ARTIGO

Faça Pix, não faça guerra

Um lado positivo da desmateria- lização do dinheiro é a possibilidade de reduzir nossa obsessão por ele

Publicado em 19 de maio de 2024 às 05:00

As cenas da tragédia no sul do país são impressionantes e horríveis, mas estão conseguindo mobilizar uma quantidade enorme de doações. Ficamos sensibilizados com a situação dos desabrigados e muitos estão demonstrando sua solidariedade através de transferências via Pix. Uma facilidade que só se tornou possível graças à digitalização do dinheiro.

Imagine a dificuldade e morosidade de arrecadar esses recursos usando dinheiro em papel. Antes do advento do dinheiro digital, o processo era bem mais complexo e lento. As doações precisariam ser feitas presencialmente, em locais específicos como bancos, igrejas, centros comunitários ou através de eventos de arrecadação. Os doadores teriam que se deslocar até esses locais, o que limitava a quantidade de pessoas que podiam contribuir de forma rápida e eficiente.

A contagem e o transporte do dinheiro em papel envolviam riscos de segurança e exigiam logística para garantir que os fundos chegassem ao destino final. As instituições responsáveis pelas doações precisariam de um sistema rigoroso de contabilidade para registrar cada contribuição, aumentando a burocracia e a possibilidade de erros. Além disso, a distribuição dos recursos arrecadados também seria mais lenta. O dinheiro precisaria ser depositado em contas bancárias, convertido para cheques ou outras formas de pagamento, e então redistribuído para as organizações ou pessoas que necessitam da ajuda. Todo esse processo poderia levar dias ou até semanas, atrasando a chegada da ajuda aos necessitados. O dinheiro digital, como as transferências via Pix, simplificou enormemente esse processo, permitindo que doações sejam feitas instantaneamente e com muito menos risco de fraude ou erro.

Para entender as transformações em curso na forma como lidamos com o dinheiro, é interessante olhar como essa tecnologia milenar foi inventada e como ela afetou a forma como nos relacionamos com o que valorizamos. No mundo moderno, tendemos a associar a importância de algo ao seu custo ou preço. A invenção do dinheiro, que remonta às civilizações antigas, trouxe uma maneira padronizada de medir e trocar valor, substituindo sistemas de troca direta como o escambo. Moedas e notas permitiram transações mais eficientes e complexas, facilitando o comércio e a economia. Com o tempo, a percepção de valor se estreitou em torno do dinheiro, influenciando a forma como avaliamos bens, serviços e até relacionamentos. A tecnologia digital recente, como as transferências instantâneas e as criptomoedas, continua a transformar essa dinâmica, tornando as transações mais rápidas, acessíveis, seguras e globalizadas. Entender essa evolução nos ajuda a refletir sobre como atribuímos valor às coisas e a repensar nossa relação com o dinheiro, especialmente à luz das novas tecnologias que estão moldando a economia e a sociedade.

No livro O Papalagui, escrito por Erich Scheurmann e lançado em 1920, um líder fictício da cultura tradicional de Samoa, chamado Tuiavii, relata seu estranhamento com a vida dos homens brancos, os Papalagui. Tuiavii afirma que para os europeus, “o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam de dinheiro, é a verdadeira divindade dos brancos”. Tuiavii descreve como o dinheiro transforma a vida das pessoas, fazendo com que elas percam sua conexão com a natureza e com a comunidade. Ele observa: “Quem apenas toca o dinheiro é capturado por seu feitiço e quem o ama deve servi-lo e dar a ele suas forças e todas as suas alegrias enquanto viver”. Para o Papalagui: “Sem dinheiro, você é um homem sem cabeça, um homem sem membros. Um nada. Você deve ter dinheiro. Você precisa de dinheiro como precisa de comida, bebida e sono. Quanto mais dinheiro você tem, melhor é sua vida”. Essa obsessão com o dinheiro não faz nenhum sentido na perspectiva comunitária de Tuiavii.

O livro de Scheurmann foi relançado no final dos anos 60 e, segundo relatos, foi bem recebido entre os hippies que questionavam o modelo tradicional da sociedade ocidental. Na época, era comum interpretar as falas de Tuiavii como autênticas, não como um manifesto literário. O debate sobre a autenticidade do livro persiste até hoje, mas, mesmo como obra de ficção, ele nos faz refletir. Por que em nossa cultura valorizamos tanto o dinheiro? Será que sua desmaterialização, ou melhor, sua digitalização, está mudando a forma como lidamos com ele?

O dinheiro é uma tecnologia de tradução e, como uma ponte, nos transporta até aquilo que desejamos: um objeto (como um celular top), uma situação (a segurança de um lar bacana), ou um poder (como a liberdade de viajar para onde quisermos, como a Disney). No entanto, muitas pessoas ficam tão obcecadas com a ponte (dinheiro) que esquecem o que realmente estão buscando.

