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Thais Borges
Publicado em 31 de março de 2026 às 06:00
Por mais de duas décadas, a reposição hormonal para mulheres na menopausa foi vista com ressalvas. No início dos anos 2000, um estudo conduzido por pesquisadores dos Estados Unidos apontou riscos de câncer de mama, doenças cardiovasculares e demência - todos seriam provocados pelo uso de hormônios femininos sintéticos ou extraídos de animais, que estavam entre os tratamentos mais prescritos pelos médicos até então. >
Mas essa concepção caiu e o cenário vem mudando desde o fim do ano passado. Após uma revisão da literatura científica dos últimos anos, a FDA (agência de vigilância sanitária dos EUA) concluiu que os indícios existentes não comprovam o medo que existiu nos anos 2000. No mês passado, a agência anunciou que aprovou alterações no rótulo de seis medicamentos de terapia de reposição hormonal. Este foi o primeiro lote aprovado após 29 empresas farmacêuticas terem solicitado alterações nas embalagens desde novembro. Até aquele período, era obrigatório que os riscos estivessem nas embalagens. >
“O tempo da terapia hormonal já não é mais determinado. Dizia-se que eram cinco anos, no máximo, 10 anos. Hoje, a gente já sabe que ela é segura. O FDA fez essa retratação por 23 anos de névoa”, diz a médica ginecologista Ludmila Andrade, professora da Afya Salvador. >
A terapia de reposição hormonal é considerada uma das principais abordagens para os sintomas da menopausa. “Existe vida real no ápice da menopausa. A gente precisa ser redundante e dizer como atividade física, alimentação saudável e gerenciamento do estresse são a primeira linha de tratamento cientificamente provocado. Mas, quando necessária, a utilização do hormônio traz um benefício muito grande”, diz a médica. >
De acordo com o médico ginecologista Luiz Sobral, coordenador da ginecologia do Grupo Kora Saúde, a terapia hormonal não só auxilia no alívio dos sintomas vasomotores e geniturinários, como oferece melhorias na saúde óssea, prevenindo a osteoporose e reduzindo o risco de fraturas.>
“Com os avanços da medicina e das pesquisas recentes, a Terapia de Reposição Hormonal oferece resultados mais seguros e eficazes, permitindo que as mulheres desfrutem de uma melhor qualidade de vida durante e após a menopausa”.>
Processo>
Não se trata, contudo, de usar qualquer hormônio em qualquer dosagem. Com a menopausa, há uma redução da produção de estradiol, o principal estrogênio produzido pelos ovários. A reposição é principalmente desse hormônio. Mas, para as mulheres que têm útero, deve ser usada uma combinação com progesterona, para evitar sangramento regulares e hiperplasia, com o objetivo de proteger o endométrio. A hiperplasia aumenta o risco de câncer endometrial. >
“Algumas pessoas começam a perguntar se precisa usar testosterona, mas não. A testosterona tem indicação bem específica, que é para pacientes na transição com transtorno do desejo sexual hipoativo e já menopausadas”, enfatiza a ginecologista Ludmila Andrade, da Afya Salvador. >
A expectativa é que a reposição de estrogênio já melhore a qualidade de vida de mulheres pós-menopausa. Ela deve afetar a memória, a qualidade de sono e outros fatores. Se a paciente tiver dificuldades durante a relação sexual, a exemplo de problemas de lubrificação ou de atingir ao orgasmo, pode ter um quadro de transtorno do desejo sexual hipostilo. Daí, sim, a testosterona é recomendada. Além disso, cada paciente analisada individualmente pode ter outras prescrições, a exemplo de suplementação de vitaminas, cálcio ou metformina. >
A terapia pode ser feita de diferentes formas, como explica o ginecologista Luiz Sobral, do Grupo Kora Saúde, a exemplo da via oral, transdérmica, gel ou adesivo, de acordo com o que for mais adequado para cada paciente. “O principal objetivo é aliviar sintomas como alterações de humor, insônia e problemas geniturinários, além de prevenir doenças a longo prazo, como a osteoporose”.>
Apesar disso, nem todas as mulheres têm indicação para o tratamento nem devem receber a prescrição. “O tratamento precisa ser individualizado, levando em consideração o histórico médico, fatores de risco pessoais, como antecedentes de câncer de mama ou doenças cardiovasculares, e as necessidades específicas de cada mulher", completa Sobral. >
Comprovação>
A gestrinona, que ficou famosa por conta do ‘chip da beleza’, não tem recomendação de uso na reposição hormonal pós-menopausa. Segundo a ginecologista Ludmila Andrade, a substância é muito mais usada no Brasil do que nos Estados Unidos, mas a tradição de publicação científica ainda é menor aqui. >
“Não significa que, no futuro, essa medicação não possa ser usada de forma mais ampliada, porque de fato existem pacientes que usam para ter proteção endometrial. Mas sempre converso com minhas pacientes que não há segurança comprovada. É uma molécula muito cara que traz efeitos colaterais que podem colocar mulheres em risco”, diz ela, citando a alteração do perfil lipídico que pode provocar efeitos secundários como o aumento de oleosidade de pele e interferências no metabolismo. >
“O que infelizmente tem ocorrido é que alguns pacientes têm usado para desempenho esportivo e fins estéticos, mas é um hormônio que até potencializa os efeitos da perimenopausa”, diz, citando a fase inicial da menopausa. >
Na verdade, a menopausa não é um período, mas um marco: a última menstruação, que ocorre durante o climatério. Esse último, por outro lado, é uma fase de transição entre a fase reproduzida e a pós-menopausa. A perimenopausa pode começar até 10 anos antes da última menstruação ocorrer de fato. >
Com ela, podem vir desde alterações de humor e névoa mental até queda no metabolismo. Assim, é comum que mulheres nesse período tenham ganho de peso, modificação na distribuição de gordura do corpo e aumento de colesterol e risco de infarto. Há, ainda, alterações no sono e os famosos ‘calores’, porque a mulher pode perder a capacidade de regular a temperatura do corpo. Ao todo, são mais de 70 sintomas diferentes que podem ser sentidos devido à menopausa. >
“As mulheres costumam perguntar: será que vou conseguir voltar a ser como eu era? Não. A terapia hormonal é para que uma mulher de 50 anos se sinta satisfeita aos 50 anos, para que seja uma mulher de 50 anos. O processo de envelhecimento é inevitável”, diz a ginecologista Ludmila Andrade. “O que a gente precisa falar para mulher nessa fase é que esse é o momento em que elas têm que olhar mais para si e se colocar em primeiro lugar. Esse processo inclui atividade física, gerenciamento de sono, controle de estresse, alimentação saudável e até espiritualidade”, enfatiza. >