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Trintou, congelou: congelamento de óvulos cresce 26% na Bahia

Os índices da Bahia superam a média nacional, que teve um aumento nos ciclos de congelamento de óvulos em 6,98%

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 05:00

A psicóloga Patrícia Sena congelou óvulos na pandemia e decidiu engravidar no ano passado. Ela está grávida de Maria Vitória
A psicóloga Patrícia Sena congelou óvulos na pandemia e decidiu engravidar no ano passado. Ela está grávida de Maria Vitória Crédito: Acervo pessoal

A maternidade sempre foi um dos sonhos da psicóloga Patrícia Sena, 42 anos. No entanto, no momento da vida em que supostamente seria o limite para uma gestação, ela sentia que não deveria desviar o foco da carreira. Por isso, começou a se preparar - tanto emocional quanto financeiramente - para congelar seus óvulos ainda lá pelos 34 anos.

O procedimento foi feito em dezembro de 2020, ainda na pandemia da covid-19, quando ela tinha 36 anos. “Congelei cinco óvulos maduros numa coleta. Essa decisão, seis anos atrás, me permitiu realizar esse sonho agora”, conta ela, hoje grávida de cinco meses de Maria Vitória, após uma fertilização in vitro com produção independente, em setembro do ano passado. “Agora, quando olho para trás, digo a todas as minhas amigas: ‘se fez 30 anos e não decidiu se vai ter filhos, congele”.

O Huntington Cenafert fica na Avenida Milton Santos, em Ondina por Reprodução

A cada ano, mais mulheres têm a mesma atitude de Patrícia: na Bahia, em apenas 12 meses, o congelamento de óvulos aumentou 26%. Em 2024, foram 491 ciclos de congelamento, contra 390 feitos em 2023, de acordo com um relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O congelamento de embriões também cresceu - foram 2.593 em 2024 contra 2.524 no ano anterior.

Os índices da Bahia superam até mesmo a média nacional, que teve um aumento nos ciclos de congelamento de óvulos em 6,98%, saindo de 13.921 em 2023 para 14.893 em 2024. No país, também houve crescimento significativo nos congelamentos de embriões: foram mais de 128 mil em 2024 contra 114 mil no ano anterior. Além disso, houve 56 mil ciclos de fertilização in vitro (FIV).

Esse cenário só tem sido possível por fatores que vão desde uma mudança no comportamento de mulheres até na visão de médicos ginecologistas. Segundo a médica ginecologista Gérsia Viana, especialista em medicina reprodutiva e diretora médica da Huntington Cenafert, mulheres modernas priorizam também aspectos na vida como a carreira, os estudos ou mesmo a escolha dos parceiros. Isso leva a um adiamento da maternidade.

“A segunda questão é a informação. Hoje, já existem mais estratégias de preservação da fertilidade. Hoje, ao contrário do que acontecia no passado, o próprio ginecologista já recomenda que ela faça acompanhamento reprodutivo, se ela não tem expectativa de engravidar nos próximos anos”.

Quando

Uma das máximas que vinham sendo mais difundidas sobre o congelamento de óvulos era de que o procedimento tinha de ser feito até os 35 anos - como uma idade fixa, estática. Na verdade, não existe limite de idade.

A recomendação da maioria dos especialistas é de que, por volta dos 30 anos, mulheres que não têm expectativa de ter uma gestação nos próximos dois ou três anos passem por uma consulta de aconselhamento reprodutivo com um especialista da área. A partir desse encontro, a paciente vai passar também por exames de sangue e imagem para identificar fatores de risco para infertilidade, taxas hormonais e reserva ovariana.

“A partir dos 35 anos, já temos um impacto na qualidade dos óvulos. Por isso, hoje existe um lema: ’trincou, congelou’. Não é que uma mulher de 38 anos não possa congelar, mas ela tem que ser informada de que, quando esses óvulos forem descongelados no futuro, consequentemente as chances de ter um embrião saudável vão ser menores”, explica a diretora do Huntington Cenafert.

Não há um número ideal de óvulos para congelamento, mas é possível que uma paciente com mais de cinco 35 anos precise congelar mais. A principal técnica para o congelamento é a vitrificação, que deixou de ser considerada experimental em 2012 e tem uma taxa de sobrevivência de óvulos maior do que 90%.

O primeiro passo, segundo a médica Gérsia Viana, é fazer uma avaliação médica. Um dos fatores que vai ser observado é a reserva ovariana, que calcula a quantidade de folículos disponíveis na vida da mulher naquele momento. Isso ajuda a alinhar as expectativas das pacientes.

“Para que a gente consiga obter esses óvulos, é necessário ter uma estimulação ovariana, que dura de 10 a 14 dias. Durante esse período, ela passa por vários exames ultrassonográficos para acompanhar o crescimento desses folículos e somente quando eles estão prontos é que a gente programa a aspiração dele”, afirma a médica.

