Conheça a nova geração de drag queens de Salvador reunidas em uma homenagem a Iemanjá

Como hoje é dia de Iemanjá, convidamos oito artistas que criaram montações em homenagem à orixá do mar

Publicado em 2 de fevereiro de 2016 às 21:49

- Atualizado há 10 meses

Quem visita show de drag queen em Salvador já notou: tem um bocado de transformista nova na noite. Os espaços acompanharam o crescimento de novas estrelas. Há cinco anos eram, basicamente, o Âncora do Marujo (Av. Carlos Gomes), a Boate Tropical (Gamboa) e o Beco dos Artistas (Garcia). Hoje, somam-se à lista a creperia La Bouche (Barra), a boate Amsterdam e eventos como Cena, Som & Fúria (no teatro Gregório de Mattos).

Mesmo quem não sai de casa pôde ver as drags ficarem mais pop. Na TV Globo (Rede Bahia), o programa Amor e Sexo estreou nova temporada no sábado (23/1). Além de trazer no elenco fixo a cantora drag queen Pablo Vittar, tem um quadro chamado Bishow. Nele, três homens enfrentam o desafio de se transformar em drag queens, com ajuda das madrinhas Aretuza Lovi, Sarah Mitch e Gloria Groove.

Pelo mundoO reallity show Ru Paul’s Drag Race, apresentado pela drag queen Ru Paul, é um sucesso da americana Logo TV. Nele, 14 artistas competem pelo título de Próxima Superstar Drag. Das suas sete temporadas, seis estão disponíveis também no Netflix. A 7ª temporada foi exibida no Brasil ano passado pelo Multishow. Entre as fãs famosas, estão a atriz Scarlett Johansson e as cantoras Lady Gaga e Miley Cyrus. No Brasil, a atriz Gloria Pires e a cantora Preta Gil já se declararam publicamente espectadoras. No Youtube a Academia de Drags (/academiadedrags), uma espécie de versão brasileira do reallity gringo, é comandada por Silvetty Montilla, com participação do estilista Alexandre Herchcovitch. Foram mais de 1 milhão e 250 mil visualizações.

Por aqui, ano passado, nasceu também um coletivo de drags, a Haus of Gloom (facebook.com/hausofgloom). Nele, sete amigos e eventuais convidados se unem para arrasar na montação. As apresentações já foram até Brasília. “A gente tenta fomentar a arte drag e ajudarmos uns aos outros”, diz Aleera Cox, uma das fundadoras. Até porque, tanta maquiagem, roupa, acessório e novidade não é barato. Algumas técnicas são difíceis. E se você pensou em pranchar perucas - tarefa que dura até 4 horas - sabe de nada. “Aquendar (disfarçar o pênis) é complicadíssimo! Você puxa, coloca pra trás, prende e bota uma calcinha apertadíssima”, conta a drag Petra Perón.

É arte“São atores e atrizes que constroem personagens, estudam, elaboram, ensaiam e pesquisam. A arte de se montar é elemento do território dramático/teatral e atravessou eras: do teatro grego e japonês à commedia dell’arte (italiana) e do teatro elisabetano”, conta o pesquisador do CUS (Grupo de Pesquisa Cultura e Sexualidade da UFBA) Fábio Fernandes. A origem do termo drag vem da época em que apenas homens podiam subir aos palcos. Drag é sigla para dressed as a girl (vestido como uma menina, em inglês). Segundo ele, as apresentações tinham espaço nos palcos cômicos e em teatros burlescos e ganharam novo fôlego com o boom dos movimentos LGBT e da cultura pop da metade do século 20 em diante.

Não há requisito de gênero ou orientação sexual para ser drag.  “O que fazem é uma arte e esse trabalho não se conecta com o que a pessoa é em sua vida fora dos palcos. Seja gay, hétero ou bissexual. Seja trans ou cisgênero. Essa confusão é comum e muito usada para deslegitimar como inferior a arte drag com base em machismo, homofobia e transfobia”, explica Fábio. Até mulher cisgênera pode fazer drag. “É o caso da atriz baiana Paula Lice, que dá vida a Jéssica Cristopherry. A arte sempre mostra que é possível sermos muito maiores que a vida e as normas”, pontua ele.

