Nelson Cadena: O pioneirismo

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Publicado em 5 de fevereiro de 2016 às 07:38

- Atualizado há 10 meses

O surgimento dos blocos afros no Carnaval da Bahia em 1895 quebrou, dentre outros paradigmas, a tradição secular da música instrumental nas festas de rua, ou de salão, durante o período de Momo. Cabe aos blocos afros o pioneirismo da música cantada. Não foi essa a intenção de seus protagonistas, obviamente.Antes do desfile dos afros, o que se tinha era o desfile dos blocos de inspiração europeia, o modelo de Nice, em especial, e o de Veneza como outra referência, onde o enredo era interpretado com música instrumental. Os clarins anunciavam o início do cortejo e os músicos, portando trombetas, clarinetes, flautas, violões, violinos e tambor tocavam as polkas, ou quadrilhas, adaptadas no ritmo de dobrados por regentes das bandas militares e filarmônicas.Foi assim que o Cruz Vermelha desfilou na sua primeira aparição de rua, com o dobrado Triunfo, executado pela banda de música Os Chapeleiros, numa criação do maestro Miguel Torres,  que chegou a ter uma versão para piano do maestro Antônio Morais. A música encomendada especialmente para o clube pelo banqueiro e político Joaquim Elísio Pereira Marinho, Visconde do Guahy, era instrumental como todas as outras exibidas pelas demais agremiações: Fantoches de Euterpe, Cavaleiros de Veneza, Cavalheiros de Malta, Cavaleiros das Cruzadas, Cavaleiros dos Mendonças, Democratas Carnavalescos, Críticos Independentes...Os blocos afros trouxeram para a rua a novidade do enredo cantado. Foi assim em 1895 quando a Embaixada Africana desfilou com um esplêndido carro alegórico, as “lindas crioulas”, que chamou a atenção da imprensa com os negros trajados como príncipes e uma portentosa cavalaria, bem ao estilo dos clubes de inspiração europeia. Conhecemos duas composições daqueles idos: Crioulas Apaixonadas, também denominado de Cântico da Mãe D’Água, exibido no desfile dos Pândegos da África em 1897, e o tema da Embaixada Africana no Carnaval de 1899.O primeiro é um cântico que representava a Festa da Rainha realizada em Lagos, Nigéria, e consta que os músicos usaram na ocasião um figurino indígena com um avental sobre calção curto. O estribilho do enredo dizia: “Aoderecê/É qui êmanjá/Potâbeléhê/Aouai torotim/Hilâ choreuê”. O segundo, da Embaixada, era um tema local, embalado pelos versos: “Povo tudo di Bahia/Noi que vem de legação/Non tim fôça pra contê/Tristeza di coração/Ninguém vé acara jé/Tê aberem, mai non há/Quem pregunta, qué sabe/Para onde foi vatapá/Pimenta crui! Foi-se embora/Non se fala n’ acaçá/Tudo aqui anda perdido/Nim auá tim para aluá/De pisá cá nessa terra/Nosso non tá rependido/Pro caso de munta moça/Qui no trai cumprumitido”.A imprensa não enxergava com bons olhos esses cânticos. Os chamavam de “enfadonhos tlin, tlin, tlan” e qualificava os instrumentos de “bárbaros”. Não compreendia do que se tratava e o viés crítico dos escrivas rotulava todas as músicas como “batuques”, então um termo pejorativo para se referir à música dos terreiros. Incomodava a imprensa que o desfile ocorresse no mesmo espaço geográfico, entre a Praça da Sé e a Rua Chile, onde se exibiam os cortejos dos blocos de brancos.A imprensa amiga também destilava seu veneno, pretendendo estabelecer uma injusta divisão entre blocos afros autênticos e de supostos imitadores. E assim, “A Coisa”, que tinha entre seus diretores Manoel Querino dentre outros redatores afrodescendentes, aplaudia a Embaixada Africana ao passo que condenava as imitações, na sua verve ferina: “exaltações africanescas de macaquitos seminus ataviados de búzios, rufando tabaques”.

*Nelson Cadena é publicitário e jornalista, escreve às sextas-feiras