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Thais Borges
Publicado em 3 de março de 2026 às 09:51
Na rodoviária de Feira de Santana, a jornalista Mara Rocha, 44 anos, se deu conta de que estava sem fones de ouvido. Decidiu comprar um ‘pirata’ no terminal, para ouvir música no caminho. O resultado: acabou ‘estourando’ os ouvidos. “Música boa, para mim, sempre foi alta. O problema é quando passei a ouvir essa música no fone de ouvido, fora dos ambientes privados, em público, com os auriculares no volume máximo. Acabei prejudicando minha audição", diz. >
Aos poucos, ela percebeu que havia algo diferente. As pessoas chamavam e ela não ouvia e, na sequência, começou a ter dificuldades para entender o que os outros diziam, sempre tendo que prestar muita atenção ao movimento dos lábios. Embora nunca tenha procurado atendimento médico, ela não conseguiu se recuperar 100%. “Continuo amando música alta, é mais forte do que eu. Mas evito os fones (de ouvido)", conta. >
Perda auditiva após exposição a ruídos pode ser irreversível
Em toda a Bahia, pelo menos 720 mil pessoas têm algum grau de perda auditiva, de acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas a chamada Perda Auditiva Induzida por Ruído (Pair) tem crescido nos últimos anos, apesar da falta de dados locais. O Dia Mundial da Audição é comemorado nesta terça-feira (3). >
Estudos internacionais têm mostrado essa tendência: nos Estados Unidos, por exemplo, segundo o National Institute of Deafness and Other Communication Disorders, estima-se que 24% dos adultos apresentem algum nível de problema devido à exposição a ruídos. Em todo o país, no mesmo período de cinco anos, foram pouco mais de 2,5 mil trabalhadores afastados por perdas auditivas provocadas por ruídos. >
De acordo com o médico otorrinolaringologista Felipe Carvalho Leão, professor da Afya Educação Médica Salvador e doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), exposições frequentes a atividades de lazer com som alto, a exemplo de shows, festas, trios e casas noturnas, aumentam o risco de dano auditivo porque a dose de ruído costuma ser elevada e prolongada. “Salvador tem uma cultura musical muito intensa e isso pode significar mais oportunidades de exposição, tanto para quem frequenta quanto para quem trabalha com música e eventos”, pontua. >
No caso de fones de ouvido, o dano auditivo é geralmente silencioso e cumulativo. Ou seja, a pessoa se expõe a volumes altos por muito tempo e só percebe quando a perda já ficou relevante. Sons intensos podem provocar lesões estruturas muito delicadas da orelha interna, onde ficam as células responsáveis por transformar o som em sinais para o cérebro. O problema é que, uma vez danificadas, essas células não se regeneram.>
“Além da perda auditiva permanente, podem aparecer zumbido, incômodo exagerado com sons do dia a dia e uma queixa muito comum de ‘eu ouço, mas não entendo’, sobretudo em ambientes com barulho, como restaurantes, trânsito e festas”.>
Existe, contudo, um limite considerado seguro. De acordo com o otorrinolaringologista, uma dose segura é pensar em ‘dose de ruído’. Um exemplo que pode ser usado como referência é que 85 decibéis por até oito horas já representam um risco. Esse nível de decibéis corresponde a o barulho de trânsito pesado numa avenida, um secador de cabelo ou aspirador de pó bem perto, uma academia ou bar lotado com música alta ou de uma furadeira em uso. >
“É importante salientar que a cada aumento de apenas três decibéis, o tempo considerado seguro cai pela metade, então volumes muito altos ‘gastam’ sua cota diária em minutos. Para o uso cotidiano, uma orientação simples e prática é seguir a regra 80–90: tente não passar de cerca de 80% do volume máximo por mais de 90 minutos ao dia e, se possível, seja ainda mais conservador em torno de 60% do volume, especialmente quando o uso é prolongado”, orienta o médico.>
Permanente >
Ainda na adolescência, a assistente administrativo financeiro Jane Moreira, 39, passava por uma rua quando alguém soltou uma bomba muito perto. O estrondo trouxe efeitos imediatos. “Na hora, senti o ouvido um pouco tampado, com eco, ao mesmo tempo que fiquei um pouco surda”, lembra. >
Nos dias seguintes, parecia que um inseto tinha entrado no ouvido. O barulho não parava e estressava até nos momentos de silêncio. “Procurei um médico e relatei o que havia acontecido. Ele explicou que foi devido ao barulho ao qual fui exposta e me medicou. No início, o medicamento fez efeito, mas depois parou de funcionar. Precisei voltar, realizar audiometria e trocar a medicação”, conta.>
Ela nunca conseguiu recuperar totalmente a audição. Em um dos ouvidos, perdeu entre 30% e 40% da habilidade e teve que aprender a conviver com o zumbido. Não usa fones de ouvido e evita lugares barulhentos. “Viver com esse zumbido é não ter concentração nem silêncio, mesmo quando você quer ficar sozinha”. >
De acordo com o otorrinolaringologista Felipe Carvalho Leão, professor da Afya Educação Médica Salvador, a recuperação da audição é muito variável e depende do paciente e do tipo da lesão. Na maior parte das vezes, as lesões auditivas são irreversíveis, principalmente se ocasionadas por trauma acústico. Isso ocorre porque elas causam a morte das células do órgão da audição. >
“Em algumas outras situações, as lesões auditivas são, sim, reversíveis. Mas pacientes de populações alvo, mais vulneráveis, como idosos, pessoas com doenças crônicas, realmente têm uma dificuldade maior em recuperar a audição”, explica.>
O zumbido é um dos sintomas mais comuns de alerta de uma exposição indevida ao som e pode ser o primeiro aviso. Nem sempre vai indicar uma perda permanente, mas apresentar esse sintoma de forma repetitiva, após o som alto, é motivo para atenção e mudança de hábito.>
Segundo o otorrinolaringologista, todo momento é o ideal para procurar um especialista e toda pessoa deve passar por uma avaliação de audição, porque alterações podem surgir a qualquer idade. “Além disso, os sintomas de perda auditiva não são somente não ouvir, mas por vezes a queixa de ‘eu ouço, mas não entendo”, acrescenta o Leão, citando testes como a audiometria.>