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'Mais forte que a dúvida': Como Melly silenciou as incertezas para criar o trabalho mais ousado da carreira

Cantora detalha as filosofias por trás do seu novo disco, celebra parcerias e revela os bastidores de sua nova era

  • Foto do(a) author(a) Ana Beatriz Sousa
  • Ana Beatriz Sousa

Publicado em 28 de maio de 2026 às 05:00

‘MAIS FORTE QUE A DÚVIDA', novo álbum da cantora Melly Crédito: Divulgação

A cantora baiana Melly, 24, cresceu com a música entranhada nela mesma e em casa. Filha de um cantor, compositor e violonista, ela o acompanhava em shows desde pequena. Essa vivência, nascida em Salvador e amadurecida após uma passagem pelo Rio Grande do Norte na adolescência, foi o terreno fértil de onde brotou uma das vozes mais originais da música contemporânea brasileira. Misturando o R&B, o soul e o jazz à percussividade afro-baiana, o axé e o samba-reggae, Melly construiu um caminho sonoro muito próprio.

Nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, a cantora lança seu aguardado segundo álbum de estúdio, "Mais Forte Que a Dúvida", pelo selo Slap da Som Livre. Em entrevista ao Jornal CORREIO, Melly mergulhou nas nuances desse processo criativo, no amadurecimento, na filosofia que fundamenta o álbum e nos bastidores de um sucesso que, para ela, exigiu muito emocionalmente.

‘MAIS FORTE QUE A DÚVIDA', capa do novo álbum da cantora Melly por Divulgação

De Amaríssima à Nova Fase

Para compreender a imensidão de "Mais Forte Que a Dúvida", é preciso primeiro olhar para a sombra de "Amaríssima", o elogiado disco de estreia que catapultou a carreira da cantora. O álbum rendeu a Melly o troféu de "Artista Revelação" no Prêmio Multishow de 2023, além de uma indicação ao Grammy Latino e o prêmio de Melhor Compositora no WME Awards de 2024. A aclamação, porém, veio acompanhada de um peso igualmente descomunal.

A juventude, misturada com a responsabilidade de abraçar a sua vocação, transformou a mente da artista num campo de batalhas. Melly detalha como essa pressão se traduziu em arte: "Eu vivi isso de uma forma muito densa. Eu vivi isso misturado com o sentimento e a vontade de desaguar ali nas composições. Então, tudo isso tornou tudo um turbilhão... uma miscelânea de sentimentos. E eu acabei botando tudo isso em "Amaríssima", né? Todas as minhas inseguranças. Todo esse amargor que eu tava sentindo. Até o nome se traduz nesse momento de vida que eu tava. Um momento muito amargo que eu aprendi a amar".

Essa fase gloriosa, mas conturbada, também provocou fortes questionamentos identitários. A cantora recorda que, durante as grandes premiações, uma reflexão era constante: "A mesma pergunta que me faziam era: 'por que você acha que chegou até aqui?'. E a minha resposta era sempre a minha essência. A minha verdade, a minha vontade de compartilhar essa minha motivação, que era falar sobre a minha realidade e o que eu acreditava".

Amaríssima: Álbum de estreia de Melly por Divulgação

SUNSUM, Ubuntu e o Sagrado

A transição para a nova era exigia uma reconexão mais profunda com essa essência. O eixo conceitual do novo trabalho é cristalino: "A dúvida é da cabeça, a certeza é da alma". Se antes as incertezas a sabotavam, agora a intuição assume de vez sua criatividade. 

A base de "Mais Forte Que a Dúvida" bebe diretamente da sabedoria de filosofias africanas como o Ubuntu, focado no pertencimento coletivo, e o SUNSUM, energia vital e intuição. Para fugir dos clichês, Melly explica a sua visão sobre a espiritualidade da obra de forma expansiva: "Eu não queria falar sobre a alma no sentido religioso, porque não sou uma pessoa religiosa. Minha família não tem religião, eu nunca tive religião. Mas eu sou uma pessoa espirituosa. E o espírito tem diversas interpretações científicas, a física quântica até se adentra nessa pesquisa. Mas a filosofia também conversa muito com esse conceito".

