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Wendel de Novais
Publicado em 29 de abril de 2026 às 05:15
O assassinato de Renné Senna, lavrador que se tornou milionário após ganhar sozinho R$ 52 milhões na Mega-Sena, em julho de 2005, é um dos casos mais emblemáticos de vencedores de loterias que foram mortos após mudarem de vida com uma fortuna. Morto a tiros no dia 7 de janeiro de 2007, em Rio Bonito (RJ), o lavrador virou vítima em um caso que se transformou em uma investigação marcada por suspeitas familiares, depoimentos contraditórios e uma disputa milionária que atravessou anos na Justiça. >
A execução — com quatro tiros na cabeça enquanto ele conversava em um bar no distrito de Lavras — evidenciava um crime planejado, e não demorou para que a apuração policial apontasse para um cenário de traição, interesses financeiros e ruptura conjugal às vésperas de um possível divórcio. >
Adriana virou a principal suspeita de ordenar crime
Vida simples >
Até se tornar milionário, Renné levava uma vida simples como lavrador e ex-açougueiro. Mesmo após a mudança radical de condição financeira, ele manteve laços com a cidade onde cresceu e decidiu continuar vivendo próximo à comunidade. Em janeiro de 2006, casou-se com a cabeleireira Adriana Ferreira de Almeida, 25 anos. >
À primeira vista, a união representava um novo capítulo em sua vida. No entanto, pouco mais de um ano depois, o relacionamento já apresentava sinais de desgaste. O casal vivia conflitos, agravados por suspeitas de traição e pela possibilidade de alteração no testamento do milionário, o que teria provocado uma ruptura definitiva dias antes do crime. >
A execução, ocorrida em plena luz do dia, causou forte comoção em Rio Bonito. Conhecido e querido na região, Renné era visto como alguém que não havia abandonado suas origens, mesmo após enriquecer. A repercussão do crime foi imediata e acompanhada por um clima de tensão crescente, de acordo com informações do O Globo na época. >
Investigação >
A viúva, Adriana, passou a ser alvo de desconfiança tanto por parte dos familiares quanto da população local. O episódio mais emblemático dessa reação aconteceu quando moradores tentaram invadir a delegacia para linchá-la durante um depoimento, mostrando o nível de revolta e suspeita que cercava o caso no início. >
Durante os primeiros depoimentos, Adriana tentou afastar as suspeitas e, segundo O Globo, chegou a apontar a enteada, Renata Senna, como possível envolvida no crime. Ela alegou que Renné pretendia realizar um teste de DNA por desconfiar da paternidade da filha, o que teria gerado um conflito familiar. >
A versão, no entanto, não se sustentou diante das apurações policiais. Ao mesmo tempo, novos elementos começaram a surgir, colocando a própria viúva no centro das investigações. A polícia identificou inconsistências em depoimentos, além de movimentações financeiras consideradas suspeitas, como um saque de R$ 1,8 milhão realizado pouco após a morte do marido, de acordo com matéria do Estadão na época. >
Renné Sena foi morto e Adriana virou a principal suspeita de ordenar crime
Conclusão de inquérito >
O inquérito concluído ainda em 2007 apontou que o assassinato havia sido encomendado. De acordo com a polícia, Adriana teria contratado um ex-segurança de Renné para executar o crime, que contou com a participação de outros cúmplices, incluindo ex-seguranças e policiais militares. >
As provas reunidas incluíam interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, que contradiziam versões apresentadas pelos acusados, além de evidências materiais, como a apreensão de uma moto possivelmente utilizada na ação, com sinais de adulteração. Para os investigadores, o conjunto de indícios desmontava os álibis e revelava uma trama estruturada para eliminar o milionário. >
As prisões ocorreram em sequência ao longo de fevereiro de 2007, atingindo todos os suspeitos apontados pela investigação. O caso ganhou contornos ainda mais complexos com a morte de um homem que teria denunciado um plano de sequestro envolvendo integrantes do grupo, reforçando a hipótese de que o crime estava inserido em um contexto mais amplo de atividades criminosas. >
Anos de indecisão >
Segundo o g1, ao longo dos anos seguintes, o processo judicial foi marcado por reviravoltas, incluindo a absolvição de Adriana em 2011, decisão posteriormente anulada após recurso do Ministério Público, que argumentou que o veredicto contrariava as provas apresentadas. Em 2016, após novo julgamento pelo Tribunal do Júri, Adriana Ferreira de Almeida foi condenada a 20 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e sem possibilidade de defesa da vítima.>
Mesmo condenada, ela não foi localizada para cumprir imediatamente a pena e permaneceu foragida por anos, sendo capturada apenas em 2018, em uma casa utilizada como esconderijo no município de Tanguá, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A prisão foi resultado de um trabalho integrado de inteligência policial, encerrando um dos capítulos mais prolongados do caso.>
Disputa por herança >
O Globo publico que, paralelamente à esfera criminal, a morte de Renné Senna deu início a uma longa disputa judicial pela herança milionária. Diferentes testamentos foram apresentados e analisados, refletindo as mudanças de decisão do lavrador nos últimos anos de vida. Ao final, a Justiça reconheceu a filha, Renata Senna, como única herdeira legítima, enquanto Adriana, condenada pelo assassinato, perdeu o direito à herança. A fortuna, que inicialmente era de R$ 52 milhões, ultrapassou os R$ 100 milhões ao longo dos anos, impulsionada por investimentos realizados ainda em vida pelo milionário.>
Mais de uma década depois, o caso é um dos episódios mais marcantes da crônica policial brasileira. A combinação de enriquecimento repentino, conflitos familiares, traição, execução planejada e disputa por herança ajudou a consolidar a história de Renné Senna como um exemplo extremo de como grandes fortunas podem desencadear rupturas profundas e, em situações limite, levar a desfechos violentos>