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Moyses Suzart
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 05:00
Jesus estava andando pelo mar da Galileia, quando avistou dois irmãos pescadores. “E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens”, disse o Salvador. E os dois, Pedro e André, largaram as redes e o seguiram. Se esta mesma cena retratada em Mateus (4:19) fosse nos dias atuais, certamente a frase seria essa: “Venham, e farei de vocês pescadores de players”. E o primeiro a se levantar seria o Padre Edson Ribeiro, com seu joystick do Playstation 5, revistinhas do X-Men, batina e, acima de tudo, sua fé inabalável. Nos tempos em que a igreja tem seu primeiro padroeiro da internet e um videogame pode se tornar uma relíquia sagrada, o sacerdote mineiro é a skin que Deus mandou à terra para fisgar os jovens da geração tecnológica. >
Com mais de 103 mil ovelhas, digo, seguidores no Instagram (@peedsonribeiro), o nerd e padre, não necessariamente nesta ordem, consegue levar o evangelho por meio do mundo geek. Assim como Jesus, o universo nerd é repleto de parábolas que levam a diversas reflexões. E é neste ponto que entra Edson, que consegue falar a mesma língua deste público que acaba se aproximando dos ensinamentos de Jesus com o controle na mão ou vendo um filme de herói. >
Padre Edson segue uma vida normal de um sacerdote católico. Há oito anos como religioso, celebra missa na Paróquia São José Operário, na cidade de Ubá, em Minas Gerais. Nas horas vagas, é um nerd como qualquer outro: adora jogos, HQs, filmes, RPG, animes e qualquer obra geek. O tempo é curto, mas ele consegue se atualizar como pode. Na verdade, ele primeiro foi do mundo nerd para depois seguir a vocação. Tanto que seu primeiro propósito na vida adulta era ser desenvolvedor de games. >
“Eu consumia muito jogo, anime e RPG quando era mais novo. Eu já era muito ligado no meio da tecnologia, inclusive fazia faculdade de Sistema de Informação, lá em 2005. Eu tinha muita vontade de ser desenvolvedor de jogos. Só que no Brasil não tinha ainda um campo dedicado a isso”, disse. A igreja agradece. Edson vem de uma família bem católica, o que o levou a aprofundar sua espiritualidade, trocando Sistema de Informação pelo Seminário. >
“Tem uma imagem muito lúdica da questão vocacional, né? Mas a nossa personalidade vai junto. Eu acabei levando isso pro seminário. No meu período de estudo, eu sempre tinha meu videogame guardado lá no seminário, para quando sobrasse um tempinho eu jogar. Eu sempre gostei desse ambiente, desse conteúdo. Continuei consumindo”, lembra Edson. >
Foi justamente no momento em que o mundo estava mais recluso que a ideia de juntar seus dois lados deu certo. O que ele já fazia para ele, durante a pandemia começou a compartilhar no seu perfil do Instagram. “Comecei a ver que eu podia usar esse ambiente para poder evangelizar. Porque eu já fazia essas análises que você vê no perfil: usar um elemento de um jogo, de um desenho, para poder fazer uma reflexão. Eu fazia isso pra mim, era particular. Toda vez que eu jogava alguma coisa, eu tirava algum conteúdo ali e ficava pensando: olha, isso aqui tem a ver com essa realidade, fé, etc. Aí depois eu comecei a ver que poderia ser expandido”, lembra. >
E a linha de pensamento acabou se alinhando com a de Jesus, se utilizando das parábolas para levar a palavra de Deus. Assim como o Salvador usava histórias do campo, do trigo, de pescadores e moedas perdidas, Padre Edson usa o universo gamer e nerd para traduzir fé para uma geração que cresceu com controles na mão.>
Padre Edson Ribeiro
Na bíblia, Jesus explica na sua parábola do semeador que uma semente, que no caso é a mensagem, cai em terrenos diferentes. Não vai adiantar semear algo em que o terreno não é propício. Por isso, Padre Edson usa diferentes sementes para ter o mesmo objetivo de levar sua reflexão. Nas suas missas, ele prega como um sacerdote comum, a mensagem que as pessoas ali vão ouvir. No universo nerd, ele muda sua skin. >
“Depois da missa, uma senhorinha chegou perto de mim e falou: ‘padre, eu adoro seus vídeos, mas eu não entendo nada do que você está falando’. Aí eu falei com ela: ‘porque não é pra você. Eu não estou mirando em você, eu estou mirando em outra pessoa’. É uma realidade distinta. Ela já está ali, frequenta a missa, participa dos sacramentos. Já aquele público que está lá consumindo os meus vídeos… A grande maioria não tem ciência nenhuma de igreja”, conta. É daí que vem seu golpe de misericórdia. >