Buscando trazer essa ancestralidade para o cotidiano, ela observou a estética das próprias ruas do Brasil, especificamente as de Salvador. "Não sei se você já viu, mas nos portões existem ornamentações que se chamam Adinkras, como Sankofa", relata. "E eu quis deixar isso latente também nesse projeto, porque achei que simbolizar a imagem da alma faria com que a gente tirasse desse lugar religioso e trouxesse para um lugar muito mais conectado de corpo, mente e alma. Equilibrar essas três coisas", detalha.

Quem vive ou visita a cidade, com certeza, já cruzou com vários desses símbolos espalhados por aí. Eles são uma herança dos povos Akan, localizados nos territórios de Gana e Costa do Marfim, que servem para manifestar conceitos, valores tradicionais, ideais filosóficos, códigos de conduta e até normas sociais. O mais popular deles pelas ruas soteropolitanas é o "Sankofa", que podemos entender como um retorno ao passado para ressignificar o presente, pois ele significa “volte e pegue”, ou "nunca é tarde pra voltar e apanhar aquilo que ficou atrás".

O adinkra Sankofa representa um pássaro que olha para trás por Reprodução/Nascimento, Gá/Dissertação Marisa Francisca da Silva

Essa filosofia traduziu-se no single inaugural, "Me Livra de Todo Mal". A faixa não é um mero lançamento, mas um ritual de purificação, descrita por ela como "a oração que o coração precisa para seguir firme". Melly reflete sobre a sua postura diante do sucesso: "Sempre antes de pedir qualquer coisa, eu tô agradecendo. Se eu tô pedindo proteção, tô pedindo sabedoria. Eu nunca vou para pedir aquelas coisas supérfluas e materiais. Então, eu achei que para abrir esse caminho do disco, eu precisava de algo com força suficiente para iluminar o caminho".

Novo Som e Parcerias

Com a alma resolvida, a sonoridade precisava seguir esse novo fôlego. Sob a direção do produtor musical Iuri Rio Branco, Melly eleva a régua da experimentação e abraça o pop em sua melhor forma: transgressor, irônico e efervescente.

Nesse desaguar sonoro, faixas ganharam identidades únicas que cruzam com a estética afro-baiana. A abertura do disco com "Como Deve Ser" apresenta uma roupagem neo-soul. Mais à frente, "Mexer" deixa claro que a experiência agora precisa transbordar para o físico ao flertar com o dancehall e o reggaeton. "A Gente Combina" promove uma união envolvente entre o R&B e o trap, enquanto a deliciosa "Gosto Mucho" exalta a Bahia bebendo da fonte da música disco e de guitarras suingadas. Segundo a artista, a intenção era "colocar o corpo para fora", reforçando a performance, a dança e a imagem como pilares de sua expressão.

Toda essa ambição traduz-se nas colaborações presentes em "Mais Forte Que a Dúvida". Ao dividir os vocais com Luedji Luna na faixa "Amanhã", Melly entrega uma canção que reforça a importância de viver o presente. Sobre a sintonia desse encontro, a artista não esconde a admiração: “Quando escrevi essa música, não consegui pensar em outra pessoa que não fosse Luedji”.

Em "Ela Gosta de Menina", parceria com Anitta, a faixa mergulha em uma atmosfera provocante, traduzindo uma conexão quase hipnótica onde o desejo e a química se misturam. "'Ela Gosta de Menina' é uma das minhas músicas favoritas do álbum, e ninguém melhor que a Anitta para estar nessa comigo. Sempre admirei muito o trabalho dela, e quando ela aceitou o convite fiquei muito lisonjeada", celebra Melly. A baiana detalha ainda o quanto a postura da cantora carioca a influenciou diretamente em sua própria pesquisa sonora: "Eu sempre fui uma pessoa que se inspirou pela vontade que ela tem de fazer acontecer. O que ela faz com o funk, eu sempre quis fazer também com o pagode. Eu uso disso enquanto inspiração mesmo".

Melly também mergulha de cabeça no pagodão com Léo Santana em "Devagar Sem Agonia". Sobre a fusão com o gigante do pagode baiano, Melly pontuou: "Eu quis trazer alguém com a vibe e energia da música, e pensei na hora no Leo. O resultado ficou tão lindo, é uma música muito especial e que tem a cara da Bahia".

Ainda assim, é na colaboração com Liniker, na faixa "Ana", que mora o respiro mais afetuoso e revelador do álbum. A música é uma declaração de amor à namorada da cantora. Comentando sobre o processo, Melly dividiu que a própria cantora Liniker foi sua âncora em um momento criativo delicado.

