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Flavia Azevedo
Publicado em 6 de junho de 2026 às 17:23
A primeira mensagem que recebi depois de publicar um texto sobre Jordan Campos, na semana passada, foi de uma mulher que se identificou como "assistente" dele. Disse que trabalham juntos. Ela também afirmou que meu texto não tinha cabimento, que era um absurdo, um horror. Pediu que eu retirasse do ar. Poderia ter apenas ignorado, mas decidi conversar com ela. Então, telefonei. >
Do outro lado da linha, havia uma mulher destruída, com a voz trêmula, defendendo um homem que, segundo as denúncias do Ministério Público destruiu outras mulheres. A "assistente" disse que tinha provas da inocência dele. Que a mídia estava perseguindo. Que as denunciantes estavam perseguindo. Que o Ministério Público estava perseguindo. Que o mundo inteiro estava perseguindo aquele homem "maravilhoso". Ela abriu mão de qualquer senso crítico, assim como de olhar para as outras mulheres. Tinha, essa é a palavra exata, uma paixão pelo denunciado.>
Não sou psicóloga nem psiquiatra. Sou apenas uma curiosa que lê, observa e presta atenção. Preciso deixar isso claro antes de continuar, porque o que vou trazer aqui é apenas interpretação de teoria amplamente acessível e não diagnóstico. Não estou classificando Jordan Campos nem ninguém como narcisista ou como qualquer outra coisa. Isso não me compete. Apenas observo um fenômeno que se repete, que tem nome na literatura especializada, e que ajuda a entender o que acontece quando escândalos como esse vêm à tona.>
O conceito se chama flying monkeys. Em português, "macacos voadores". O nome é emprestado do Mágico de Oz, onde a Bruxa Má envia seus macacos para fazer o trabalho sujo no lugar dela. Na psicologia, o termo descreve pessoas recrutadas por um abusador para agir em seu nome. Os "macacos" intimidam vítimas, atacam quem denuncia ou, minimamente, espalham a versão do agressor. Na prática, constroem um muro humano de proteção ao redor dele. Tudo isso, na maioria dos casos, sem ter consciência plena de que desempenham essa função.>
Esse fenômeno não é exclusivo de homens. Eles são a maioria esmagadora dos casos documentados e daqueles que aparecem nas manchetes, como Jordan, como João de Deus, como tantos líderes religiosos e coaches, que têm rostos masculinos. Mas mulheres também podem ocupar esse lugar. Líderes de seitas, professoras abusivas, chefes que destroem subordinadas, "instrutoras" que passam dos limites. O que define o fenômeno é a estrutura que, na maioria das vezes, é praticamente a mesma.>
Mas como os abusadores escolhem seus defensores? Antes de todos, estão aqueles tão criminosos quanto eles, que são aliados conscientes, por livre vontade. Mas a teoria aponta para alguns outros perfis recorrentes, e minha conversa com a assistente de Jordan foi assustadoramente pedagógica. >
Primeiro, há os que dependem do abusador, seja financeiramente, emocionalmente ou socialmente. Para essas pessoas, a queda do líder é a queda do próprio chão. Defender, então, vira questão de sobrevivência. Há também os que foram escolhidos por terem menos senso crítico. Essas são pessoas mais propensas a aceitar explicações prontas, mais confortáveis com hierarquia, menos habituadas a questionar figuras de autoridade. Quem abusa, em geral, identifica essas fragilidades muito rapidamente. E age em cima de cada uma delas.>
Há ainda um terceiro grupo, o dos que, não importando o perfil, foram deliberadamente bem tratados - mantidos próximos, valorizados, acolhidos - e tiveram a melhor versão do abusador. Esses também eventualmente estão disponíveis, leais e furiosos no dia em que as denúncias chegam. João de Deus, por exemplo, tem defensores fervorosos até hoje. Abadiana ainda recebe devotos. Isso faz parte da arquitetura do crime. Quem abusa constrói camadas de pessoas ao redor de si, e cada camada tem uma função.>
O que torna o "macaco voador" tão eficiente é exatamente o que o torna tão invisível para ele mesmo. A defesa parece autêntica exatamente porque é autêntica. Só que foi construída por outra pessoa, ao longo de muito tempo. Quando esse processo se completa, o "macaco voador" está pronto para defender que "crítica é inveja", "denúncia é perseguição" e que "a mídia é irresponsável" ao divulgar processos públicos. Foi exatamente isso que ouvi ao telefone.>
Na violência doméstica a gente reconhece o mesmo padrão. A sogra que jura que o filho nunca bateu em ninguém. A amiga que diz que a vítima exagerou. O colega que garante que ele é um homem maravilhoso. Nem sempre essas pessoas são cúmplices conscientes. Elas podem apenas ter recebido uma versão tão cuidadosamente editada da realidade que fica mesmo difícil acreditar em denúncias. O abusador doméstico e o guru do Instagram operam com ferramentas diferentes, mas a lógica é a mesma: cercar-se de pessoas que, no momento certo, farão o trabalho de defesa sem que ele precise pedir.>
O que a teoria também aponta é que ser um "macaco voador" não oferece proteção alguma. O mesmo abusador que mantém essa pessoa próxima e grata hoje vai, quando conveniente, expô-la, usá-la ou descartá-la. Ela é útil enquanto serve. Quando deixar de servir, o tratamento muda. Ou seja, a assistente furiosa que me ligou também está vulnerável. Só que ela ainda não sabe disso.>
Falei tudo para ela ao telefone. Sobre a arquitetura. Sobre o "pelotão de defesa". Sobre João de Deus. Ela ouviu em silêncio algumas vezes. Baixou o tom. Não sei o que fez com aquela conversa. Mas sei que, de todas as pessoas envolvidas nesse caso, ela está no lugar mais difícil de alcançar. Pelo óbvio: quem não se reconhece como vítima, não tem como procurar ajuda e se cuidar. >
Quando terminamos a ligação, fiquei pensando numa coisa que a teoria deixa implícita. O abusador não escolhe seus aliados "apesar" de poder prejudicá-los. Ele os escolhe sabendo que isso vai acontecer. A fidelidade que cada "macaco voador" oferece gratuitamente é exatamente o que o coloca, desde o início, do lado errado da história. Só que, muitas vezes, sem o direito de saber onde está nem o que, de verdade, está fazendo ali.>
Por @flaviaazevedoalmeida>