“Às vezes aquele gamer tem até uma vivência errada, no sentido de uma visão equivocada de uma igreja cheia de preconceito. Não é assim. Quero mostrar que você pode gostar do seu joguinho, do seu filme, da sua série, mas que você pode tirar muita coisa de bom disso junto com a vivência do evangelho. Entendeu? A proposta é essa”, completa. >
Por meio de jogos que aparentam violência ou histórias nerds que sofrem preconceitos, Edson ensina empatia, acolhimento e cuidado com quem está à margem. Ele inclusive dialoga com jovens que muitas vezes sofrem bullying, exclusão e solidão. Ou que só querem trocar uma ideia, resenhar. Nas suas lives e postagens, as perguntas são diversas e muito divertidas como o reino das crianças no céu. Em uma de suas postagens, um seguidor perguntou: “Padre, ter torcido para o Vecna no Stranger Things é pecado?”. Outro estava preocupado em jogar um jogo com fama maligna: “Padre, é pecado jogar GTA 5 online sem más intenções?”. >
Estas perguntas acabaram virando um espaço de confissão, literalmente, mas sem a figura do confessionário. São caixas de diálogos no Instagram. São perguntas de todos os tipos, como se é pecado jogar determinado jogo, torcer para que Darth Vader se dê mal, se é vício gostar de videogame, de tudo um pouco. Algumas dúvidas viram vídeos de reflexão e são postadas. Tudo isso surgiu da relação de amizade que Edson tem com outros gamers que sempre se juntam para jogar e surgiam estas perguntas para ele. >
Assim como a parábola de Cristo sobre o grão de mostarda, de como algo pequeno vira algo enorme, esta evangelização do player de batina cresceu. “Eu recebo muita mensagem. Não consigo responder todas, mas diariamente eu recebo mensagens de pessoas agradecendo o trabalho, pedindo orientação. A maioria esmagadora é de pessoas que não são católicas ou que foram católicas e se afastaram. E todos eles falando a mesma coisa: ‘nossa, está me ajudando muito’. Eu recebo muita mensagem de pessoas que falam: ‘quero voltar a ser católica, como é que eu faço?’”, garante. >
Edson também garante que seu intuito não é trazer novos fiéis para sua religião. É algo muito maior. “É um trabalho de evangelização que, do meu ponto de vista, não é proselitista. Ou seja, o meu intuito ali não é que as pessoas se convertam ao catolicismo. Eu quero que as pessoas façam uma reflexão espiritual para que elas possam ter capacidade de fazer uma escolha. Se você, dentro dessa capacidade, conseguir escolher retornar pra Igreja, eu vou ficar extremamente feliz. Se você simplesmente conseguir se tornar uma pessoa melhor, eu também vou ficar muito feliz”, assegura, mas separando bem o joio do trigo. >
“Eu também sou um player. Eu também jogo, eu também consumo conteúdo. Mas eu tenho uma regrinha de ouro, que é bom ressaltar: em primeiro lugar está a minha vivência de padre e a paróquia onde eu estou. Depois é que vem esse apostolado”, completa. >
O bem e o mal crescem juntos e o julgamento definitivo não é agora. Isso ajuda a falar sobre preconceitos contra a cultura nerd ou julgamentos simplistas. Para o padre Edson, violência ou algum tipo de preconceito nem sempre está ligado ao mundo dos games e afins. Um jogo não vai determinar se uma pessoa será violenta ou não. Ele mesmo já sofreu com isso. Em meados de 2000, o jovem Edson jogava RPG, mais precisamente ‘Vampiro: A Máscara’. Na época, um crime de uma jovem no cemitério de Ouro Preto, em Minas Gerais, fez relação com jogos de RPG. Seu irmão contou para a mãe deles que Edson jogava este jogo e ela o proibiu. >
“Foi aquele caos. Mas faz parte. A gente sempre sofreu com isso. O RPG sofreu muito preconceito, assim como o rock nos anos 80, com o povo falando que era satânico. Mas é só um jogo de interpretação. Não tem nada demais”, explica. “Quando a gente sabe separar as coisas, tudo muda. Hoje já existem vários estudos, em larga escala, que mostram que os casos de pessoas que ficaram agressivas por causa de algum jogo acontecem porque a pessoa já tinha uma predisposição. Não foi o jogo que criou isso. São questões psicológicas, de criação, de ambiente. Não dá pra simplificar”, completa. >
Entre batinas e joysticks, parábolas e animes, o padre Edson mostra que o Evangelho nunca esteve preso ao tempo, nem ao templo. Ele apenas muda de cenário e continua encontrando quem precisa ouvi-lo ou jogá-lo. E que o santo dos gamers e da internet, Carlo Acutis, diga amém. Ou me faça ao menos zerar Red Dead Redemption 2, que joguinho complicado meu Deus…>