IemanjáPara mostrar um pouco do carisma, unicidade, ousadia e talento - atributos indispensáveis a uma estrela drag, de acordo com Ru Paul - convidamos oito artistas. Elas começaram há menos de um ano e receberam um pedido. Como nesta terça-feira (2) é dia de Iemanjá, criaram montações em homenagem à orixá do mar. Lacração pouca é bobagem! Odoyá!Aimée LumièreQuem é Aimée Lumière é uma diva com influências do mundo: Marília Pêra, Marieta Severo, Marilyn Monroe e Judy Garland. “O ar clássico me encanta. Faço comédia puxada pro requinte britânico”, conta.

O criador Victor Corujeira, 23, é formado em Psicologia e trabalha como ator.

Como nasceu  “Há cerca de seis meses surgiu a oportunidade de participar do Vale Tudo, no Cena, Som & Fúria. Jorge Alencar e a Rainha Loulou me chamaram pra performar cantando lá”, relembra Victor. O rapaz apostou num personagem andrógino, inspirado em Charles Chaplin: “Me senti à vontade como nunca antes”. Aimée é o nome de uma amiga. “Sempre achei nome de drag. Depois vi que significa ‘a amada’. E amor é o que me move nessa arte”, afirma ele. Lumière foi escolhido porque remete a luz.

Veja mais Face: /aimee.lumiere.9.Malayka SN Quem é Malayka SN não se considera propriamente uma drag. “Malayka é um estado performático. Ela nasce de um lugar etéreo. Enquanto a física diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, eu acredito no contrário”, diz. O visual e a performance são bem diferentes do que grande parte das drags faz. Nesta montação, por exemplo, usou lixo para protestar contra a poluição do mar. “Sofremos de uma patologia racista estruturante. Valoriza-se formas de brancos, cabelos lisos, corpos num determinado padrão... E eu não quero me anular como sujeito para agradar ao outro. O caminho da mudança tá na incisão”, afirma.

O criador Romário Oliveira, 24, estuda Desenho e Plástica na Ufba. Morou a vida quase toda em Pirajá e saiu da casa dos pais há quatro anos. “Não me sentia confortável para fazer o que gosto nas artes e no transformismo. Minha família tem problemas com a montação”, lamenta o rapaz.

Como nasceu Desde 2014, ele faz, em casa, uma festa chamada Sodoma. Numa dessas, resolveu se montar. Mas a estreia na rua só rolou ano passado, num evento no Teatro Gregório de Mattos. O SN do nome tem múltiplos significados: sem nome, sem ninguém, sem nada...

Veja mais Face: /MalaykaNyong. Insta: @malaykasn. Twitter: @malaykasn.Spadina BanksQuem é “Sou completamente maluca! Tenho dislexia e não suporto segurar bolsa. Peço pra todo mundo segurar. Digo que sou bolseira”, afirma. Ela se define como comediante e perfomer e tem como referências Maria Bethânia, Gal Costa, Naomi Campbell, Beyoncé e Elza Soares. “Também sou DJ, hostess e modelo treinada por Tyra Banks (risos)”, diz Spadina.

O criador Douglhas Nassiffe tem 24 anos e estuda Engenharia Civil.

Como nasceu Durante um intercâmbio no Canadá. “Conheci uma realidade na qual todos aceitam as diferenças. Acabei me empoderando e colocando pra fora vontades e cores que eu guardava”, diz. Ele e os amigos passeavam montados na rua. Na volta pro Brasil, contou com o apoio dos amigos para arrasar. “Não tenho trabalho certo e tudo é muito caro. 70% do que uso foi presente ou emprestado. A parte mais difícil se tornou a melhor pra mim: a generosidade”, comemora. A primeira apresentação foi em agosto do ano passado. “Faltava externalizar esta arte. Quando comecei, pensei que teria um viés mais fashion, mas adoro fazer graça, caras e bocas”, pontua. Spadina é o nome de uma estação de metrô de Toronto, cidade em que a drag nasceu. E Banks é por causa da cantora americana Azealia Banks.

Veja mais Face: /spadinabanks. Insta: @spadinabanks.Nina CodornaQuem é O nome artístico mistura a primeira cadelinha de estimação com a rua em que o criador nasceu. “Nina é nome de diva, como (as cantoras) Simone e a Hagen. Codorna é ave de boteco. Nina Codorna é isso: se empodera como diva, mas pode fazer piada de si mesma”, conta a própria. As performances são ecléticas, com músicas de Nicki Minaj e Ella Fitzgerald.

O criador O designer Marcos Xotoko, 28, criou a colorida personagem há cinco meses. As referências são o fotógrafo americano David La Chapelle e a drag queen Milk. “É uma válvula de escape para minhas criações mais loucas”, conta.

