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Maria Raquel Brito
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 07:30
Quando ele passa, todos param para admirar. Antes mesmo de sair, uma multidão aguarda o momento de apreciar sua beleza. É assim há 52 anos: na noite em que o Ilê Aiyê sai do terreiro Ilê Axé Jitolu rumo ao Circuito Mãe Hilda, é difícil encontrar um espacinho vazio na ladeira do Curuzu. >
No último sábado (14) não foi diferente. A concentração para o cortejo começou oficialmente às 20h, mas centenas de pessoas já se reuniam em frente ao terreiro para esperar o ritual que precede o desfile, um espetáculo à parte. >
Enquanto se preparava, a Deusa do Ébano deste ano, Carol Xavier, era só emoção. O coração batia forte, “no ritmo do Ilê”, como ela mesma descreveu. A mente, porém, estava tranquila para encarar e honrar a responsabilidade da coroa — e representar milhares de meninas e mulheres negras Brasil afora. >
“É muito bonito quando a gente fala sobre representatividade, porque é de fato trazer a potência para essas outras crianças e mulheres. Elas são uma potência já na cidade, que já é uma estrutura de Salvador, mas não conseguem se enxergar enquanto potência”, afirmou. >
Este ano, o Mais Belo dos Belos desfilou com o tema “Turbantes e Cocares: a história de resistência do povo afro e indígena de Maricá”, com o objetivo de conectar Bahia e Rio de Janeiro a partir da memória, da ancestralidade e da luta de povos que sustentam, geração após geração, as bases da identidade brasileira.>
Antes da saída, como pede a tradição de cinco décadas, o bloco fez seu ritual religioso para abrir os caminhos, com a bênção da ialorixá Hildelice Benta, filha da falecida Mãe Hilda Jitolu e atual comandante do terreiro. >
Primeiro, uma chuva de milho, pipoca e pó de pemba atingiu as centenas de cabeças que não abriam mão do seu lugar em frente ao local sagrado na Liberdade. Os tambores dos músicos do Ilê e o cântico para Oxalá e Obaluaê inundavam as ruas, pedindo boas energias e proteção para este Carnaval. Continuando a tradição, pombas brancas que simbolizam a paz foram soltas, dedicadas a Oxalá. >
Teve início, assim, o Carnaval do primeiro bloco afro do Brasil. Com o grupo de músicos, a Deusa do Ébano e as princesas escolhidas na 45ª Noite da Beleza Negra posicionados, o Ilê seguiu o cortejo, ladeira acima.>
No dia seguinte, outra cena tradicional aconteceu no Pelourinho, quando o tapete branco dos Filhos de Gandhy tomou as ruas. O início da tarde de domingo (15) marcou o primeiro desfile do afoxé no Carnaval. O cortejo começa tradicionalmente na sede, no Pelourinho, e segue em direção ao Campo Grande.>
Antes de ganhar as ruas, a tradição de um afoxé com 77 anos de história é preservada com a realização do Padê. O ritual, típico das religiões de matriz africana, saúda Exu, abre caminhos e pede proteção. No rito, alimentos e bebidas são oferecidos à divindade. Com a bênção concedida, o afoxé pôde iniciar o percurso ao som do ijexá.>
Entre os foliões estava Marcos Vinícius Silva, de 52 anos, funcionário da Petrobras. No caso dele, a relação com o afoxé vem de berço: seu pai era diretor do Gandhy e o levou para o desfile pela primeira vez quando Marcos tinha apenas dez anos.>
“Eu ajudava a separar fantasias, passava as férias na sede. Depois que ele faleceu, ficou essa herança. Pretendo continuar enquanto tiver saúde. Estar aqui, participar do padê e pedir proteção a Exu é uma emoção enorme”, afirmou. >
Os Filhos de Gandhy desfilaram ainda na segunda-feira (16), no Circuito Dodô, e na terça-feira (17), no Circuito Osmar (Campo Grande). Neste ano, o tema do desfile foi “Nos Caminhos da Comunicação para a Paz”, inspirado em Exu, orixá da comunicação e do movimento. A proposta destacou a comunicação como ferramenta para construir pontes entre pessoas, territórios, culturas e gerações, reforçando valores como respeito, diversidade, convivência e não-violência.>
Foi também no Pelourinho que o Olodum deu início ao seu Carnaval, na sexta-feira. Já passava das 17h quando a primeira ala de mascarados passou em frente à sede do bloco afro. O desfile deste ano homenageou nomes como o falecido artista Jayme Figura e contou com convidados como os cantores Caetano Veloso, João Gomes e Lazzo Matumbi.>
Com o tema, “Máscaras Africanas - Magia e Beleza”, o desfile reuniu percussionistas, cantores, dançarinos e alas temáticas. Assinado pelos artistas Cássio Caiazzo e Erick Simões, o figurino foi inspirado em diferentes máscaras africanas, que representam a grandeza dos reinos daquele continente. >
Depois do primeiro grupo, as alas de dançarinos tomaram conta da rua. Em seguida, a bateria do Olodum assumiu o comando da apresentação. Após abrir as atividades oficialmente no Centro Histórico, a banda partiu em direção ao Campo Grande, onde saiu com o trio elétrico às 21h. A semana do Carnaval ainda reservou outros dois desfiles para o Olodum: no domingo, no Circuito Dodô (Barra-Ondina), e na terça-feira, no Circuito Osmar, com uma bela pipoca.>
O Carnaval do Cortejo Afro também começou na sexta-feira, com um desfile no Circuito Osmar. Este ano, o tema do bloco foi “Bahia Benin – Reino de Daomé”, homenagem que marcou a primeira vez em 27 anos que um país africano foi escolhido como tema central do desfile. >
No domingo e na segunda-feira, foi o circuito Barra-Ondina que recebeu a performance de beleza, coreografia e ancestralidade do Cortejo Afro. Não tem como não se hipnotizar ao ver o “sombreiro man” Veko Araújo e ouvir as vozes de Portella Açúcar e Aloísio Menezes. Imagine com mais cerca de 2,5 mil integrantes, vestindo as fantasias de cores marcantes desenhadas pelo artista plástico e fundador do bloco Alberto Pitta. Foi mais um ano de espetáculo do Cortejo. >
Na tarde de sábado, as mulheres estavam nos holofotes. O primeiro desfile da Banda Didá reuniu gerações, das meninas às senhoras, no Campo Grande. Com o tema “Livre, forte, pele bela” e homenagens a figuras como Wanda Chase e Preta Gil, o cortejo da banda feminina juntou o samba-reggae baiano e o funk carioca na avenida. >
A maratona momesca da primeira banda afropercussiva feminina do mundo continuou nos dias 15 e 16, no Circuito Batatinha (Centro Histórico) e no Circuito Osmar, respectivamente. A cada dia, elas arrastaram uma multidão apaixonada com a energia característica do grupo. >
Os pequenos também tiveram seu lugar garantido na folia dos blocos afro e afoxés. Um dos exemplos é o Bloco Afro Infantil Ibéji, fundado com foco na educação racial e no fortalecimento da identidade negra infantil. Este ano, o cortejo reuniu cerca de 800 pessoas no Campo Grande no domingo, entre crianças, familiares e apoiadores.>
O bloco, que completa 32 anos em 2026, levou para a avenida neste Carnaval o tema “Kitembu – Guardião da Vida, dos Ciclos e da Ancestralidade”. A proposta foi trazer reflexões sobre o tempo, os ciclos da vida e a importância de honrar as raízes ancestrais, tudo de forma lúdica e acessível para o público infantil.>
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