"Liniker é uma grande amiga, uma irmã. Uma pessoa que eu guardo com muito carinho no meu coração", conta. "Ela tem uma alma muito generosa. Ela foi uma das amigas que, em um momento em que eu estava com um bloqueio criativo, me ajudou muito nessa canção. Eu compus com ela e com a Tássia Reis".

O EP "Azul" da cantora baiana Melly foi lançado oficialmente no dia 16 de julho de 2021 Crédito: Divulgação

A Fonte Criativa

E o tal bloqueio criativo logo deu lugar a uma verdadeira fonte de inspiração. Ao ser questionada sobre como chegou às 14 faixas finais, Melly revelou que o álbum é apenas um pequeno recorte de um intenso período de composições: "Para escolher essa setlist, eu compus 70 músicas em três meses. No final, escolhemos 20, e fechamos em 14", detalhou. Essa abundância criativa, inclusive, deixa um excelente presságio. "Algumas ficaram de fora. Pode ser que venha um deluxe", adiantou a cantora.

Passeando pela tracklist, encontramos uma mulher que não esconde sua vulnerabilidade. Faixas como "Último Sinal" e "Tudo Que Você Merece" mergulham no tom confessional, falando sobre saudade, recaídas e erros. "É quase como uma conversa que precisava acontecer", resume a cantora. Já em canções com forte herança de matrizes brasileiras, como "Bem Te Vi", inspirada no samba de roda, ela defende que dar liberdade também é amar, lembrando que passarinho fica triste na gaiola.

"Não tinha música melhor para fechar esse projeto", disse ela sobre "A Voz do Coração", que amarra todo o disco. A cantora explica que a faixa sintetiza perfeitamente os temas de autoconhecimento e amadurecimento, trazendo a espiritualidade e a fé como caminhos essenciais para ouvir a própria intuição. Com "Mais Forte Que a Dúvida", Melly traz uma versão consolidada, madura e dona da própria filosofia, dando um passo decisivo no cenário do pop brasileiro e inaugurando uma fase muito mais ousada e sincera.

‘MAIS FORTE QUE A DÚVIDA', novo álbum da cantora Melly Crédito: Divulgação

Álbum Visual e Próximos Passos

Nesta nova era, "Mais Forte Que a Dúvida" ainda conta com um álbum visual, com lançamento marcado para esta sexta-feira (29), às 11h, costurando o novo momento da artista através de dez músicas: “Amanhã”, “Último Sinal”, “Bem Te Vi”, “Ela Gosta de Menina”, “A Voz do Coração”, “Me Livra de Todo Mal”, “Gosto Mucho”, “Mirante”, “A Gente Combina” e “Como Deve Ser (Nem Me Estresso Mais)”.

Produzido pela Stink Films em parceria com a Kondzilla e Africa Creative, o projeto foi rodado ao longo de três dias em diferentes locações de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. O audiovisual conta com direção de Gabriel Augusto, que também assina o roteiro em parceria com Fernanda Sarkis Coelho, enquanto a direção criativa fica a cargo de Gabriel Augusto, Kaique Alves, Angerson Vieira e Drica Lara.

Os fãs também já podem se preparar para viver essa catarse ao vivo. A nova turnê começará a ser divulgada no final do ano, com passagens garantidas por capitais como Salvador, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

  • Lista de faixas:
     1.⁠ ⁠COMO DEVE SER (Nem Me Estresso Mais)
     2.⁠ ⁠AMANHÃ (com Luedji Luna)
     3.⁠ ⁠ME LIVRA DE TODO MAL
     4.⁠ ⁠MIRANTE
     5.⁠ ⁠ANA (com Liniker)
     6.⁠ ⁠TUDO QUE VOCÊ MERECE
     7.⁠ ⁠MEXER
     8.⁠ ⁠A GENTE COMBINA
     9.⁠ ⁠BEM TE VI
    10.⁠ ⁠GOSTO MUCHO
    11.⁠ ⁠ELA GOSTA DE MENINA (com Anitta)
    12.⁠ ⁠DEVAGAR SEM AGONIA (com Léo Santana)
    13.⁠ ⁠ÚLTIMO SINAL
    14.⁠ ⁠A VOZ DO CORAÇÃO

Tags:

Música Lançamento Melly