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Os rostos por trás da folia: quem faz o Carnaval de Salvador acontecer

Do motorista do trio à vendedora ambulante: conheça as histórias de quem trabalha enquanto o mundo pula atrás do trio.

  • Foto do(a) author(a) Alan Pinheiro
  • Alan Pinheiro

Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 08:00

Efigênia garante o sustento da família
Efigênia garante o sustento da família Crédito: Sora Maia/ CORREIO

No Carnaval, os artistas são os protagonistas da festa. No entanto, muitos trabalhadores estão espalhados pelos circuitos de Salvador para garantir a melhor qualidade da festa e passam despercebidos pelo público geral. Da paixão ao pragmatismo e dos sorrisos à sisudez, o CORREIO conversou com cinco pessoas durante a folia para destacar aqueles que são pouco vistos.

A ambulante

Descendo o Morro do Gato e atravessando a rua, uma fileira de ambulantes se espalhava estrategicamente pelo circuito Dodô (Barra-Ondina) com seus isopores e mercadorias prontas para satisfazer as necessidades dos foliões. Uma dessas foi Efigênia Oliveira, vendedora de 55 anos, que sorria sem parar enquanto trabalhava. O sorriso, marca registrada da mulher, tinha justificativa. Era o orgulho de trabalhar. Acompanhada do irmão, Efigênia se estabeleceu na frente de um dos camarotes da região no dia 17 de janeiro e lá fica até o arrastão da Quarta-feira de Cinzas, hoje. Fazendo o seu “dinheirinho”, ela ama trabalhar durante o Carnaval. Bebe um café para aguentar ficar em pé e curtir os artistas que ama, principalmente Leo Santana. “Chefe de família, sempre fui assim, não dependo de homem, só dependo de Deus”, se definiu. Foi como ambulante que conseguiu o dinheiro para criar sozinha o filho de 27 anos e os pets. São quatro cachorros e um casal de peixes em casa. Falando de todas as suas “crias”, ela sorria novamente contando sobre cada um deles e em como estava sentindo saudade. “Eu sou guerreira, viu!”, bradou. O Carnaval para ela é uma oportunidade que bota comida na mesa e ajuda nos reparos da casa, mas a luta continua durante o ano. Não estranhe se encontrar o sorriso de Efigênia pela Fonte Nova e pelo Barradão em dias de jogos ou até em outras cidades, como Jacobina. O trabalho não para e o orgulho também não. “Eu amo isso aqui”, decretou.

Gustavo Paranhos, segurança particular de 53 anos
Gustavo Paranhos, segurança particular de 53 anos Crédito: Alan Pinheiro/ CORREIO

O segurança

Na concentração da Barra, a chuva caía durante a noite e, em frente a um dos trios que aguardavam no final da fila, um homem permanecia parado com os braços cruzados e armado por uma “cara de mau”. Esse era Gustavo Paranhos, segurança particular de 53 anos. Homem de poucas palavras, a história de Gustavo com o Carnaval vem desde a infância, quando o pai levava a família para curtir a festa no Campo Grande. A tradição familiar, no entanto, não foi o suficiente para fazer o segurança amar essa época do ano. Há 20 anos, trabalhou em seu primeiro Carnaval e foi atuando na festa que passou a gostar. No início, era impossível prestar atenção em tudo que não fosse trabalho, mas a experiência agora permite que o profissional consiga ficar mais sossegado e curtir os desfiles. Claro, sem perder o foco. Às vezes, Gustavo precisa retirar um folião ou até socorrer alguém que passe mal dentro do circuito. A vida de segurança chegou para ele em um momento de necessidade. Gustavo precisava trabalhar e realizou cursos para atuar na área. Não gostava, mas foi se acostumando e passou a gostar. Em 2006, recebeu um convite para trabalhar no Carnaval e, desde então, fez sua história na festa, passando despercebido pela grande maioria dos foliões. O pior para ele é ter que lidar com a discriminação. O segurança não sente que seu trabalho é valorizado pelo público. “Podia ser mais”, confessa. Mesmo assim, se sente satisfeito com o próprio trabalho e sabe que contribui de alguma forma.

