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Alberto pega presentes de Yemanjá, salvou uma vida no mar e é dono d'A Borracharia

Sabonetes, colares de ouro, santos, histórias de LSD, uma prancha Musa e um mergulho que rendeu vida nova a um pescador

  • Foto do(a) author(a) Joana Rizério
  • Joana Rizério

Publicado em 29 de novembro de 2025 às 05:00

Alberto Magno de Freitas, o mergulhador da madrugada
Alberto Magno de Freitas, o mergulhador da madrugada Crédito: Gabriel Coimbra/ Divulgação

Às quatro e vinte da manhã do dia 3 de fevereiro, um homem de 62 anos larga os chinelos na areia da Praia de Santana, no Rio Vermelho, bairro boêmio de Salvador. Ele tem cabelos lisos e compridos e leva uma pequena tarrafa numa das mãos. Na outra, carrega uma boia sinalizadora. Falta pouco mais de uma hora para o nascer do sol. Ele calça os pés de pato, coloca os óculos de natação e o respirador e some nas ondas para caçar os sabonetes e perfumes que o povo devoto jogou no mar no dia anterior, durante a festa de Yemanjá.

Uma hora e meia depois do mergulho, já é manhã, e o homem retorna à areia com uma redinha cheia de lavadelas de todas as cores.

Na padaria da rua onde mora, ele encomenda um suco de frutas tropicais da estação, que fica cor-de-rosa por causa da adição de beterraba. Cumprimenta Orangotango, amigo seu que mora na rua desde que ficou louco, há mais de 20 anos, e lhe entrega uma nota de 20 reais. Cumprimenta também o pássaro preto na gaiola de sua casa, que sempre cagueta com seu canto o momento em que o homem passa.

Alberto Magno de Freitas se diverte com os achados no mar do Rio Vermelho por Gabriel Coimbra/Divulgação

O almoço daquele dia foi feijoada.

Alberto Magno de Freitas, o mergulhador da madrugada, surfa, pesca e é empresário da noite. Ele é dono da Borracharia, uma das mais famosas casas de show de Salvador. O lugar já foi um endereço onde se consertavam carros. Pilhas de pneus continuam por lá e enfeitam a pista de dança, como para não fazer ninguém se esquecer da história do lugar.

De camisa aberta ou camisa nenhuma, Alberto anda pelo bairro ou guia o Louva-a-deus, seu Volkswagen Santana Quantum ano 1992. Ele cumprimenta pessoas a cada passo que avança, como se fosse um vereador com ficha imaculada.

Os comerciantes e aqueles que transam alguma moeda pela rua, a exemplo dos catadores de latinhas e dos guardadores de carro, são os que mais fazem festa pelo homem que coleciona mais de meio século de histórias mirabolantes.

Uma delas se deu em março de 1984 e mereceu as páginas do finado Jornal da Bahia com o título “Naufrágio e morte nas águas do Rio Vermelho”.

O recorte amarelado do periódico é como um tesouro marítimo que Alberto jamais perdeu na bagunça de seu pequeno apartamento, que fica nos fundos da imensa casa construída por seus pais e que resiste à especulação imobiliária do bairro.

“Quando já alcançava a praia do Rio Vermelho”, lê-se na matéria, “ao voltar de uma pescaria, um barco, com três tripulantes, foi atingido por uma onda. Seus tripulantes lançaram-se ao mar. Pouco depois, outra onda afundou o barco. Três pescadores que estavam na praia nadaram para o local do acidente, tentando salvar os companheiros. Três surfistas e um funcionário do Salvamar fizeram o mesmo. Uma hora depois – por volta das 17:30 horas – o resultado do acidente: o pescador Otávio de Jesus, conhecido como “Tavinho” – desaparecido (presume-se que tenha morrido) e outro, Wilson Xavier da Costa, com graves ferimentos.”

Um dos surfistas era Alberto, e o que o repórter deixou de informar foi como ele chegou até o mar do Rio Vermelho naquele dia.

“Quando ninguém mais conseguia entrar no mar, mandaram me chamar. Modéstia à parte, eu sempre fui como um peixe. Mas eu estava doidão, tinha experimentado cinco doses de LSD puro que ganhei de uma amiga gringa”, diz Alberto.

“As águas de março são sempre perigosas, mas nunca vi, nem antes e nem depois, um temporal como aquele”, recorda.

Naquela tarde, enquanto era consumido pela lisergia, ele buscou em casa sua prancha de surf da marca Musa e entrou no mar. Chegou a ver Tavinho, mas teve a certeza, pelo seu jeito de corpo, que ele já havia morrido. Concentrou-se em se aproximar de Wilson, que ainda lutava para respirar.

“Furei a arrebentação com a ponta da prancha. A onda quebrou em cima de mim e eu fiquei no fundo do mar um tempão. De repente, eu não precisava mais subir para respirar, porque guelras surgiram nos meus braços e pernas. Brotaram barbatanas como as de um tubarão-baleia, desses que, de vez em quando, antes de estragarem tudo com a construção dos emissários submarinos, a gente encontrava em alto-mar, na frente da Torrefação”. Ele faz um parêntesis para explicar. “A praia na frente do que hoje é o Teatro Sesi ganhou esse nome porque era uma fábrica de café. A gente surfava, e o pó de café tingia a gente de marrom”.

