Outras inteligências

Já vi vira-latas olhando a sinaleira antes de atravessar a rua! Como não se encantar com a engenharia de um joão-de-barro?

Publicado em 18 de novembro de 2023 às 10:00

A palavra inteligência é complicada. Pode parecer irônico, mas se formos realmente inteligentes é meio óbvio reconhecer que não somos os únicos com essa capacidade. O seu gato é um bom exemplo, alguns cachorros também. Já vi vira-latas olhando a sinaleira antes de atravessar a rua! Como não se encantar com a engenharia de um joão-de-barro? O uso de ferramentas por macacos e outros animais é no mínimo desconcertante. No reino dos insetos, então, basta ver de perto uma colmeia de abelhas, um formigueiro ou um cupinzeiro para lembrar de nossas cidades. Até a inteligência das plantas já está sendo reconhecida. Se você estiver duvidando, recomendo conhecer o trabalho do botânico Stefano Mancuso, ele estuda a forma como as plantas se comunicam, memorizam informações, se organizam e cooperam para sobreviver.

No entanto, a abertura para reconhecer outras inteligências vai depender da forma como separamos e classificamos o mundo. Aqueles que colocam a humanidade no centro, os antropocêntricos, tendem a ser mais céticos quanto à possibilidade de outras inteligências. Para eles, a tendência oposta seria um tipo de antropomorfismo, ou seja, apenas uma projeção de nossa própria imagem, transformando objetos, animais e plantas em seres com características que são apenas humanas.

De fato, é preciso ter cuidado com o antropomorfismo, por isso pode ser mais interessante buscar reconhecer que essas outras inteligências não precisam seguir o modelo humano, mesmo que em alguns momentos pareçam semelhantes. Por outro lado, reconhecer que outras formas de vida também podem ser inteligentes pode nos ajudar a estabelecer uma forma mais equilibrada de convivência.

Porém, se podemos aceitar a inteligência de não-humanos como animais e plantas, porque a coisa fica um pouco mais complicada quando falamos das inteligências artificiais (IAs)? Porque podemos até aceitar outras inteligências naturais, mas quando falamos de IAs ficamos tão desconfiados?

O conceito de IA é antigo. O primeiro uso do termo foi em 1955, por John McCarthy. Mas antes disso os autores de ficção científica já exploravam as possibilidades e os desafios de conviver com robôs ou computadores inteligentes. A obra de Isaac Asimov é um exemplo notável disso. Ele inclusive cunhou o termo robótica e popularizou a importância de aliar o desenvolvimento dessas tecnologias com algum tipo de preocupação ética, por isso criou as famosas três leis da robótica.

Desde então, o desenvolvimento dessas tecnologias avançou muito, passando até por uma fase de declínio, nos anos 80, e chegando aos dias de hoje com uma expansão nunca vista antes. Mas foi com o lançamento do ChatGPT, em dezembro do ano passado, que o debate sobre as IAs saiu dos muros da academia e se espalhou por jornais, redes sociais e mesas de bar. Foi a primeira vez que o grande público teve a oportunidade de interagir com uma IA mais esperta que os insuportáveis chatbots dos serviços de atendimento das empresas.

O sucesso foi estrondoso. Em apenas cinco dias, o serviço já tinha um milhão de inscritos. Muita gente se surpreendeu com as possibilidades. Mas também teve muita gente que se decepcionou com a experiência. Meus alunos, por exemplo, ficaram profundamente decepcionados depois de perguntar: Quem é o melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo ou Messi? A resposta do ChatGPT foi protocolar: “Como sou um modelo de linguagem treinado pela OpenAI, eu não tenho preferências ou emoções. (...) a escolha entre os dois jogadores é uma questão de preferência pessoal e é possível apreciar a habilidade e o talento de ambos.” Para muita gente, as primeiras experiências com ChatGPT foram desastrosas. Parecia que ele servia apenas para fazer resumos e textos engraçados.

Toda tecnologia nova traz consigo uma nova linguagem, por isso, para saber como usar essa tecnologia com mais eficiência, é preciso aprender os novos termos e expressões. Os computadores e a internet popularizaram expressões como deletar, linkar, dar um Google etc. No caso das IAs, entre diversas expressões novas, uma já está se tornando mais conhecida: “fazer um prompt”. Ou seja, solicitar algo a uma IA, de forma semelhante aos comandos usados em linguagem de programação.

