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Da Redação
Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 02:39
- Atualizado há 3 anos
Noites de céus riscados por mísseis de insônia alimentam a dor ancestral de ser homem. Para que haja paz, às vezes, é preciso ir à guerra. Nós, brasileiros, talvez não entendemos isso porque não passamos de um projeto inacabado de nação - perdidos nos tristes trópicos, olhamos nossas chagas com o olhar furtivo dos omissos. >
Somos um país pacífico e não temos furacões, terremotos, ódios étnicos e religiosos. Louvemos por Deus ser brasileiro e nos dar centenas de mortos nas estradas a cada feriado, zumbis nos sinais e nas zonas rurais, prédios cercados por grades e seguranças e a estatística de país em que mais mata-se com armas de fogo no mundo.>
Vamos nos sentir privilegiados por tudo. A relevância entre as nações importantes, o bem-estar social de causar invejar mundial, o modelo de educação que forma semianalfabetos, a estupenda política ambiental, o escárnio dos políticos, as pequenas e as grandes corrupções, os prêmios Nobel conquistados, nossa versão de Estado Islâmico na periferia de cada metrópole.>
A cada geração nas últimas décadas, o Carnaval vira uma longa Quarta-Feira de Cinzas. Nossa monstruosidade, porém, renova-se disfarçada de esperança sempre que varremos uma decepção. Estamos condenados ao pior tipo de solidão: a do Conde Orlok. Na sombra da arrogância decadente do que não chegamos a ser, precisamos que Murnau venha nos libertar. ***>
E voltei ao velho círculo de pensamentos como um pobre cachorro velho longe de casa, perdido após a chuva que apagou o seu rastro. Dentro em pouco, sempre parece pouco, ficarei a sós com os meus fantasmas (como Nicole Kidman defendendo os filhos em Os Outros).Pensava nas lágrimas (cínicas?) dos civis alemães que, após perderem a guerra, eram obrigados pelos americanos e aliados a visitar os campos de concentração, a ver milhares de judeus putrefatos e amontoados, corpos que os nazistas não tiveram mais tempo de incinerar.Dei para assistir documentários sobre o III Reich por volta de meia-noite e não consigo dormir, depois. Cumpro os ritos de acesso ao sono: banho quente, um copo de leite, passeio pelo Instagram... Nada: insone e com olhos de coruja, vejo corpos na parede e gatos na cama.***>
Minha infância foi uma noite escura numa tela de cinema. Não é de estranhar que os místicos sempre se reportem à infância no plano espiritual. Alguém espera tudo de seu Deus e este se esconde dele: põe-no em outras mãos. Lembro da Bíblia - é como a noite do Jardim das Oliveiras.Naquela noite, Jesus, apenas em sua condição de filho, implorou ao Pai e, diante do vazio, começou a suar sangue. Alguém que em tudo dependia essencialmente do outro ficou só. Quando crescemos chegamos a imaginar que a infância foi um paraíso. Talvez, porque o que venha depois não a melhore.>
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Acordo cedo, tomo café amargo, faço o sinal da cruz e saio para matar o próximo. Que monstro sou eu? Que monstro é você?>
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Bem-vindo ao primeiro dezembro do resto de nossas vidas, homeboy.>