Basta lembrar do Tio Patinhas, o personagem dos quadrinhos da Disney que vivia dando pulos em uma gigantesca piscina de moedas. Ele era extremamente avarento e seu prazer estava em acumular. Ele simbolizava como muitas pessoas se perdem na obsessão pelo dinheiro, esquecendo que ele é apenas um meio para alcançar seus verdadeiros desejos e objetivos.

Hoje em dia, seria difícil para o Tio Patinhas dar um pulo em uma piscina de códigos. O dinheiro se transformou em uma linguagem de códigos. Essa mudança reflete como a digitalização do dinheiro alterou nossa relação com ele, tornando-o uma abstração ainda maior, mais distante do conceito físico de riqueza acumulada em cofres e piscinas de moedas.

O dinheiro digital não pesa no bolso, mas pode pesar na alma. Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, a obsessão com o dinheiro é um tipo de adoecimento. Em uma entrevista ao podcast Revolução de Afetos, ele disse: “A ideia de que quanto mais dinheiro, melhor, e que quem tiver mais poder tem mais é que mandar no mundo mesmo, essa lógica que hoje para quase todo mundo é tão natural - aqueles que têm mais recursos têm mais poder - não é assim, ela não é dada em outras sociedades. Em muitas outras sociedades, uma pessoa pode ter mais bens do que a outra, mas isso não faz dela um cidadão com mais poder de voto e de veto”. Quase como o Tuiavii dizia no livro Papalagi.

Para Sidarta, “essa doença tem a ver com o próprio dinheiro. O dinheiro é tóxico: ter dinheiro de menos é ruim e ter dinheiro de mais é muito ruim, faz mal. Isso foi testado já em laboratórios em vários lugares. Basta você mostrar a imagem do dinheiro numa tela de computador para que as pessoas comecem a fazer respostas e escolhas morais menos éticas. Então, olhar para isso com cuidado e entender que nossa sociedade não padece mais de escassez de recursos, mas da desigualdade na distribuição dos recursos”. Como mudar isso? Segundo ele, a fórmula é simples e também milenar: ajudando o próximo.

Por sinal, o dinheiro digital pode facilitar o acesso a serviços financeiros para pessoas em regiões remotas ou para aqueles que estão excluídos do sistema bancário tradicional. Com um smartphone e acesso à internet, indivíduos podem participar da economia digital global, potencialmente melhorando a inclusão financeira. Vou citar alguns exemplos interessantes.

O primeiro é o uso de celulares para transferência de dinheiro na África, que tem crescido exponencialmente, transformando a inclusão financeira na região. Com mais de 700 milhões de usuários de celulares, serviços de dinheiro móvel, como o M-Pesa, popular no Quênia e Tanzânia, permitem pagamentos, transferências e acesso a serviços financeiros como poupança, empréstimos e seguros. O segundo exemplo é a iniciativa do projeto Worldcoin, inspirado na renda básica universal, e que utiliza a blockchain para transparência e segurança nas transações. A criptomoeda WLD é distribuída gratuitamente para indivíduos que comprovam sua identidade única através de um escaneamento de íris chamado Orb. Esta abordagem busca fornecer inclusão financeira global, de forma descentralizada e garantir autenticidade, reduzindo fraudes e duplicidades.

Por fim, existem algumas iniciativas inovadoras que utilizam a tecnologia de QR Codes para ajudar pessoas em situação de rua, permitindo doações digitais e fornecendo informações sobre suas histórias pessoais. Como a Humanize Austin e a Greater Change. Essas iniciativas representam um uso promissor da tecnologia para facilitar a interação e o apoio ao público em situação de rua, aumentando a transparência e potencialmente incentivando mais pessoas a contribuir para causas sociais de maneira segura e eficaz. Quantas vezes não deixamos de ajudar uma pessoa nessa situação simplesmente por não estar mais com nenhum dinheiro na carteira?

Um lado positivo da desmaterialização do dinheiro é a possibilidade de reduzir nossa obsessão por ele. A facilidade de transferir recursos diretamente para quem precisa também pode diminuir a insegurança relacionada a desvios de verbas e corrupção. A tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul é um alerta importante, estamos caminhando para encarar situações como essa cada vez com mais frequência. Por isso, vamos precisar nos ajudar cada vez mais. Isso só é possível se resgatarmos algum sentido comunitário. O mundo não precisa de mais Tio Patinhas, precisamos resgatar nossos sonhos coletivos, como diz Sidarta. O dinheiro digital não precisa ser acumulado, como antigamente, para ter valor. Isso não dá futuro, nem é saudável. Vamos aproveitar a facilidade de compartilhar esse recurso e buscar caminhos mais sustentáveis e equilibrados de distribuição de renda. Então, faça Pix, não faça guerra.

(Esse texto contou com a assistência de uma IA)