Com suas guelras e barbatanas imaginárias, Alberto superou as ondas e alcançou Wilson. Quando chegou à praia com o pescador vivo, a multidão o carregou. “Pelo menos, salvamos um”, pondera.

Há 40 anos, Alberto tinha fama de brigão, sortudo, mulherengo e maconheiro. “Tinha muita gente que não gostava de mim, sobretudo na polícia. No dia seguinte ao salvamento, uma verdadeira manhã de bonança, uma viatura parou à frente da minha borracharia e avisou que o chefe da polícia queria dar uma palavrinha comigo. Fiquei cabreiro, mas os homens sabiam onde me encontrar e era melhor que eu me apresentasse primeiro. Quando cheguei à delegacia, o homem veio ter comigo de olhos marejados. ‘Você salvou a vida de meu irmão ontem, meu filho’, falou o oficial. E garantiu que, enquanto eu vivesse, nunca mais teria problemas com as autoridades”, conta Alberto.

Essa escolta perene foi muito bem-vinda quando a sua oficina mecânica virou uma das maiores casas de show da cidade. “Na nossa área, até hoje, não tem assalto ou confusão”.

“Minha turma roubava carros por esporte, batia em vagabundo, tomava as namoradas dos otários e parecia que tinha parte com a rainha das águas, porque nem o pescador mais antigo e habilidoso conseguia tirar da tarrafa mais peixes que a gente. Você pode não acreditar, mas houve um dia em que eu pesquei 200 lagostas em menos de uma hora”, garante Alberto, e explica: “Eu não revelo o pulo do gato para ninguém, mas sei a hora em que os peixes dormem. Chego tão de mansinho que os capturo quando estão sonhando com plânctons saborosos”.

Pergunto-lhe se fez um pé de meia ao pescar tantos frutos do mar valiosos, e ele veementemente nega. “Ganhei dinheiro com muita coisa na vida, mas nunca vendi uma pititinga. Eu tenho certeza que Deus me deu esse dom de obter comida de graça para eu dividir com as pessoas. No tempo em que eu pescava todo dia, eu fazia ensopados, moquecas e fritadas para quem quisesse”, recorda.

Alberto tem um terço católico tatuado em volta do pescoço e reza todas as noites para encontrar logo seus pais. “Não é que eu queira morrer, mas tenho tanta saudade de meu pai que sonho em tomar outra surra dele, só para vê-lo de novo”.

O pai era dentista no hospital psiquiátrico Juliano Moreira, para onde levava o menino Alberto, que aprendeu cedo a conversar com os malucos, habilidade que conserva para lidar com os egressos de manicômios que perambulam pelo bairro. Sua mãe era professora primária em várias cidades do interior.

Alberto chora ao falar dos pais, que morreram há cerca de uma década, e garante que não tê-los é uma das únicas tristezas que tem na vida.

No braço direito, tem tatuado “25:17”, uma referência à cena de Pulp Fiction (Quentin Tarantino, EUA, 1994) em que o personagem Jules, vivido por Samuel L. Jackson, escapa ileso de uma rajada de balas e declama o versículo bíblico de Ezequiel que fala sobre a vingança de Deus contra aqueles que o desafiam.

Não parece estacionar no Todo-Poderoso a relação de Alberto com o divino. Ele diz que nunca procurou saber, mas que todos os entendidos do axé que cruzam o seu caminho falam que o seu ori, palavra em iorubá para cabeça, pertence a Yemanjá. As festas do Dois de Fevereiro, quando o Rio Vermelho entra em alvoroço para reverenciar a orixá que protege os mares, são mais importantes que a data de seu aniversário.

“O mar, a 200 metros da costa, fica cheirando a alfazema por dias. As velas que os devotos oferecem nos balaios eu uso na minha casa. Tem gente que fala em energia pesada, mas eu acho que o mar limpa qualquer feitiço. Eu mergulho e cato tudo. Se você quiser pegar só sabonetes, você pega quantos em uma hora, no dia 3 de fevereiro?”, pergunta Alberto a Marcelo, seu irmão de consideração, que não responde porque parece mais interessado em tocar a sua gaita.

“Agora, me diga: estão jogando para quê, para os peixes comerem? Para quem é? Para Yemanjá tomar banho? Jogam perfume para Yemanjá se perfumar?”, questiona Alberto, sem esconder a crítica que sempre faz ao descuido de quase todos os frequentadores do Rio Vermelho com a natureza, e não isenta nem os adeptos da entidade do candomblé, que costumam atirar muito plástico e outros materiais poluentes em suas oferendas.

“Pega essas coisas e dá para uma instituição de caridade, melhor do que ficar poluindo o mar”, critica Alberto.

“Mas você pega e usa, não é?”, eu pergunto.

“Eu pego, passo na água doce, passo por um plástico-filme, para não perder o teor, e uso o ano inteiro. Phebo, Francis, Lux, várias marcas. Agora, já está acabando o deste ano”.

