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Chacina do Tanque do Urubu: a execução de um industrial e suas três filhas que é um mistério na Bahia

Família foi encontrada carbonizada dentro de um carro em Feira de Santana

  • Foto do(a) author(a) Wendel de Novais
  • Wendel de Novais

Publicado em 5 de junho de 2026 às 05:17

Industrial e três filhas foram mortos em chacina
Industrial e três filhas foram mortos em chacina Crédito: Reprodução

A manhã de 23 de setembro de 1987 ficou marcada por uma das cenas mais chocantes da história policial da Bahia. Em uma área conhecida como Tanque do Urubu, em Feira de Santana, um Fiat Spazio recém-adquirido foi encontrado completamente destruído pelo fogo. No interior do veículo estavam os corpos carbonizados do industrial Vercelêncio Ferreira da Silva, de 45 anos, e de suas três filhas: Silvânia, de 13 anos, Isadora Cristina, de 12, e Natália, de apenas 10 anos.

O crime provocou comoção imediata na cidade e deu início a uma investigação que atravessou diferentes linhas de apuração, envolveu suspeitas sobre familiares, empresários, políticos, policiais militares e criminosos conhecidos da região. Apesar da identificação dos executores, uma pergunta permaneceu sem resposta: quem mandou matar a família?

Industrial e três filhas foram mortos em chacina por Arquivo CORREIO

A última saída

Horas antes da tragédia, Vercelêncio havia concluído a compra do Fiat Spazio de placa DN-1154. Depois de fechar o negócio, passou em casa, no bairro da Kalilândia, onde deixou a esposa, Terezinha Ramos Ferreira da Silva. O plano era seguir ao supermercado acompanhado das filhas. Segundo relatos colhidos pela polícia, a mais velha, Silvânia, chegou a desistir do passeio e saiu do carro. A mãe, porém, insistiu para que ela acompanhasse o pai e as irmãs.

A decisão se transformaria em um detalhe marcante da investigação. Poucas horas depois, Vercelêncio e as três meninas desapareceriam sem deixar rastros. A preocupação tomou conta da família ainda durante a noite. Sem conseguir localizar o marido e as filhas, Terezinha procurou hospitais, delegacias e parentes.

Na manhã seguinte, recebeu a notícia que nenhuma mãe gostaria de ouvir: um carro incendiado havia sido encontrado com quatro corpos em seu interior. Logo veio a confirmação de que se tratava de Vercelêncio e das três crianças. Uma execução marcada pela crueldade. Os exames periciais revelaram que as vítimas não morreram no incêndio.

Vercelêncio foi atingido por disparos de arma de fogo. Silvânia e Isadora também foram baleadas. Natália, a mais nova das irmãs, foi espancada até a morte. Depois dos assassinatos, os criminosos colocaram os corpos dentro do Fiat e incendiaram o veículo numa tentativa de destruir provas e dificultar a identificação das vítimas. A violência empregada chamou a atenção dos investigadores desde o início.

"Eles tentaram dificultar as investigações queimando os corpos, e este delito não é característico de ladrões comuns", afirmou à época o diretor do Departamento de Polícia do Interior (Depin), João Barbosa Laranjeiras. Para a polícia, o incêndio indicava que havia algo além de um simples assalto.

Suspeitas em todas as direções

Nos primeiros dias da investigação, praticamente ninguém foi descartado. O delegado Rui Pereira da Paz descobriu que Vercelêncio enfrentava problemas conjugais e estaria se separando da esposa. Informações levantadas pelos investigadores apontavam que o industrial mantinha relacionamentos com homens e que isso teria provocado conflitos dentro do casamento.

A própria Terezinha passou a figurar entre os suspeitos, principalmente por causa da insistência para que as três filhas acompanhassem o pai naquela noite. Houve ainda outros suspeitos. Entre eles estava Belísio Nunes, sócio do industrial na empresa Silvânia Decorações. Policiais apuraram que os dois enfrentavam divergências comerciais. Um motorista particular de prenome Ednilson também foi citado durante as diligências.

A investigação ganhou ainda contornos políticos quando começaram a circular rumores envolvendo um empresário milionário e um político influente da cidade. O então vice-presidente municipal do PMDB, Alberto de Sá Morais, conhecido como Beto Morais, chegou a ter seu nome associado ao caso, mas negou qualquer envolvimento.

