diálogo com eles”, diz.

Ainda de acordo com o diretor, o instituto poderia ceder os técnicos para uma estimativa dos custos da restauração. Em nota, o Iphan informou que, nos últimos anos, não houve solicitação por parte da Ordem Terceira de São Francisco para recuperação da azulejaria e que não há projeto elaborado para a recuperação integral dos painéis - e não há como estimar os custos dos serviços.

O órgão fiscaliza o estado de conservação dos bens tombados, mas cabe ao proprietário a manutenção e a conservação. Enquanto as partes não se entendem, o patrimônio sacro e artístico da Ordem segue descascando e virando poeira no porão do tempo.

Recuperação obedece várias etapas

O restaurador José Dirson Argolo, responsável pela recuperação da azulejaria do Convento e Igreja de Santo Antônio, em Cairu, explica que o procedimento de recuperação nessas estruturas costuma ser complexo.

Primeiro, antes mesmo de remover os azulejos, eles precisariam ser fixados provisoriamente para que nenhum pedaço se soltasse na retirada definitiva. A partir daí, cada azulejo teria que passar por um faceamento, que é uma espécie de adesivo para segurar a pintura original. Assim, após a retirada, eles passariam por uma fixação e só depois deveria ser feita a dessalinização.

Em seguida, as lacunas deveriam ser  preenchidas e as partes, reintegradas com um produto conhecido como Hxtal, para que as peças continuem protegidas. Ainda segundo ele, os azulejos devem ser fixados numa placa de acrílico ou em fibra de cimento sem amianto, deixando-os afastados da parede para evitar novos problemas com salitre e infiltração.

Além da Ordem Terceira, uma série de edificações sacras na cidade de Salvador possuem azulejarias portuguesas. “O patrimônio de azulejos na Bahia é enorme. Temos na Igreja do Bonfim, na Igreja de Nossa Senhora da Saúde e da Glória, nos conventos do Carmo e do Desterro”, descreve o historiador Luiz Alberto Freire.