“Você vai comprar algum ou esperar o Dois de Fevereiro?”.

Ele dá uma gargalhada e diz que vai comprar. “Senão, fica aquela inhaca de gambá, não presta, não”.

Nada que veio do mar trouxe tanta bem-aventurança a Alberto quanto as imagens religiosas, as peças náuticas e os tesouros improváveis que ele colecionou e pôs em exposição na Borracharia.

Alberto conta como transformou o lugar em uma casa de shows.

“Fazíamos de tudo lá: tinha retífica, funilaria, elétrica, chaparia, tudo. Um dia, um excêntrico aí, um ricaço da cidade, inventou que o piso de paralelepípedos da Borracharia, assentado por mim mesmo e pelos meus amigos – nada, nada é tão difícil quanto mover um caminhão de pedras, minha filha –, seria o endereço ideal para uma festa, e alugaram o espaço por uma noite. Neste dia, percebemos o nosso imenso potencial noturno e passamos a viver de portas abertas porque, de manhã, quando acabava a festa, chegavam os mecânicos para trabalhar, e quando eles terminavam o serviço, vinham os DJs e o público”, explica Alberto.

A Borracharia já existe há 25 anos e nem a lógica, nem a mística explicam por que as demais casas de show do Rio Vermelho, um bairro bem colocadíssimo no imaginário da população soteropolitana como o endereço de boas festas, não duram o tempo do cozimento de um miojo, enquanto a porta preta de ferro situada na Rua Conselheiro Pedro Luís resiste a qualquer intempérie.

Durante este último quarto de século, todos os clubes, sem exceção, trocaram de dono, de nome, de ambos, mas não escaparam à falência e viraram mausoléus.

A Borracharia sobreviveu à especulação surgida depois da tragédia da Boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013, na cidade gaúcha de Santa Maria, quando 242 pessoas morreram durante um incêndio.

“Foi muito triste ver que as pessoas começaram a fazer comparações e a temer que alguma coisa de ruim acontecesse lá também depois daquele incêndio. Mas a gente não discutiu com a voz de Deus e, na humildade, reformou a casa por inteiro e instalou todos os esquemas de segurança possíveis. Não se falou mais em Boate Kiss lá dentro”, comenta Alberto, com alívio.

Antes da reforma na Borracharia, Alberto morava em um quarto construído sobre um mezanino dentro da própria boate. Ele investiu uma grana extra para aproveitar as vigas da reforma e construir um apartamentinho sobre uma laje de madeira perto da saída de emergência, que fica nos fundos da casa dos pais.

Alberto vive em um modesto lar sem acabamento, com telhado de zinco, um quarto sem porta, um banheiro sem parede e uma porção de objetos aleatórios retirados do mar, para variar. O lugar parece a moradia ideal de um velho lobo solitário que subverteu as regras do capitalismo porque descobriu logo cedo os tesouros debaixo das ondas.

Nas paredes, quadros de Carmen Miranda, de Jesus Cristo, de São Cosme e Damião e um velho cartaz de cinema italiano cujo título não se pode mais decifrar. Enquanto determina com a mão o ponto certo onde cortar com o seu afiado facão uma calça jeans surrada para transformá-la em bermuda – “Só guardo uma dessas inteira, que é para quando eu preciso visitar repartições” –, Alberto diz já não ter mais pique para ficar à frente de seu negócio, que hoje é capitaneado por seus sobrinhos, e recebe uma espécie de pró-labore, que ele chama de mesada.

Estou a bordo do Louva-a-deus, e Alberto para no bairro da Boca do Rio para dar carona a um de seus maiores amigos, Muhammad.

“O cara é neto de sírios, e todos sabem como são os árabes quando o assunto é comércio. Uns lugares parecem ter uma caveira de burro enterrada na fundação, feitiço de inimigo para o negócio dar errado. Debaixo do barro da Borracharia deve ter a lâmpada do Aladim”, diz Muhammad, fantasiando sobre o sucesso e permanência da casa noturna.

“O que a Borracharia tem?”, pergunto a alguém famoso no Brasil inteiro e especialista em boas festas, o cantor e compositor da banda Planet Hemp Bernardo BNegão.

“O que a Borracharia tem eu não sei, mas há muitos anos ela é o pós-show mais tradicional da cidade”, diz o músico, que, depois de se apresentar na Concha Acústica no último dia 13 de setembro, foi direto conferir o set do seu amigo Lucio K, DJ residente da Borracharia.

“Já achou alguma coisa realmente valiosa?”

Minha pergunta se dirige a Alberto, em uma de nossas infinitas conversas.

“Só uns 100 colares de ouro 18 quilates”, responde Alberto, e expõe seu plano para o futuro:

“Vou comprar um detector não de metais, mas de ouro. Algo me diz que há muitos séculos algum pirata correndo perigo avistou essa enseadinha que é o Rio Vermelho e escondeu algum tesouro por aqui. Um dia, vou achar essas moedas de ouro”.

“O que fará se achá-las?”

“Dividir com meus amigos, é lógico.”