Como nasceu Marcos já frequentava a Âncora do Marujo. “Em agosto do ano passado, a drag queen Latrice Royale, do Ru Paul’s Drag Race, se apresentou em Salvador e todo mundo ia para a festa montado. Resolvi ir também”, recorda. Cerca de um mês depois, Nina venceu o concurso Novata do Festival, do Festival Drag Queen, do Teatro Gamboa Nova.

Veja mais Face: Nina Codorna. Insta: @ninacodorna. Snapchat: ninacodorna.EuviraQuem é Uma viúva que, na década de 40, não tinha como se manter e abriu um bordel para que outras viúvas conseguissem trabalhar. “Euvira não quer ser amada, quer ser respeitada. Daí não se propor a imagem feminina comum às drags”, conta. As performances abordam desconstrução de gênero e exaltação ao candomblé. “Questiono a misoginia, o machismo e o racismo no mundo drag. Pra fazer o público rir, ainda tem quem use piadas desse tipo”, interpela ela.

O criador Misael Franco, 27, é artista. Ou melhor: artivista. “Faço performance há anos e focava em críticas ao cristianimo e à homossexualidade”, diz. Já viajou pela América Latina, morou em Buenos Aires e lá viu pela primeira vez uma drag de barba ao vivo.

Como nasceu Tudo começou no concurso do Talento Marujo, na Âncora. Ele não é drag: está drag. “Não me proponho a ser drag a vida toda. Antes da drag eu era um menino que usava salto e saía para questionar a padronização”, fala. O nome é um trocadilho. “Minha mãe é evangélica e meu pai é policial militar. Para tudo que quis fazer, sempre ouvi deles: ‘se vira’. Aí brinquei: Euvira sou eu me virando, só que no feminino”, diz o performer Misael Franco.

Veja mais Toda terça no Âncora do Marujo. Face: /TiaMisa. Insta: @DamaEuvira. Aleera CoxQuem é Uma garota que sempre sonhou em ser atriz, modelo, cantora, dançarina e sereia. “Aleera é uma personagem diferente em cada situação”, pontua ela. As performances são inspiradas em cenas de musicais, como Abracadabra, Chicago e Burlesque. Nas dublagens, reinam divas como Beyoncé.

O criador Lando Augusto, 25, é médico e ator.

Como nasceu Lando se monta desde setembro, mas o nome Aleera é da semana passada. “Já tinha feito papéis femininos no teatro e ajudei a amiga Melissa Edwards no concurso Talento Marujo 2015”, lembra Lando.

Veja mais Face: Aleera Cox.Petra PerónQuem é Cubana que reivindica uma guerrilha estética através de símbolos e narrativas da esquerda e do universo LGBT. O nome mistura duas latino-americanas fortes: a guerrilheira mexicana Petra Herrera e a ex-primeira dama da Argentina Eva Perón. “Esteticamente, me inspiro em Frida Kahlo, Celia Cruz e Gloria Estefan”, explica.

O criador Rafael Pedral, 28, é estudante do Bacharelado Interdisciplinar de Humanidades (Ufba), militante do movimento LGBT e assessor parlamentar. “Em tempos de avanço do conservadorismo, drag é um instrumento de luta”, afirma.

Como nasceu Gosta de assistir a shows de drags locais, como Valerie O’Hara, Rainha Loulou e Marina Garlen e de ver o programa de Ru Paul. “A vontade de me montar surgiu em 2014, no concurso Talento Marujo. Tenho 8 meses de drag”, diz.

Veja mais Face: /petra.peron.5.DesiRée BeckQuem é “Mirei em Beth Davis e em Bjork. Acertei na Rita Cadillac”, descreve-se DesiRée. A bonita diz ainda que gosta de conciliar drama e eloquência: “Sou camaleoa, querida”. Até em lançamento de site de geografia ela já performou. O criador Michael Cardoso, 25, é formado em Nutrição e hoje estuda Gastronomia.

Como nasceu O rapaz sempre gostou de se montar, de brincadeira, em reuniões de amigos. A estreia oficial foi no concurso Miss Universe Gay, em abril do ano passado. “Eu era fã do Ru Paul’s Drag Race e queria me montar. Uma amiga, Kaysha Kutnner, me ajudou muito”, recorda Michael. O nome foi escolhido pela sonoridade e o sobrenome é uma homenagem ao marido.

Veja mais Face: DesiRée Beck.