'ENTROU EM PRECEITO'

Jovem adepta do candomblé usa beca branca em festa de formatura da UFSC

Cynthia Luiza Ribeiro do Amaral foi a primeira a utilizar a veste branca na história da universidade

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Publicado em 6 de abril de 2024 às 10:26

Formanda de Serviço Social se graduou na UFSC Crédito: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

A formatura do curso de Serviço Social nesta quinta-feira (4) teve um significado especial para a formanda Cynthia Luiza Ribeiro do Amaral e também para a história da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela foi a primeira pessoa a colar grau na instituição com uma beca branca por causa de sua formação espiritual no candomblé.

Cynthia subiu ao palco no Centro de Cultura da universidade aplaudida por seus familiares e amigos, que também utilizavam vestimentas brancas. 

Ela explicou à universidade que o processo de formação espiritual de Cynthia no candomblé começou no mesmo dia em que defendeu seu trabalho final da faculdade.

Ela “entrou em preceito”, termo utilizado para definir uma fase no desenvolvimento espiritual dos candomblecistas que se preparam para receber o seu orixá. Durante este momento, ela precisa passar por uma série de ritos, entre eles está o uso diário das vestes brancas, além da cobertura dos cabelos durante um ano.

Formanda de Serviço Social se graduou na UFSC Crédito: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

Cynthia foi uma das escolhidas para proferir o discurso da turma durante a formatura. “Só a luta muda a vida”, disse em seu discurso.

Pela primeira vez na história, a UFSC teve uma vestimenta com essas características, uma deliberação da Reitoria para que Cynthia pudesse se formar respeitando sua perspectiva de acessibilidade e garantia de direitos.

O cumprimento da prerrogativa legal é considerado um divisor de águas para toda comunidade acadêmica, povos de axé e de todas as religiões, além de ser um gesto de combate ao racismo religioso e intolerância religiosa.

Formanda de Serviço Social se graduou na UFSC Crédito: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

Cynthia tem como seu orixá Oxumarê, cuja história é associada ao movimento e à transformação. Logo que percebeu que a formatura seria celebrada durante o seu período de preparação, começou a pensar no que poderia ser feito, já que a celebração tradicional dos formandos, além de ser um direito, também era um desejo seu e dos seus familiares.

“Eu me questionava sobre como iria me formar de roupa preta e como eu faria com o aparamento na cabeça”, conta.

O que para muitos pode ser uma preocupação trivial, já que o traje composto de beca (roupa) e capelo (chapéu) fazem parte dos protocolos, para ela se transformou em uma questão a ser resolvida.

“Eu não gostaria que num momento tão especial desses eu tivesse que abrir mão de alguma coisa que também é tão especial para mim”, sintetiza.