Juliana Caldas, nutricionista de 32 anos
Juliana Caldas, nutricionista de 32 anos Crédito: Alan Pinheiro/ CORREIO

A nutricionista

É comum que os camarotes do Carnaval tenham comidas e bebidas para que os foliões consigam restabelecer a energia. Dentro de um desses espaços, Juliana Caldas estava atenta na praça de alimentação. A nutricionista de 32 anos, com sua touca e roupa branca característica da profissão, olhava atentamente para as comidas e para aqueles que estavam trabalhando. Há seis anos atuando em camarotes, Juliana verifica toda a questão higiênica sanitária e faz o treinamento de quem vai estar responsável pela comida. Ela, que se concentra na área de cozinha industrial, é daquelas profissionais que está em movimento o tempo inteiro. “Na primeira vez foi mais desafiador, mas depois ficou mais tranquilo”, confessa. Fã do Carnaval, em alguns momentos até dá para curtir os artistas que passam. Nascida na Bahia, o coração de Juliana é dividido em dois. De um lado está o estado ao qual nasceu, enquanto do outro está o Piauí, onde mora sua família e onde ficou por uma década. Ela voltou para a capital baiana para terminar os estudos e agora vive com o noivo André. Se tratando de culinária, no entanto, não tem divisão certa. “A da Bahia não tem igual”, afirma. Apaixonada por esportes, cinema e livros, a nutricionista vive uma rotina de acordar cedo para trabalhar no Polo Industrial de Camaçari, voltar no início da tarde e então poder relaxar e fazer as coisas que gosta. No Carnaval, porém, isso dá espaço para uma rotina exaustiva que reúne etiquetas, luvas, toucas, fiscalização e uma sensação de dever cumprido.

José Roberto, motorista de trio elétrico de 56 anos
José Roberto, motorista de trio elétrico de 56 anos Crédito: Alan Pinheiro/ CORREIO

O motorista de trio

Engana-se quem pensa que o percurso dos trios elétricos é comandado pelos artistas. Claro, eles são os protagonistas da festa, mas os motoristas dos veículos são os reais responsáveis pelo ritmo do desfile. No primeiro dia oficial de Carnaval deste ano, quem foi ver a cantora Ludmilla pôde perceber um homem de boné em frente ao trio gesticulando para guiar o motorista. Esse era José Roberto. O baiano de Alagoinhas não foi o motorista titular. Assim como em jogos de futebol, os reservas são necessários. No caso do motorista de 56 anos, tinha a função de coordenar o movimento no veículo, mas logo assumiu o volante quando o companheiro cansou. Quando volta para casa, tem a mãe Áurea Santos, de 88 anos, para cuidar. Com a mão no volante, dirige durante todo o ano para conseguir levar o “pão de cada dia”. E foi assim que criou seus filhos Givaldo e Lana. Ela é professora e ele trabalha “com negócio de embarcação”. Os 11 anos atuando na função o fizeram ter histórias para contar. Sem preferência, citou Banda Mel e Ivete Sangalo como shows que gostou de ter trabalhado. Nesse tempo, foram cursos e mais cursos para se tornar capaz de exercer a função, da qual fala com carinho. “Eu sou uma pessoa que gosta de trabalhar, amo fazer o que eu faço. Gosto de ficar sempre orientando o público e o folião. A gente tem que entrar no circuito e fazer o melhor da gente”, disse. Ele deixa claro a satisfação com o trabalho, mas durante o percurso o foco é total. Dá pra curtir? “Não”, respondeu prontamente.

Núbia Silva, cordeira de 55 anos
Núbia Silva, cordeira de 55 anos Crédito: Alan Pinheiro/ CORREIO

A cordeira

Núbia Silva é uma daquelas pessoas que deixam os desavisados de boca aberta. Direta e sincera até demais, a cordeira estava sentada ao lado do trio esperando pelo início do Bloco Nana para começar a trabalhar. Acompanhada por mais duas amigas, que se conheceram na última semana, ela falava do feijão que tinha cozinhado em casa para dar sustância para aguentar o trajeto. A vida de cordeira (o) não é fácil. A mulher de 55 anos chegou ao percurso no início da tarde e só tinha perspectiva de ir embora no dia seguinte. Com três filhos e cinco netos, continua trabalhando durante o ano em seu barzinho – o qual suplica por ajuda financeira para conseguir mais mercadoria. “Vê se você acha um empresário pra botar dinheiro lá, moço”. O ano de 2026 foi o primeiro de Núbia como cordeira. Ao contrário de outras pessoas que falam com emoção do trabalho, ela era mais pragmática. Queria trabalhar em outra função neste Carnaval, mas viu a vaga de cordeiro e se inscreveu para não perder a oportunidade. Preferência por artista? “Nenhum, para mim está tudo bom”. Natural de Governador Mangabeira, no Recôncavo Baiano, a moça criada na roça agora vive com suas convicções. Com pouco tempo de conversa, já se entende quem é Núbia. As outras duas cordeiras que estavam próximas, inclusive, já pareciam ter se acostumado com o jeitinho sincero dela reclamando dos biscoitos que deram para a alimentação. Afinal, quem é Núbia? “Uai, sou eu mesmo”, afirmou.

O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador