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Hagamenon Brito: as cinco vezes em que vi a senhora do destino

  • D
  • Da Redação

Publicado em 6 de outubro de 2015 às 01:30

 - Atualizado há 3 anos

Os dias passam mais rápidos do que na minha adolescência. Envelheço como os gatos, com um metabolismo mais acelerado do que o relógio das convenientes relações humanas. Não lamento a natureza a que pertenço. É apenas uma constatação. Pior destino foi reservado a Lestat – a dor e a insônia da eternidade.

A primeira vez que vi a morte ela tinha a cara da minha avó. Eu relutei em me aproximar da cama na qual ela, vestida de branco, com as mãos cruzadas sobre o peito, parecia dormir. Minha mãe me puxou pela mão e disse: “Não tenha medo”. A penumbra daquele quarto virou imagem de cinema na memória do (ex)garoto de 5 anos.

A segunda vez que vi a morte ela tinha a velocidade de uma bala. Sentado num banco de madeira em frente à minha casa, ao lado de meu pai e da babá, fui alvo involuntário de um disparo feito por um amigo da família. Ele manuseava um 32 sem saber que havia uma bala no tambor. A bala raspou a minha cabeça, atravessou o braço da babá e se alojou na parede.

Dei sorte, pois não. Eu poderia ter partido aos 8 anos, cedo demais. A partir dali perdi o medo da morte. Melhor, aprendi a fingir que não a temo. Se ela é mesmo inevitável, para que perder tempo sofrendo por antecipação? Melhor é viver o presente intensamente, pois os dias precisam de motivos.A terceira vez que vi a morte ela me impressionou pela beleza glacial. Era Jessica Lange em All That Jazz. Adulto, passei noites fascinado pela sequência em que ela flerta com o alter ego de Bob Fosse, que acabara de sofrer um infarto e está na cama de um hospital. A morte já havia se tornado uma alegoria para mim.

Depois disso, a senhora do destino me apareceu duas vezes e foram as suas visitas mais comoventes: nas despedidas de minha mãe e meu pai. Poucas sensações são tão indescritíveis quanto beijar os nossos pais quando eles morrem. A única sensação comparável, talvez, é a de beijar um filho quando ele nasce.***

Fecho os olhos e volto a olhar as faces que havia gostado, as silhuetas dos amantes que mais amei na vida. Que tiveram em comum essas fisionomias, além de terem me iluminado? As bocas, as maçãs do rosto, as mãos... Meu Deus, quem dera tê-los amado mais do que o meu coração estúpido e egoísta permitiu.

Não, não tiveram nada em comum. Nem o sorriso, nem o modo irônico de lidar com a realidade que partilhávamos, tampouco os pescoços que mordisquei... Nem mesmo o sexo deles, o tamanho dos seios.  Nada, exceto talvez a paciência comigo, os assemelhou. Meu Deus, quem dera tê-los amado menos do que amei.

***                          Há dores graves, respeitáveis, compreensíveis, cujas feridas se fecham e acabam por murchar como as folhas de uma árvore na seca – caídas no solo tornam-se relva sobre a cicatriz. Mas há outras dores cujas amplas portas deveríamos entrar para nos perdermos ali dentro e aumentar o nosso conhecimento.

***

Eu me contento com poucas coisas. Com o céu azul de Lisboa, por exemplo. Assim, não enlouqueço. Não quero saber de outro mistério senão o de estar apaixonado ou me apaixonando, de olhos fechados, longe, muito longe, ouvindo Ana Moura cantar. Eu me contento em escrever, esporadicamente, algum verso que me vicie.

***

Os dias precisam de motivos. Eu preciso de você para saber quem sou.