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Maiara Baloni
Publicado em 2 de abril de 2026 às 06:00
Mesmo com os juros em patamar elevado, muitos brasileiros sentem que o dinheiro simplesmente não rende. A frustração revela um descompasso. A Selic sobe, mas o ganho real nas aplicações populares nem sempre acompanha, pressionado pela inflação, pelos impostos e pelas taxas que corroem o rendimento. Para o cidadão, a sensação de estagnação é reflexo de um cálculo que vai muito além do número que aparece no saldo da conta.>
JUROS NO CARTÃO DE CRÉDITO E SELIC
O ponto central da questão é a diferença entre o rendimento nominal e o rendimento real. O nominal é a taxa bruta de retorno de um investimento antes dos descontos. Já o real é o que sobra de fato quando você desconta a inflação. Com a Selic em patamar elevado ao longo de 2026, o retorno parece generoso, mas, se a inflação segue pressionando preços de bens e serviços, o poder de compra não avança. Na prática, isso reduz o benefício da taxa elevada para quem guarda dinheiro sem uma estratégia clara.
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A inflação é o principal redutor de ganhos. Quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está pressionado, ele consome a maior parte da rentabilidade bruta. No cenário atual, mesmo com a taxa básica de juros em patamar elevado, o rendimento líquido de muitos investimentos mal empata com a alta dos preços. O resultado? O consumidor trabalha e poupa apenas para manter o que já tem, sem ver o patrimônio crescer de verdade.
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Não é só o custo de vida que pesa. O Imposto de Renda também define o jogo. Na maioria das aplicações comuns, como CDBs e Tesouro Direto, a tributação é mais elevada para quem resgata cedo, começando em 22,5% para aplicações com prazo de até 180 dias. Quase um quarto do que o dinheiro rendeu fica retido antes mesmo de chegar à sua mão.
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As instituições financeiras também aplicam custos que encurtam o repasse dos juros. Taxas de administração e de custódia são fatores relevantes, mas a diferença entre a remuneração do mercado e o que é efetivamente pago ao cliente também pesa no resultado. Muitos investidores mantêm economias em produtos que pagam apenas 80% ou 90% do CDI, uma perda de valor considerável que se acumula mês a mês.
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Nesse cenário, a poupança continua sendo a escolha menos eficiente. Pela regra, ela rende 0,5% ao mês, mais a TR, sempre que a Selic está acima de 8,5%. Deixar o dinheiro na caderneta com a Selic próxima de 15% ao ano é manter um rendimento limitado, enquanto o custo de vida e os juros de dívidas, como o cartão de crédito, avançam em ritmo muito superior.
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Para quem quer apenas proteger suas economias, o caminho é buscar produtos que garantam ganho acima da inflação. Títulos que pagam o IPCA mais uma taxa fixa ajudam a preservar o poder de compra ao longo do tempo, especialmente se mantidos até o vencimento. Outra saída são as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que levam vantagem por serem isentas de Imposto de Renda para a pessoa física.
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Corrigir essa rota não exige que o consumidor vire um especialista em finanças, mas demanda uma postura mais ativa diante do banco. O gerente nem sempre oferece o produto mais vantajoso por iniciativa própria. Comparar o rendimento líquido e priorizar aplicações que superam a inflação é o passo essencial para que os juros altos finalmente trabalhem a favor do bolso do trabalhador.
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