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Alan Pinheiro
Publicado em 9 de abril de 2026 às 05:00
Quando as quase duas horas de O Drama acabam, lágrimas, sorrisos e um sentimento de inquietude marcam a confusão de sentimentos que é contada através do novo filme do diretor norueguês Kristoffer Borgli, que lança ao espectador um questionamento moral: até que ponto é possível perdoar alguém? Sem se preocupar em dar uma resposta definitiva para a pergunta, o filme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (9), com atuações marcantes da dupla principal. >
A trama conta a história de Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um casal que está prestes a se casar quando um segredo impactante do passado da noiva vem à tona. A partir de então, a dinâmica da relação entre eles é colocada em risco quando se torna difícil para o noivo lidar com a nova informação sobre sua amada. >
Veja imagens de O Drama (2026), novo filme de Zendaya e Robert Pattinson
O segredo, que obviamente não será revelado neste texto para não estragar a surpresa, tem íntima relação com um tópico de debate muito particular dos Estados Unidos. Não que não tenham casos no Brasil ou que seja impossível de se relacionar com o peso da revelação para os personagens, mas não há uma familiaridade natural do brasileiro com o problema apresentado. >
Borgli escolhe esse tema sem apontar o dedo para culpados, mas tenta discutir sobre causas e consequências de uma sociedade que transforma vítimas em algozes. O conflito íntimo que se torna um dilema ético é familiar ao diretor, que já mostrou seu interesse temático em Doente de Mim Mesma e O Homem dos Sonhos.>
A trama usa desse momento de revelação como um ponto de virada completo, com implicações em diferentes fases da produção. A montagem rápida, que antes contava a história de amor do casal a partir dos votos de casamento, passa a mostrar cenários hipotéticos que revelam a angústia de cada um dos noivos. É um recurso que traduz visualmente a ansiedade: o futuro que parecia sólido agora se fragmenta em possibilidades aterrorizantes. A rapidez da direção cessa e dá lugar a um silêncio incômodo. E o casal, que exalava química, se transforma em dois estranhos dividindo um apartamento.>
Para o diretor, que já estava acostumado a flertar com o terror, a missão de contar essa história sob a roupagem de uma comédia dramática se mostrou certeira, principalmente pela maturidade alcançada por Borgli. Em O Homem dos Sonhos, o excesso do norueguês diminui o potencial da mensagem, o que felizmente não acontece em seu novo lançamento.>
Diretor de filmes curtos, uma característica de Borgli é a estética surrealista de suas produções. Quando não a insere na trama, busca nas imagens a construção desse aspecto, que é usado para uma narrativa que conduz a história de um ponto de inquietação a um momento de apoteose, utilizando esse surrealismo como bússola para mostrar o estado mental do casal.>
Qualquer expectativa que Zendaya e Robert Pattinson juntos podiam gerar é atendida por atuações de destaque que elevam a qualidade da produção. Cada um com seu momento de destaque, os dois entendem o tom e conseguem transitar entre gêneros no filme.>
Apesar de começar como um casal que parece sincronizado, os personagens vivem jornadas paralelas, o que vai aos poucos deixando explícita a diferença entre eles. Enquanto Emma começa mais extrovertida e vai se tornando silenciosa e contida, Charlie é apresentado como alguém que não gosta de se expor, mas passa a encontrar dificuldade de se conter.>
Além das duas estrelas, o longa ainda conta com Mamoudou Athie (Tipos de Gentileza), Hailey Gates (Marty Supreme) e Alana Haim (Licorice Pizza). Alana, inclusive, é o grande destaque para além do casal de protagonistas. Amiga do casal, ela se torna uma ameaça constante ao se posicionar contra Emma. Para ela, o passado da personagem não tem perdão. >
Através de uma postura passivo-agressiva, a personagem é posicionada como um contraponto. É a forma que o roteiro encontra de questionar e não romantizar o tema, além de adicionar mais camadas à complexa discussão. >
O Drama se consolida não apenas como um estudo de personagem, mas como um espelho desconfortável de nossas próprias hipocrisias. Borgli entrega sua obra mais refinada, provando que, às vezes, o maior horror reside na impossibilidade de conhecer verdadeiramente quem dorme ao nosso lado.>