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Wendel de Novais
Publicado em 1 de maio de 2026 às 05:36
O que inicialmente parecia um duplo homicídio sem pistas, registrado no fim de janeiro de 2007, no distrito de Caboto, em Candeias, rapidamente se transformou em uma investigação de alta complexidade que revelou uma chacina familiar com quatro mortos e uma única sobrevivente. >
A sequência de desdobramentos do caso, marcada pela tentativa de ocultação de cadáveres, contradições e uma fuga de quase 20 anos só terminou na última segunda-feira (27), com a prisão de Pedro Augusto Bastos de Souza, que estava foragido desde a época do crime, em Pojuca, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). >
Ele é o responsável por matar quatro integrantes da própria família: a companheira, Maria da Conceição da Cruz Rangel, 34 anos; a sogra, Maria José da Cruz Rangel, 60; a avó da companheira, Maria Celeste da Cruz, 92; e a filha do casal, Ana Bárbara, de 11 meses. >
Pedro Augusto confessou e mostrou local do crime para a polícia
Cena inicial: corpos e uma criança ferida >
Na manhã do dia 27 de janeiro de 2007, moradores localizaram duas mulheres mortas às margens de uma estrada de acesso ao distrito de Caboto, em uma área isolada. Ambas apresentavam sinais claros de espancamento e traumatismo craniano, com ferimentos graves na cabeça. >
A poucos metros dos corpos, uma menina de aproximadamente quatro anos caminhava sozinha, ferida e chorando, em um dos elementos mais marcantes de toda a ocorrência. A criança foi socorrida por policiais militares e levada inicialmente a uma unidade de saúde local, sendo posteriormente transferida para Salvador. >
Apesar dos ferimentos — cortes na cabeça e hematomas no rosto — ela não corria risco de morte. Mesmo consciente, não conseguiu fornecer informações detalhadas, limitando-se a chamar por “mamãe”, o que levou os investigadores a suspeitar que ela tivesse relação direta com as vítimas. >
No local do crime, foram encontrados poucos elementos materiais: um par de sandálias e dois óculos de grau. A ausência de documentos dificultou a identificação das mulheres, que não foram reconhecidas por moradores da região. A polícia descartou inicialmente latrocínio, já que ambas ainda usavam alianças e relógios. >
A sobrevivente e a primeira linha de investigação >
Internada no HGE, a menina conseguiu informar apenas o nome “Yasmin”. Sem conseguir dar detalhes sobre o ocorrido, ela se tornou ao mesmo tempo vítima e principal elo possível para a identificação das mulheres. Investigadores passaram a trabalhar com a hipótese de que ela fosse filha e neta das vítimas encontradas. >
A mudança decisiva no caso ocorreu quase um mês depois, em 23 de fevereiro de 2007. O operário Pedro Augusto de Souza Bastos compareceu à delegacia para registrar o desaparecimento da esposa. O comportamento levantou suspeitas imediatas, principalmente pelo tempo decorrido desde o suposto sumiço. >
No depoimento, inconsistências chamaram a atenção dos policiais, que passaram a pressioná-lo. Pedro acabou confessando não apenas o assassinato das duas mulheres encontradas em Caboto — sua sogra e a mãe dela — como também revelou um crime ainda mais grave: a morte da própria esposa e da filha de apenas 11 meses. >
A confissão transformou completamente o entendimento do caso, que deixou de ser um duplo homicídio isolado para se tornar uma chacina familiar. >
Buscas pelas vítimas no Rio Joanes
Primeiro crime >
Segundo o relato do acusado, a sequência de violência começou no dia 25 de janeiro de 2007, dentro da casa onde vivia com a companheira, no município de Dias d’Ávila. Após uma discussão, ele teria agredido a esposa com um pedaço de madeira. Durante o conflito, a mulher teria deixado a criança cair, o que, segundo ele, desencadeou uma reação ainda mais violenta. >
Acreditando que ambas estavam mortas, Pedro decidiu ocultar os corpos. No quintal da residência, montou uma fogueira e queimou os cadáveres por mais de duas horas. No dia seguinte, recolheu os restos mortais, colocou-os em um saco e os levou até uma ponte na BA-093, onde os descartou no Rio Joanes. >
A perícia confirmou vestígios da queima no local indicado e encontrou ossadas na região do rio, incluindo partes de um esqueleto adulto. Não foram localizados restos da criança, o que reforçou a hipótese de que o corpo tenha sido completamente destruído pelo fogo. >
Premeditação e execução em Caboto >
Após os primeiros crimes, Pedro sabia que a sogra e a avó da esposa chegariam à Bahia nos dias seguintes. Segundo a investigação, ele passou a planejar a morte das duas. No dia combinado, foi até a rodoviária de Salvador, buscou as vítimas e a menina Yasmin e seguiu em direção a Caboto. >
Durante o trajeto, uma das mulheres teria estranhado o caminho, mas ele alegou que se tratava de um atalho. Ao chegar ao terreno isolado, ordenou que todas descessem do veículo e iniciou as agressões com um pedaço de madeira. As duas mulheres morreram no local, enquanto a criança, apesar da violência sofrida, conseguiu sobreviver — tornando-se a única testemunha direta da chacina. >
Ocultação de provas e desdobramentos >
Após a confissão, Pedro levou os policiais até os locais onde teria ocultado os corpos da esposa e da filha. As buscas mobilizaram equipes da Polícia Interestadual (Polinter), do Departamento de Polícia Técnica (DPT) e do Corpo de Bombeiros, resultando na localização de ossadas e vestígios que reforçaram sua versão. >
Na casa onde os primeiros crimes ocorreram, a perícia encontrou marcas da fogueira utilizada para queimar os corpos, além de outros indícios materiais. O caso passou a ser tratado como uma sequência de homicídios com tentativa de ocultação de cadáver, evidenciando planejamento e frieza na execução.>