Enquanto isso, a polícia trabalhava com hipóteses de vingança, assalto, crime passional e até queima de arquivo. O desaparecimento de uma testemunha. O caso ganhou novos elementos de mistério quando um dos vigias que poderiam ajudar a esclarecer a movimentação na área do crime desapareceu.

Identificado apenas como Elisângelo, ele havia relatado ter visto dois homens em atitude suspeita próximo ao local onde o carro foi incendiado. Dias depois, não foi mais encontrado. Ao mesmo tempo, a polícia enfrentava outro problema: o cenário do crime havia sido comprometido. Segundo o delegado Rui Pereira da Paz, mais de 200 pessoas passaram pelo local antes da realização da perícia.

"Havia mais de 200 pessoas que se concentraram no local, estragando algumas provas que poderiam ajudar na elucidação dos crimes", afirmou. A trilha levou a criminosos perigosos. Com o avanço das investigações, a polícia passou a concentrar esforços em uma quadrilha que atuava em Feira de Santana e em outras regiões da Bahia.

O principal nome era o de Márcio Mendonça, conhecido como Mineirinho. Fugitivo da Justiça de Minas Gerais, ele já respondia por dois homicídios e era considerado extremamente violento. Testemunhas relataram ter ouvido integrantes da quadrilha comentando detalhes da chacina. Segundo os depoimentos, Mineirinho teria participado diretamente da execução e ameaçado matar qualquer pessoa que revelasse informações à polícia.

As investigações apontaram ainda a participação de Antônio Ferreira da Costa, o Tagarela, além de criminosos conhecidos pelos apelidos de Cheringa, Tó e Baixinho. Uma testemunha afirmou que um dos comparsas tentou impedir a morte das crianças. "Não quero ninguém com coração mole do meu lado. Deixa que eu faço o serviço sozinho", teria dito Mineirinho antes dos assassinatos.

A possível motivação

Uma das linhas apontava que a família foi vítima de um assalto que terminou em execução. Outra sustentava a hipótese de que Vercelêncio sabia demais sobre atividades criminosas envolvendo integrantes de uma quadrilha da qual participavam policiais militares. Essa teoria ganhou força após a prisão dos soldados Romilson Macedo, João Batista e Wellington Lira, ligados ao grupo liderado por Jefferson Adilson de Jesus, o Capetinha.

Investigadores descobriram que Romilson mantinha proximidade com Vercelêncio e que o industrial vinha demonstrando medo semanas antes da morte, chegando a trocar de veículo diversas vezes. A polícia passou a trabalhar com a possibilidade de que o comerciante estivesse sendo perseguido e que sua execução tivesse sido encomendada.

A brutalidade do crime provocou uma reação sem precedentes em Feira de Santana. Em outubro de 1987, mais de cinco mil pessoas participaram de uma caminhada pela paz. Estudantes, comerciantes, religiosos e moradores tomaram as ruas exigindo justiça. Faixas pediam a prisão dos responsáveis.

Muitos carregavam rosas brancas e choravam durante o percurso. Os alunos dos colégios onde Silvânia e Isadora estudavam participaram do ato vestidos com uniforme escolar. "Queremos paz. Chega de violência. Por que mataram crianças inocentes?", gritavam os manifestantes. A passeata se transformou em um dos maiores protestos populares da história da cidade.

O mistério que nunca terminou

A Justiça decretou a prisão preventiva dos acusados de participação direta na chacina. Mineirinho foi apontado como principal executor, enquanto outros integrantes da quadrilha também tiveram a prisão determinada.

Apesar disso, a investigação jamais conseguiu esclarecer definitivamente quem ordenou a morte da família. Os anos passaram e os principais suspeitos ligados à execução morreram antes que pudessem revelar detalhes sobre eventuais mandantes. O inquérito acabou remetido à Justiça sem uma conclusão definitiva sobre a autoria intelectual.

Quase quatro décadas depois, a Chacina do Tanque do Urubu continua sendo lembrada como um dos crimes mais brutais da história da Bahia. Embora os executores tenham sido identificados, o mistério sobre quem planejou a morte de Vercelêncio Ferreira da Silva e de suas três filhas permanece sem resposta, alimentando até hoje dúvidas, teorias e especulações em Feira de Santana.

Tags:

Feira de Santana Chacina do Tanque do Urubu Industrial E Filhas Crime não Resolvido