Nelson Cadena

Porcelana e uma saudação ‘fascista’ nas Olimpíadas de Paris

Paris ditava a moda na rua e, também, nos estádios. O público assistia aos jogos elegantemente trajado

  • Foto do(a) author(a) Nelson Cadena
  • Nelson Cadena

Publicado em 11 de abril de 2024 às 05:00

Os atletas que conquistaram medalha de ouro nas Olimpíadas de Paris, em 1924, receberam um presente mais valioso do que o ouro cunhado, com um simbolismo histórico tão relevante quanto: vasos de porcelana de Sèvres, uma das manufaturas de porcelana mais famosas do mundo, pela excelência de suas peças exclusivas; no passado encantou Napoleon e, antes, o Rei Luís XV, admirador e mecenas da arte. Ele e a esposa, Madame Pompadour, acompanhavam a produção de porcelana da fábrica.

Dar presentes aos atletas não foi invenção parisiense, mas receber a fina porcelana, no formato de vaso, ao estilo chinês, com design exclusivo da modalidade praticada pelos atletas, foi uma iniciativa diferenciada. Paris inovou em outra prática: a construção de uma Vila Olímpica, próxima de Colombes. Consistia em modestas casinhas de madeira, um pavimento apenas, com uma porta e duas janelas e do lado de fora um espaço comum com espreguiçadeiras, ao estilo das cadeiras de praia lonadas. Simples, assim.

Paris ditava a moda na rua e, também, nos estádios. O público assistia aos jogos elegantemente trajado. Os homens de paletó, gravata, chapéu comum e as autoridades, chapéu de cartola. As mulheres com trajes longos, vestidos finos e lindos chapéus, de vários estilos, alguns exclusivos. Essa moda do público nos estádios, certamente, foi inspirada na moda dos esportes de elite do início do século, no mundo todo: o remo, o turfe e o tênis. E se em Paris já se tinha uma parcela considerável de atletas da “ralé”, oriundos das classes trabalhadoras, inclusive negros, a moda nada tinha a ver com isso.

Terno, gravata e chapéu na cabeça eram a moda no mundo. Na Bahia, nas regatas de Itapagipe e nas corridas de cavalos em Itapagipe e no Rio Vermelho e até nos jogos de futebol, no Estádio da Graça, na década de 1920, era o traje que prevalecia. Em Paris, não apenas o público se destacava pela elegância, também os atletas. A seleção uruguaia de futebol exibiu charmosas gravatas borboletas e já que estamos tratando de moda, alguns competidores nas corridas de fundo usaram boné, ao estilo da garotada atual, com a aba virada para trás. E nas competições, aquáticas, homens e mulheres adentraram no espaço, com uma pudica camisola para encobrir o calção, ou maiô, que então retiraram para pular na água.

E, falando dos uruguaios, a seleção de futebol foi uma das atrações das Olimpíadas, junto com Johnny Weissmuller, o futuro Tarzan do cinema, e conseguiu encher o estádio, diferente de outros times que jogaram as partidas com 1800 espectadores apenas, como foi o caso do jogo Holanda X Romênia. As revistas babavam a esquadra celeste, os fotógrafos os seguiam por toda parte - a turma homenageou o soldado desconhecido, no Arco do Triunfo, depositando uma coroa de flores - e publicavam fotos dos churrascos ao ar livre, na concentração da equipe em Argenteuil.

Nos jogos parisienses de 1924, na cerimônia de abertura, o atleta que prestou o juramento olímpico, o francês George André, seguindo a tradição, fez o gesto do braço direito esticado e a palma da mão virada para baixo, ao estilo da saudação fascinazista, ainda não reconhecida desse jeito pelo mundo. Era um gesto romano, do tempo dos imperadores e permaneceu nos jogos até as Olimpíadas de Berlim, em 1936. Definitivamente proibido, a partir das Olimpíadas de Londres, em 1948, pela sua semelhança com a saudação dos seguidores de Hitler e Mussolini. Associado a um trauma da humanidade que dispensa explicações.

Nelson Cadena é publicitário e jornalista, escreve às quintas-feiras