Artes cênicas se aliam à tecnologia nos palcos baianos

Relação entre cultura e tecnologia será debatida no Agenda Bahia, nesta sexta-feira (11)

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  • Roberto Midlej

Publicado em 11 de agosto de 2023 às 06:00

Drácula foi encenada em 2012, com direção de Márcio Meirelles
Drácula foi encenada em 2012, com direção de Márcio Meirelles Crédito: João Meirelles/divulgação

Não é possível dizer com precisão quando o teatro nasceu. Mas sabe-se que, no mundo ocidental, as primeiras peças, tal como concebemos atualmente, começaram a ser encenadas na Grécia, mais ou menos no século VI a.C. E também na Roma Antiga o teatro se desenvolveu muito nos séculos seguintes.

Em seu início, o teatro pouco dispunha de recursos tecnológicos, até porque poucos existiam. A iluminação artificial, se houvesse, teria que ser à base do fogo, já que não havia energia elétrica. A trilha sonora, se fosse usada, tinha que ser executada ao vivo, afinal, não era possível gravá-la. Os efeitos sonoros, no começo, tinham que ser realizados artesanalmente.

Mas aproximadamente 25 séculos depois, o espetáculo teatral acompanhou a tecnologia e passou por muitas transformações. E os artistas baianos mostram que fazem o possível para acompanhar essa evolução. O diretor e dramaturgo Márcio Meirelles é um desses entusiastas da tecnologia nos palcos e foi um dos pioneiros no estado.

Em 1982, por exemplo, no espetáculo Fantásticos Episódios da Vida Íntima de Fernando e Ana, ele colocou em cena um aparelho de TV com que os atores interagiam. Márcio diz que o interesse em levar a tecnologia para suas peças surgiu a partir de viagens que realizou, quando assistiu a montagens fora da Bahia.

E ele não parou ali, tanto que há pouco tempo, durante a pandemia, usou a internet para montar seis espetáculos transmitidos online. Muitos, claro, perguntaram: mas, afinal, isso é teatro? Para Márcio, essa pergunta dos puristas não importa muito. 

"O teatro é tanta coisa... pode ser no palco, fora do palco, na rua... O que importa mesmo é a experiência do compartilhamento. A obra é concebida para acontecer junto ao público, porque o teatro é uma assembleia"

Márcio Meirelles
diretor de teatro

As seis montagens foram encenadas ao vivo em vez de pré-gravadas. "Discutir se é cinema ou teatro é uma bobagem. cinema tem uma linguagem própria e às vezes até uso recursos do teatro. Assim como o teatro usa recursos do cinema, da arquitetura, da dança...", defende Márcio.

Drácula

Outra experiência do diretor com a tecnologia havia sido em 2012, com a montagem de Drácula. No espetáculo, nenhum ator interpretava o personagem-título e um vídeo era exibido durante toda a peça. "No vídeo, às vezes uma imagem aparecia para compôr o cenário. Às vezes, surgia ali um ator com falas inteiras que dialogava com outro ator no palco", lembra Márcio.

De uma geração mais nova, o diretor e ator Marcus Lobo também aderiu às novas tecnologias. Ele desenvolve uma pesquisa sobre como as tecnologias da comunicação têm modificado a visualidade da cena. "Tenho usado em meus espetáculos a ideia do teatro-filme, que é o audiovisual como espetáculo, mas não apenas como cenário. O audiovisual cria outras possiblidades narrativas. E a tecnologia permite o espectador ver a cena de outra forma", argumenta Marcus.

Escorpião, dirigida por Marcus Lobo
Escorpião, dirigida por Marcus Lobo Crédito: Diney Araújo/divulgação

Um dos exemplos de fusão entre o teatro e o audiovisual realizado por Marcus foi em 2019, na montagem Escorpião, do grupo Ateliêvoador. No final da apresentação, no Teatro Vila Velha, o público recebia um QR Code que permitia assistir à continuação da montagem na internet. "Escorpião é uma experiência visual com formato cinematográfico dentro da linguagem do teatro", disse o diretor na época.

Teatroestendido

Djalma Thürler, autor daquele texto e também integrante da Ateliêvoador, chamou a inovadora experiência de "teatroestendido", em um artigo que escreveu. "Aquela foi uma virada na história da companhia, com a tecnologia usada daquela maneira. Marcus fez o que chamamos de cinema-teatro, o que era inédito na cena baiana e que chamou muito a atenção", defende Djalma.

Pouco tempo após Escorpião, Marcus realizou, durante a pandemia, uma experiência ainda mais radical envolvendo teatro e tecnologia, com o projeto Inimigos, que ele realizou com o Coletivo Coato. A partir do texto original do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, Marcus criou um espetáculo-game. No lugar do ingresso, o espectador recebia virtualmente uma espécie de manual de instruções, que explicava como funcionava a experiência.

O espectador baixava um app e escolhia um dos personagens para jogar.

"A interface era o celular do personagem. Era como se o espectador tivesse acesso ao conteúdo do aparelho do personagem e tomasse decisões por ele. Não tinha um fim específico e podia passar duas ou três horas interagindo. A ideia era dar autonomia ao espectador"

Marcus Lobo
diretor e ator, sobre a peça Escorpião

Mas onde estava a arte cênica ali? "Todos os vídeos eram gravados com atores. Nós tínhamos texto do teatro adaptados e cenas gravadas. Os personagens ligavam um para o outro e o espectador às vezes recebia uma chamada. Ele decidia se aceitava ou não", exemplifica Marcus.

Embora a tecnologia esteja cada vez mais presente nas artes cênicas, Márcio Meirelles defende que ela tem que estar a serviço da arte e só deve ser usada quando necessário: "Se não, acaba virando um 'showroom' de demonstração tecnológica. Eu percebo a necessidade de usar a tecnologia à medida que crio uma peça".

Robótica

Nas artes visuais, a dupla Laís Machado e Diego Araúja recorre à robótica. Foi o que os dois fizeram numa mostra do Sesc, em São Paulo, no ano passado, com a instalação Sumidouro, que era composta por palha e trilhos motorizados por Arduino. Lais diz que começou suas experiências com tecnologia nas artes visuais usando caixinhas de som de camelô e foi evoluindo, até chegar à complexidade da Sumidouro, que tinha em torno de cem metros quadrados.

O Arduino é uma plataforma programável que permite aos usuários criar objetos eletrônicos interativos e independentes. No Sumidouro, era o Arduino que permitia a movimentação das peças. "O Arduino foi pensado para ser usado por artistas. É um elemento de computação que apareceu como solução para a arte". E, ao contrário do que muitos pensam, Lais diz que o Arduino não é caro. No caso da Sumidouro, os 80 quilos de palha usados na instalação custaram mais que a plataforma programável. Em breve, na Bienal de São Paulo, haverá uma nova obra da dupla, que é uma espécie de continuação da Sumidouro.

Esse debate sobre a relação entre tecnologia e arte promete se estender e ainda gerar polêmica. Por isso, um dos palcos dessa discussão será o Agenda Bahia, que acontece nesta sexta-feira (11) a partir das 8h e vai discutir esse assunto, entre outros, no Senai Cimatec.

O Agenda Bahia é uma realização do CORREIO, com patrocínio da Unipar, apoio institucional da Prefeitura de Salvador, FIEB, Sebrae e Rede Bahia, apoio da Wilson Sons, Salvador Bahia Airport, Suzano, Sotero, Solví, Salvador Shopping Online e 4events e parceria da Braskem, Rede+ e Latitude 13.