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Donaldson Gomes
Publicado em 14 de março de 2026 às 05:00
Um dia depois de o governo apresentar um pacote para reduzir o preço do diesel, a Petrobras anunciou que vai aumentar o preço do produto vendido às distribuidoras a partir deste sábado (dia 14). Os demais combustíveis não tiveram reajuste. Com a mudança, o preço médio do diesel deverá sair das refinarias da estatal por R$ 3,65 por litro, com alta de R$ 0,38 por litro. >
A última mudança no preço do diesel havia ocorrido em maio de 2025. Neste mês, a guerra no Oriente Médio elevou o preço do barril de petróleo de cerca de US$ 60 para mais de US$ 100, encarecendo a matéria-prima usada na produção de combustíveis. No cenário mais pessimista, o governo projeta o preço do petróleo neste patamar durante boa parte do ano, com inflação acima de 4%. >
“Mesmo após essa atualização, no acumulado desde dezembro de 2022, os preços de diesel A vendidos às distribuidoras registram redução acumulada de R$ 0,84 por litro, o equivalente a uma queda de 29,6%, considerada a inflação do período”, diz a Petrobras.>
Segundo a empresa, o impacto do reajuste para o consumidor final, nos postos, será reduzido por causa da diminuição de impostos e da subvenção aos produtores anunciadas nesta quinta-feira (12) pelo governo federal.>
Para Carlos Thadeu, economista especializado em inflação e commodities da BGC Liquidez, o aumento no preço do diesel equivale a quase metade das reduções anunciadas ontem pelo governo federal. “Basicamente, quase anula o efeito de queda das medidas anunciadas ontem pelo governo federal. O impacto no IPCA das reduções de ontem e do aumento de hoje praticamente se cancelam”, diz.>
O preço médio do litro do diesel nos postos de combustíveis do país subiu mais de 11%, mostram dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgados nesta sexta-feira. A pesquisa é referente à semana de 8 a 14 de março, o que mostra que os preços subiram antes mesmo do último reajuste divulgado pela Petrobras e ainda não refletem o desconto anunciado pelo governo federal nesta quinta-feira.>
A Petrobras informou que estima um aumento de R$ 0,06 por litro no diesel puro — que desconsidera a mistura obrigatória de biodiesel — para o consumidor, após o reajuste anunciado nesta sexta-feira (13).>
Segundo a presidente da companhia, Magda Chambriard, a alta seria de R$ 0,70 caso o governo federal não tivesse anunciado, na véspera, medidas para conter o impacto da guerra no Irã nos preços do diesel.>
Magda Chambriard aproveitou o anúncio de aumento no diesel para cobrar que os estados reduzam as alíquotas de ICMS sobre os combustíveis, de forma a enfrentar o cenário de aumento de preços. Atualmente, o tributo estadual representa 19% do preço do diesel, na média do Brasil. Já os impostos federais respondem por 5,2% do valor cobrado ao consumidor. “Uma questão importante é o ICMS. O governo federal fez sua parte. Zerou o PIS/Cofins do diesel e mitigou o aumento necessário (da Petrobras). Temos que aplaudir, mas o grande tributo sobre o combustível é o ICMS”, afirmou.>
Magda lembrou que o governo federal vai criar um imposto de exportação, que tende a reduzir os ganhos das empresas. “Mas isso é em benefício da sociedade brasileira. Então, cabe também a redução do ICMS. Espero que os estados deem sua contribuição para esse enfrentamento e que pelo menos reduzam um pouco. Nem me atrevo a falar em zerar”, ponderou.>
Diante da guerra no Oriente Médio e seu impacto no preço do petróleo, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda divulgou um documento com projeções para a economia brasileira. No pior cenário, chamado de “disruptivo” ou “radical”, o preço médio do petróleo neste ano permaneceria em US$ 100 por barril. Isso, conforme as projeções, pressionaria “fortemente” a inflação, que ficaria acima de 4%.>
A arrecadação federal líquida, calculada após a transferências obrigatórias a estados e municípios, também subiria, e chegaria a R$ 96,6 bilhões em 2026. “A alta nos preços do petróleo também impacta a arrecadação do governo central. De forma direta, o choque eleva a arrecadação de royalties e participações especiais pagas pelas empresas exploradoras e os tributos recolhidos sobre o lucro das empresas da cadeia de produção, refino e distribuição de petróleo e derivados (IRPJ e CSLL)”, explica a Fazenda.>
Abastecimento>
Ao afirmar que o aumento do preço da gasolina não está na mesa, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, criticou as empresas revendedoras de combustíveis e negou que haja falta de produto. Nos últimos dias, surgiram preocupações de que poderia haver desabastecimento, o que teria levado empresas a fazer estoques.>
“Como está faltando produto se nós estamos entregando? A gente pode supor que não é falta de produto, é retenção, especulando para aumentar margem”, analisa. “Cabe às instituições de fiscalização e de controle checarem se isso está acontecendo dessa forma e tomar as medidas cabíveis”, diz.>
Cláudio Schlosser, diretor de Logística da estatal, disse que o déficit no Rio Grande do Sul se deu por “questões pontuais”. >
“Estamos antecipando as entregas ao mercado. Tivemos questões pontuais no Rio Grande do Sul, onde foi identificado um déficit adicional e fizemos um leilão de diesel S500 pontualmente. Tínhamos uma perspectiva de 700 mil a 800 mil metros cúbicos de produtos vindo para cá e efetivamente vimos o desvio de algumas cargas, com 250 mil a 280 mil metros cúbicos, de olho em margens maiores”, explicou Schlosser.>