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A verdadeira história do Pix: como técnicos do Banco Central criaram o sistema que mudou a economia do Brasil

Liderada por engenheiro de carreira, criação da ferramenta começou em 2018 e hoje vira modelo internacional e alvo de cobiça política

  • Foto do(a) author(a) Maiara Baloni
  • Maiara Baloni

Publicado em 5 de junho de 2026 às 16:06

Pix é método preferencial de pagamento de muitos brasileiros
Criado para baratear custos e reduzir o uso de dinheiro vivo, o Pix movimentou mais de R$ 68 trilhões no varejo e virou patrimônio técnico do país. Crédito: Arquivo/Agencia Brasil

O Pix mudou completamente o jeito que o brasileiro lida com o dinheiro. Hoje, é difícil encontrar alguém que saia de casa com a carteira cheia de notas ou que ainda lembre o que significam as siglas TED e DOC. Mas, por trás da facilidade de transferir bilhões de reais com poucos cliques no celular, existe uma história de desenvolvimento puramente técnico que começou bem antes do que a maioria pensa.

Ao contrário do que dizem nas redes sociais em época de eleição, o Pix não foi inventado por um presidente ou partido específico. Ele nasceu como um projeto de Estado, desenhado e executado integralmente por funcionários concursados do Banco Central.

O Pix foi lançado oficialmente pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020 por Ilustração, IA

Os primeiros passos aconteceram ainda no primeiro semestre de 2018, no governo de Michel Temer, quando o BC criou um grupo de trabalho para estudar os pagamentos instantâneos. Foram mais de seis meses de reuniões entre técnicos, bancos e empresas de tecnologia para estruturar as bases do sistema, que avançou nos anos seguintes e começou a funcionar para valer em novembro de 2020.

A engenharia do Pix foi liderada por servidores de carreira da instituição. O grande nome dos bastidores é o engenheiro Carlos Eduardo Brandt, chefe de departamento no BC e considerado o "mentor" técnico da ferramenta. O objetivo da equipe dele era modernizar o mercado financeiro, baratear os custos das transações e incluir no sistema bancário milhões de brasileiros que só usavam dinheiro vivo.

A desconfiança dos bancos

No início de 2020, os grandes bancos olhavam o Pix com desconfiança. Afinal, as instituições sabiam que perderiam muito dinheiro com o fim das tarifas de transferência e das taxas de manutenção de conta. Além disso, precisaram investir pesado em segurança para evitar fraudes em transações que passaram a acontecer em tempo real.

Hoje, o Pix é o coração dos aplicativos bancários e das fintechs. Ele virou a principal porta de entrada para os bancos atraírem clientes e oferecerem outros serviços, como empréstimos personalizados, seguros e opções de investimento.

Sucesso em números e exportação

O uso da ferramenta superou até as previsões mais otimistas do comitê de implementação do Banco Central. Dados oficiais mostram que o Pix dominou o mercado nacional, sendo responsável por 54,7% de todas as transações financeiras do país no segundo semestre de 2025.

Foram 42,9 bilhões de operações no período, movimentando uma fatia impressionante dos R$ 68,2 trilhões que circularam no comércio brasileiro no fim do ano passado. O sistema conta atualmente com mais de 170 milhões de usuários e tem a adesão de 904 instituições financeiras.

O valor médio das transferências subiu para R$ 456, mostrando que o Pix conquistou também os pagamentos mais altos. Além de virar o motor do comércio local, ajudando principalmente autônomos, feirantes e lojistas a se livrarem das taxas das maquininhas, o modelo virou artigo de exportação. Países vizinhos como Colômbia, Argentina, Chile e Peru estão estudando a estrutura brasileira para copiar o modelo em suas economias.

A disputa pelo troféu político

Por ser um sucesso absoluto, o Pix acabou virando o centro de uma queda de braço política. De um lado, aliados e filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro defendem que o sistema é uma entrega da gestão passada, destacando que ele foi lançado em 2020, durante a pandemia. 

Do outro lado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembra que os estudos e o planejamento começaram anos antes de 2019. O foco da atual gestão tem sido a evolução da plataforma, com a criação de novas funções, como o Pix Automático para contas recorrentes, e o aumento da segurança.

Toda essa discussão, no entanto, ignora o fato de que o Banco Central é autônomo e que o projeto foi feito por técnicos de carreira, independentemente de quem senta na cadeira presidencial.

A bronca dos Estados Unidos

A eficiência do modelo criado pelos técnicos brasileiros acabou incomodando também o governo dos Estados Unidos. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) incluiu o sistema em um relatório oficial que investiga supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

A queixa de Washington foca na forma como o sistema funciona, o Banco Central atua ao mesmo tempo como o regulador que cria as regras e o operador que cuida da tecnologia. Para os americanos, o BC cria um conflito de interesses e acaba protegendo o Pix de forma injusta, prejudicando grandes multinacionais americanas de cartões de crédito (como Visa e Mastercard), que perderam muito espaço no mercado brasileiro.

Os americanos também criticam o fato de o Banco Central proibir os bancos de cobrarem taxas de pessoas físicas pelo Pix e limitar a taxação sobre empresas. Sob a liderança do presidente Donald Trump, o governo americano usa esse argumento econômico para ameaçar o Brasil com a aplicação de um "tarifaço" de 25% de imposto sobre diversos produtos brasileiros exportados para lá.

Blindagem do sistema

Para proteger o Pix tanto dessas brigas políticas internas quanto das pressões de fora, o setor privado resolveu se posicionar. Em nota oficial, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) deixou claro o papel da ferramenta:

"O Pix não é um produto comercial de propriedade do ecossistema bancário brasileiro para competir com as empresas de cartões americanas. Trata-se de uma infraestrutura pública de pagamentos, de propriedade e gestão do Banco Central do Brasil, desenvolvida com o objetivo de aumentar a concorrência no mercado de pagamentos e promover a inclusão financeira dos cidadãos brasileiros."

Com isso, bancos e técnicos mandam um recado claro, o Pix é uma conquista técnica do país e uma estrutura do Estado brasileiro, ficando muito acima das narrativas e interesses políticos do dia a dia.

Tags:

Eua Brasil Pix Banco Central