Para fazer um bom prompt é preciso ter alguns cuidados. Quanto mais preciso for seu prompt, melhor será o resultado. Essa expertise está criando toda uma nova área de estudos, que está sendo chamada de Engenharia de Prompt, com foco nas aplicações mais práticas e na eficácia dos resultados. É uma área que combina conhecimentos de Programação, Linguística e Psicologia. É quase uma Promptlogia, e não deixa de ser interessante pensar que a formulação de bons prompts pode envolver a curiosidade e a criatividade que estavam na origem da Filosofia. Afinal, um bom prompt pode ser apenas uma boa pergunta. (Eu fiz alguns experimentos de Promptlogia. Quem tiver curiosidade pode dar uma conferida no site: conversandocombotoes.com).

Segundo Sundar Pichai (CEO da Google), a IA poderá ser “a tecnologia mais transformadora que a humanidade já experimentou, mais do que o fogo, a eletricidade ou qualquer outra coisa feita no passado”. Tem sido intenso o debate sobre as consequências e os riscos dessa tecnologia. Os pesquisadores Bruce Schneier e Nathan Sanders escreveram um artigo interessante mostrando como anda esse debate (The A.I. Wars Have Three Factions, and They All Crave Power). Segundo eles, existem três grupos principais disputando a hegemonia explicativa sobre as IAs. O primeiro grupo e o mais barulhento são os Pessimistas. Na visão destes, a inteligência das IAs vai superar a inteligência humana, em breve, e as IAs podem dominar o mundo. O segundo grupo são os Reformistas. Estes estão mais preocupados com os abusos e riscos que já estão acontecendo por falta de regulamentação (privacidade, deepfakes, viés sexista ou racista etc.). O terceiro grupo são os Belicistas. Para estes, a questão é qual será a primeira potência mundial que vai dominar essa tecnologia, EUA ou China?

Alguns meses atrás, houve até um manifesto para pedir uma pausa no desenvolvimento das IAs, de forma a permitir que a sociedade discuta como será a melhor forma de regulamentar e coibir os abusos. Uma discussão complexa, mas fundamental. Aqui no Brasil, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) acabou de divulgar um relatório enfatizando os riscos e benefícios da IA. O documento alerta sobre o perigo de ampliação da desinformação e dependência tecnológica, dada a natureza ainda incipiente do desenvolvimento de IA no país. O relatório ainda ressalta a necessidade de especialização e educação para maximizar os benefícios e minimizar os riscos associados ao avanço da IA.

Mas, enquanto alguns pedem para desacelerar, a OpenIA acaba de pisar no acelerador. Há poucos dias, lançou uma nova modalidade de seu serviço, os GPTs, que vão permitir que indivíduos criem versões personalizadas do ChatGPT. Agora vai ser possível, mesmo sem saber programação, configurar um GPT sobre qualquer assunto. A funcionalidade só está disponível para os planos pagos. Assim, pagando 20 dólares por mês, vai ser possível customizar um GPT especialista em Física Quântica, ou na saga Harry Potter, ou em receitas lowcarb, ou em leis trabalhistas. As possibilidades são infinitas. Os GPTs criados pelos usuários vão ser disponibilizados em uma loja da OpenIA, semelhante às lojas de apps da Google ou da Apple. Isso pode transformar radicalmente o mercado de IAs e, ao mesmo tempo, manter o controle do setor nas mãos da OpenIA.

Voltando à diversidade de inteligências, do começo do texto, considerando que as outras inteligências não precisam reproduzir um padrão inspirado na humanidade, nem emular nossas personalidades, podemos aprender a reconhecer a inteligência desses novos seres, sem desconsiderar os alertas dos outros grupos citados antes. Mas com um pouquinho de esperança de ver o surgimento de IAs como a do filme HER, de Spike Jonze. Já que a inteligência dos humanos até hoje não aprendeu a conviver, sem guerras, sem injustiças, sem violências, sem preconceitos, talvez essa nova etapa nos ajude a construir uma sociedade mais equilibrada. Lembrando que o desafio maior não está no lado não humano da balança, mas, sim, na nossa própria imperfeição.

Andre Stangl é professor e educador digital, cresceu em Brotas, estudou Filosofia e fez doutorado na USP