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Fanfarra tem a mesma importância do trio e podemos provar

Donos do pré-carnaval, banda tem sua importância na folia e também garante um extra para quem toca nela

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 13:00

Fanfarra
Fanfarra Crédito: Sora Maia

Fanfarra, charanga ou chupa-catarro. Antes que os trios elétricos ocupem as avenidas e que as estrelas do axé ditem o ritmo oficial da folia, este conjunto musical já dominou as ruas de Salvador e continua fazendo a festa dos bairros e do interior baiano. O pré-carnaval não existe sem eles: metais, caixas, surdos, pratos. O som vem das fanfarras. São elas que abrem caminhos, aquecem o público e sustentam uma tradição que atravessa gerações.

Em meio à exaltação ao trio elétrico como símbolo máximo da festa, lideranças de bandas de rua lembram que a história é mais ampla. Uma dessas vozes é a de Diwan Santos Jesus, 39 anos, líder da Banda Baile de Rua, da Campana da Alegria, grupo sediado em Simões Filho e com atuação intensa no período que antecede a festa oficial.

“A importância das bandas de fanfarra no Carnaval é potencializar o talento dos componentes das bandas marciais da Bahia e do Brasil e também impulsionar as músicas contemporâneas dos carnavais vindouros. E as antigas também, as marchinhas. A gente tem essa missão de manter a tradição e estar impulsionando. A Campana da Alegria tem essa premissa”, disse.

A fala de Diwan sintetiza um ponto central: as fanfarras funcionam como ponte entre tradição e renovação. Se por um lado mantêm vivas as marchinhas, herança dos antigos carnavais de salão e de rua, por outro adaptam sucessos contemporâneos ao formato percussivo e de sopro, criando versões que ecoam em bairros e cidades do interior. E sempre misturado com o público, no chão.

Enquanto o circuito oficial concentra patrocinadores, camarotes e grandes estruturas, o pré-Carnaval é território fértil para as bandas de rua. Ensaios públicos, lavagens, festas de largo e eventos comunitários se multiplicam nas semanas que antecedem a Quarta-feira de Cinzas. E continuam onde os trios elétricos não chegam.

"Em Salvador, a gente faz mais o pré-Carnaval, onde chegamos a tocar em três blocos diferentes por noite. A gente tem uma temporada de ensaio e agora a gente vai cumprir as agendas que temos até março e depois fica esperando a próxima temporada”, disse Diwan, que coloca uma média de 80% no fluxo de trabalho. Ele trabalha em RH, mas assegura que no período de fanfarra ele ganha uma grana boa, comparada a um 14º salário.

"Ninguém vê a família. Coisa de doido. Principalmente para quem está administrando, que é o meu caso. Além de músico e mentor, sou administrador. Eu tiro férias do meu trabalho nessa época para poder só tomar conta disso”. O dado é revelador. Um crescimento de 80% na demanda significa que as fanfarras não são apenas manifestação cultural, são também economia sazonal. Elas movimentam músicos, costureiras, técnicos de som, transporte, alimentação e uma cadeia informal que gira em torno da festa. A banda de fanfarra de Diwan, no período fora do carnaval, não chega a 30 componentes. No período momesco, dobra o número de integrantes, como pôde ser visto no Habeas Copos, a última festa do pré-Carnaval.

Habeas-copos 2026 por Sora Maia/CORREIO

Claudio Almeida toca sopro e ganha um bom dinheiro tocando em bandas. “Chega a triplicar o dinheiro que ganho no mês, apenas nas semanas que antecedem o Carnaval. Não paro, este ano toquei em umas 10 bandas diferentes. Perdi a conta, na verdade. Só hoje (no Habeas), vou tocar em três. É muito bom esse dinheiro”, disse.

A profissionalização das fanfarras acompanha um fenômeno mais amplo observado por pesquisadores da cultura popular: a transformação de manifestações tradicionais em arranjos produtivos culturais. Estudos sobre bandas marciais e fanfarras escolares no Brasil, como os levantamentos feitos por pesquisadores da área de Educação Musical em universidades federais, apontam que esses grupos funcionam como espaços de formação artística, disciplina coletiva e inserção social de jovens, especialmente nas periferias. No Carnaval, essa formação ganha visibilidade pública.

Mas afinal, existe diferença entre fanfarra e charanga? No meio da rua, o ouvido menos atento pode confundir. Mas há diferenças. A fanfarra tradicionalmente tem formação mais estruturada, com instrumentos de sopro e percussão, muitas vezes oriunda de bandas marciais escolares, geralmente de origem militar. Já a charanga, termo popularizado em festas e estádios, costuma ter formação menor e repertório voltado a execuções rápidas e festivas, com forte improviso.

No contexto baiano, o termo “charanga” aparece com frequência em registros históricos de pré-carnavais do início do século XX, quando pequenos grupos musicais percorriam ruas tocando dobrados, marchinhas e sambas. Pesquisas sobre o Carnaval de Salvador, como as organizadas por estudiosos da cultura afro-baiana e da história da festa, indicam que esses grupos ajudaram a consolidar o modelo de ocupação musical das ruas antes mesmo da consolidação do trio elétrico na década de 1950.

A fanfarra contemporânea herda essa lógica de proximidade com o público, mas amplia o alcance sonoro e o número de integrantes. No caso da Campana da Alegria, o contingente impressiona. Um ponto pouco discutido é como as fanfarras funcionam como laboratório musical. Ao adaptar hits do verão ao formato de sopro e percussão, elas testam arranjos, ritmos e refrões que depois se espalham pelas ruas. O público aprende a cantar ali, no chão do bairro.

No pré-Carnaval, quando ainda não há grandes estruturas montadas, é o som da fanfarra que ecoa primeiro. Ele convoca, reúne, aquece. Depois vêm os trios, os camarotes, as estrelas. Mas quem já ouviu uma bateria de rua dobrando a esquina sabe: o Carnaval começa mesmo quando os metais anunciam que a festa está chegando.

Fuzuê mistura forró, fantasia e tradição nordestina no pré-Carnaval por Bruno Wendel/CORREIO

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