CRÔNICA

451: a melhor casa do mundo

No quintal, o fusquinha amarelo do papá disputava espaço com pés de milho plantados por Ela para que colhéssemos nossos próprios milhos na época do São João

Publicado em 12 de maio de 2024 às 09:34

a melhor casa do mundo
A melhor casa do mundo Crédito: Quintino Andrade/CORREIO

Da Ernesto de Paula Santos, a 451 é a casa mais bela da rua da minha vida.

Muro baixo, portão que ao ser aberto apresentava um caminho de pedras rodeado por jardim. Onze horas, palmeiras, coqueiros, boa noite, margaridas, avenca, grama.

E varanda.

E Tupã. O pastor-alemão mais lindo e feliz que meus olhos já viram. Tupã conviveu com a gente tempo suficiente para existir até hoje.

Lembro do dia em que Tupã foi colocado dentro do carro, lembro da cara dele, língua de fora de menino bobo, olhar de ingênua confiança de que voltaria, Tupã dentro do carro. Partindo...

A 451 é a casa-número presente em todas as minhas partidas e chegadas.

Depois da partida de Tupã, a chegada de Tobby. Um pequinês. Absolutamente o oposto de Tupã. Tobby era pequeno, tipo tamanho de pequinês mesmo - mas achava que era gigante. Tenho a impressão que ele tinha noção de que era muito chato. E acho que ele gostava disso... Gostava de marcar território e de rosnar para todo mundo, menos pra Ela, minha mãe, que era amada por Tobby de forma definitiva e linda, Era amor mesmo. E Ela também amava Tobby. Enfim...

Da varanda da 451, A lembrança::

“Marcha soldado/ cabeça de papel/ quem não marchar direito/ vai preso pro quartel”.

Na memória, dobrar folhas do Diário até virar chapéu.

Na memória, a etérea fala anunciante dEla:

Jornal é um monte de letra junta que não diz nada.

(Né que tem gente que nasceu para anunciar confirmações futuras...).

O batalhão: 3 soldadinhas e 1 soldadinho usando chapéus feitos de folha de jornai,

Seguindo as ordens dadas pela liderança:

“Marcha soldado/ cabeça de papel/ quem não marchar direito/ vai preso pro quartel”.

451: a melhor casa do mundo.

Diante da porta de entrada, a janela à esquerda.

Entrou, a sala. E nela aquele tapete branco e marrom de couro de boi, em forma de boi. Era boi.

Em frente a sala, outra sala.

E nessa tal outra sala, minha infância. Feita de muitos bambolês e de muitos tique-taque. Braço roxo até aprender que tique não é taque... ” Ôrrô cupido vê se deixa em paz”... E eu a dançar concentrada e lindamente, aquele rock.

Não me lembro de alguma boneca minha. Lembro de bonecas em casa. Lembro que eu gostava de tirar as pernas, braços e cabeça delas. E gostava de encaixar os tais membros de novo. E lembro de Beto, o urso de pelúcia presenteado a minha irmã mais nova, mas virou, e é, nosso. Ente da família.

Lembro do cheiro do plástico queimado com o qual meu irmão fazia seus próprios botões pra jogar futebol de botão. Lembro do feltro verde costurado com espaços para abrigar, delicadamente, cada botão. A 451 foi sede de inúmeros campeonatos. Lembro do capricho com que os tais botões erma feitos, e após feitos, polidos, e após polidos, guardados.

Mas a Quatro Cinco Um...

Casa de carinho, de abrigo, de diversão, de festa, de encontro, de infância.

TRINTA E UM ALERTA! UM, DOIS, TRÊS! Brincar de se esconder, acho, foi uma certa forma de terapia pra aquela criançada que fomos. Afinal, controlar a sensação incomodativa do geladinho que a rã grudada na perna trazia era desafiador. E divertido. O silêncio, o controle do corpo e a atenção que a brincadeira nos obrigava Garrafão na rua ainda de terra. Aquele jogo dos meninos com bola de gude e um triângulo. Nunca entendi. Nem me interessei em entender. Árvore pra subir. Azeitona preta pra deixar a boca toda roxa. Esperar o vendedor de quebra-queixo, praticamente, todas as tardes. O Assobio do amolador de facas e tesouras. E os sábados...

Aos sábados, a expectativa de sair de casa e andar até a praia, guiada por Ela, passar por uma mulher que, com seu tabuleiro, vendia um bolinho nada apetitoso, fritado em óleo, que, acho, tinha o nome de acarajé...

Mas nosso destino era o mar de Boa Viagem. Eu gostava de chegar nas pedras do mar quando a maré estava rasa. Sempre gostei da água do mar, do cheiro do mar, de me encantar pelo mar. Já.Ela, não. E Ela dizia: “o mar é lindo, mas a água pode molhar até meu pé, mas não passa do meu totó”. E na areia, eu me encantava com a forma como os vendedores de raspa-raspa raspavam aquela pedrona de gelo até virar aquela gostosura gelada e, a cada sábado, desejada. Sempre escolhi o “raxpa-raxpa” vermelho. E sinto certa piedade de quem nunca provou a delícia que é sorver um “raxpa-raxpa” nas areias das praias de Recife.

Mas 4 5 1 era nosso abrigo-mãe no retorno de todo lugar para onde íamos..

A 4 5 1 não era uma casa grande. Era uma casa genial. Tinha corredor, tinha 3 quartos, dois deles interligados por uma porta, tinha uma cozinha maravilhosa, onde ouvi sobre, vi nascer e devorei muitos e muitos meninos-bolachinha e tantas gostosuras mais. Sempre com música, com carinho e com a firme doce-brabeza dEla.

E a 4 5 1 ainda tinha aquele quintal. A partir dele, eu gostava de fugir, ganhar o mundo que ficava após o mangue e ir à casa da minha inesquecível amiga fiel da infância, Lili da Silva.

No quintal, o fusquinha amarelo do papá disputava espaço com pés de milho plantados por Ela para que colhéssemos nossos próprios milhos na época do São João. Também fazia fogueiras e nelas transformava caju em castanha pra gente comer. E com frequência ela juntava os “pirraia” todos – além das três filhas e do filho, os muitos e muitos sobrinhos e sobrinhas - pra contar, sempre muito encantadoramente, as mesmas muitas histórias, as mesmas muitas piadas, as mesmas muitas brincadeiras, e cantava sempre.

Enfim, a 451 era uma casa muito engraçada, muito encantadora, muito cheia de alma e de vidas. Mas, certo dia, saímos da 4 5 1 para a 1474, na mesma Ernesto de Paula Santos.

Saímos. Mas ela nunca sairá de nós.

Carolina Gomes, jornalista e roteirista