Essa aspiração é feita no centro cirúrgico, com a paciente sedada. O material é encaminhado ao laboratório e os óvulos maduros são congelados. Não existe um período máximo para os óvulos permanecerem congelados, mas, no Brasil, mulheres podem acessar técnicas de reprodução assistida até os 50 anos, segundo as regras do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Decisão

Quando a paciente decidir usar os óvulos - se decidir fazer isso um dia -, deve passar por uma nova avaliação médica. “Depois, vamos programar o descongelamento de óvulos e a coleta seminal do marido, para que seja feita a fertilização in vitro”, explica a médica, que ressalta que, em alguns casos, as mulheres decidem seguir com um doador anônimo.

“É muito importante deixar claro que a preservação da fertilidade não é uma garantia, mas a preservação da possibilidade de ter uma gestação saudável no futuro, mas existem riscos de uma gestação relacionados à idade da mulher. Portanto, é uma estratégia, não uma garantia”, enfatiza Gérsia.

No caso da psicóloga Patrícia Sena, a preparação emocional desde que congelou os óvulos em 2020 fez com que a decisão de seguir com a maternidade viesse sem ansiedade. “Eu sempre dizia que, se chegasse a idade e não estivesse em um relacionamento, faria uma produção independente. Tive muito apoio dos meus pais e da família, mas sempre digo para a pessoa se preparar muito para o processo. Demanda uma ansiedade, por tudo que está envolvido, mas quando você está bem acompanhada, com uma equipe multiprofissional, isso traz uma calma”, conta.

Nos últimos anos, com o aumento dos atendimentos online após a pandemia, Patrícia chegou a morar em outros estados, até retornar a Salvador, quando sua mãe foi diagnosticada com câncer. Ao longo dos anos, ela acredita que passou por um processo de autoconhecimento que permitiu tomar a decisão de que era a hora. “Muitas vezes a gente tem medo do julgamento e entendi muito do processo que tinha vivido, de curas internas. Entendi que estava pronta para dar esse passo, que era fazer a fertilização in vitro”, lembra.

Dos cinco óvulos que ela tinha congelado, quatro foram fecundados. No entanto, apenas um chegou ao tamanho ideal para um embrião. A implantação foi no dia 15 de setembro do ano passado.

“Tive que esperar a confirmação e fui muito agraciada pela espiritualidade e por Deus. Passei os três meses de gestação, que tem muita possibilidade de perda gestacional, mas não tive nada. Ela cresce aqui, saudável, muito bem. Minha maior realização de vida é gestar uma vida. É uma cura de uma ancestralidade. Por isso, vai se chamar Maria Vitória: porque ela é minha grande vitória”.

Procedimentos

O congelamento de óvulos é diferente do congelamento de embriões, que já são óvulos fertilizados e que são guardados até o momento em que devem ser transferidos. Não há limite do quanto tempo eles podem ficar congelados, mas, no ano passado, um caso nos Estados Unidos de um embrião que passou mais de 30 anos congelado chamou atenção no noticiário internacional.

Os embriões tinham sido congelados em 1994 por uma mulher e seu marido na época. Na ocasião, a paciente criou quatro embriões - um deles se tornou sua filha. Após a separação do marido, ela não quis destruí-los, mas fez a doação para uma agência de adoção de embriões. O bebê, nasceu saudável, em julho do ano passado, e foi batizado de Thaddeus Daniel Pierce.

“Um aspecto importante é que o congelamento de óvulos é um patrimônio da mulher, enquanto o congelamento de embriões é do casal. Se o casal vier a se separar um dia, a mulher não vai ter acesso a esses embriões”, alerta a médica Gérsia Viana, diretora médica da Huntington Cenafert.

No caso dos embriões, há a possibilidade de, após uma primeira gravidez com FIV, usar os embriões excedentes para novas gestações com transferência embrionária. Atualmente, em Salvador, existem quatro clínicas de reprodução humana. Os custos para cada um dos processos, porém, variam para cada paciente. Isso muda porque algumas pacientes podem precisar investir mais em medicações para a reserva ovariano, enquanto outras não, assim como algumas podem precisar de mais de uma coleta.

“É importante deixar claro que as chances de gestações futuras vão estar relacionadas ao número de óvulos e indiretamente relacionadas à idade. Quanto menor a idade, maiores as chances de sucesso. Hoje, vejo mulheres de 40 anos que lamentam por que os ginecologistas nunca falaram sobre isso. Mas, 10 anos atrás, não se falava disso. Por isso, é importante que elas sejam informadas, busquem ajuda do próprio ginecologista e também mais informações de aconselhamento”.