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Donaldson Gomes
Publicado em 18 de agosto de 2024 às 05:00
Há algum tempo que o agronegócio iniciou um movimento no sentido de mostrar mais a sua relevância para a sociedade. E este é um caminho sem volta, acredita Carminha Gatto Missio. “Temos que mostrar a importância do campo para quem está na cidade, mas até mesmo para quem está na zona rural também. Precisamos estreitar laços”. A mulher de olhos vibrantes sabe do que está falando. Uma das 100 mulheres influentes no agronegócio brasileiro de acordo com a Forbes, Carminha é presidente do Instituto Agropecuário (Iagro) e vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb). >
Formada em Direito, mas agricultora por vocação, é daquele tipo de interlocutora que faz a gente ficar bem quietinho apreciando o domínio e a paixão com que fala sobre a vida no campo. O único momento na conversa de pouco menos de meia hora em que faltam palavras é quando ela se lembra da vinda do Rio Grande do Sul para a Bahia, ainda na década de 80. “Eu tenho muito orgulho de dizer que já nasci agricultora. E sou uma filha adotiva do Nordeste, daqui da Bahia”, diz com a voz ainda embargada. >
Quando a família migrou do Rio Grande do Sul para o Oeste da Bahia, o cenário no país era de uma grande crise. “Tínhamos força de trabalho, porque a família era numerosa, mas não tínhamos capital para investir. Havia uma necessidade de encontrar um lugar para realizar os sonhos de cada um”, lembra. Os primeiros a sair foram os pais e os irmãos. “Chegaram aqui e foram muito bem recebidos”, conta. “Viemos para uma região nova, absolutamente desconhecida, e meu pai teve uma visão. ‘Eu até gostei, porque, embora o solo seja muito diferente, é tudo plano’ e decidiu vir”. “Éramos 11 irmãos, e à medida em que íamos crescendo e cada um precisava constituir suas famílias, era necessário buscar novas oportunidades”, lembra. >
“Nos unimos a pessoas que vieram de todo o Brasil e ajudamos a transformar esta região naquilo que ela é hoje”, afirma. Uma das lembranças que a Bahia substituiu foi a de trabalhar no frio, quando criança. “Se Deus quiser, nunca mais sentirei a sensação de ter que ir para o campo no frio cortante para ordenhar vaca, lavando roupas na água congelada. É difícil até lembrar disso, mas estou contando para dizer o quanto eu sou feliz na Bahia, sendo agricultora aqui”, compara. >
Pioneirismo>
A sua família é uma das pioneiras na região Oeste da Bahia. Primeiro vieram os pais e algum tempo depois ela chega com o marido. Mas este não é o único papel de vanguarda na vida de Carminha. Se hoje é cada vez mais comum a presença de mulheres no campo, em papéis cada vez mais destacados, ela já atua na linha de frente há muito tempo. “As mulheres sempre estiveram presentes, mas era algo mais de bastidores. Mas de algum tempo para cá, quando a força física deixou de ser preponderante, graças aos avanços tecnológicos, nós mulheres conseguimos mostrar que temos competências para agregar em vários segmentos”, avalia ela, que será uma das palestrantes do Agenda Bahia, que acontece na próxima sexta-feira (dia 23), no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). >
“Hoje quando a gente pensa nos espaços de gestão, na parte técnica, ou em qualquer outra área, passamos a caminhar de mãos dadas, mostrando que temos capacitações que nos permitem estar em qualquer lugar, sem esquecer que não se trata de nós nos sobrepomos aos homens”, acredita. “Só para te dar uma ideia, a gente capacita mulheres para a operação de colheitadeiras, uma atividade que é tão tecnificada que permite mesmo às grávidas, ou mães com bebês de colo, podem gerenciar a operação junto com o seu filho”, exemplifica. Segundo ela, a cena não é comum, mas é perfeitamente possível, graças à automação. Tudo sem nenhum esforço físico ou desgaste para a criança ou a mãe. >
“O agricultor sempre foi tratado como uma peça menos importante na economia. Muitas vezes a imagem que se faz é de alguém que tem na atividade apenas a fonte de subsistência”, analisa. É como se fosse uma atividade menos simplória e, às vezes, até dispensável. “Certamente, a agricultura é uma atividade menos valorada, quando todos nós, seres humanos, dependemos de alimento e agasalho”, pondera. >
O Agronegócio é responsável por 24,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, de acordo com dados calculados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - Cepea/Esalq/USP – em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).>
Para atender às demandas de uma população cada vez maior, a agricultura vem se modernizando e está cada vez mais distante do imaginário que se faz a respeito dela, aponta Carminha. “A gente demorou um pouco para começar a falar sobre isso”, reconhece. Ela diz que sonha com o momento em que a produção agrícola passará a ser associada ao respeito à ciência, ao uso da tecnologia e à responsabilidade social e ambiental. “A gente já enxerga jovens que sonham com profissões ligadas ao campo, como agronomia, veterinária e nutrição animal, mas também casos de pessoas que pensam em direcionar profissões tradicionais ao campo”, diz. >
E para quem imagina que o avanço tecnológico é sinônimo da falta de oportunidades, Carminha pondera: “não desemprega, mudam os tipos de oportunidades disponíveis. É cada vez menos trabalho braçal e mais tecnologia”. >
O Agenda Bahia é uma realização do Jornal Correio com patrocínio da Acelen, Tronox e Unipar, apoio institucional da FIEB, Sebrae e apoio da Bracell, Grupo Luiz Mendonça - Bravo Caminhões e Ônibus e AuraBrasil, Plano Brasil Saúde, Salvador Bahia Airport, Salvador Shopping, Suzano, Wilson Sons e parceria da Braskem. >