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Henrique Moraes
Agência Correio
Publicado em 9 de março de 2026 às 07:25
O túmulo de Tatsu Takayama permanece discreto no Templo Saishō-ji, na zona oeste de Tóquio. Entre lápides semelhantes, nada indica que ali está sepultada uma personagem ligada a um feito incomum da história japonesa. Ainda assim, sua trajetória reúne coragem, fé e uma forte ligação com as montanhas. >
Em 1832, Takayama alcançou o cume do Monte Fuji em uma época em que mulheres eram proibidas de subir a montanha. Para conseguir completar a ascensão, ela precisou se disfarçar com roupas masculinas, enfrentando o risco de punições severas e até exílio caso fosse descoberta.>
Nagasaki Hashima, no Japão
Segundo relata a historiadora Fumiko Miyazaki no livro "Peregrinas Femininas e o Monte Fuji: Mudando Perspectivas sobre a Exclusão das Mulheres", pouco antes da subida final, Takayama declarou aos companheiros que pretendia chegar ao topo mesmo que morresse. Se conseguisse retornar, dizia, queria incentivar outras mulheres a também enfrentarem a escalada.>
Apesar do feito, sua história quase se perdeu ao longo do tempo. Os registros do montanhismo japonês foram preservados majoritariamente por homens, e as experiências de peregrinas raramente recebiam atenção nos documentos históricos.>
Para os integrantes da confraria Fuji-kō, ligada a práticas budistas e xintoístas na antiga Edo, atual Tóquio, o Monte Fuji era visto como uma entidade sagrada, não apenas como uma montanha. A subida representava um ato de fé: enfrentar o frio, a altitude e o cansaço fazia parte de um ritual de purificação espiritual. >
Nesse contexto religioso, vigorava a regra conhecida como nyonin kinsei, que proibia a presença feminina em determinadas áreas sagradas. A justificativa era a ideia de impureza ritual associada ao ciclo menstrual e ao parto. Para garantir o cumprimento da norma, postos de vigilância ao longo das rotas de peregrinação impediam que mulheres avançassem além de certos pontos da montanha.>
Diante dessas restrições, algumas devotas encontraram caminhos simbólicos para expressar sua fé. Em várias regiões foram erguidas pequenas réplicas do Fuji, chamadas Fujizuka, onde era possível realizar uma “ascensão” ritual sem violar a proibição.>
Outras, porém, tentavam alcançar o verdadeiro cume sempre que surgia oportunidade. Segundo a pesquisadora Barbara Ambros, Tatsu Takayama fazia parte de um grupo religioso que, em certos casos, admitia a presença feminina, embora isso ainda fosse incomum.>
Na subida histórica, ela contou com o apoio de três companheiros. Para evitar ser descoberta, cortou os cabelos curtos e vestiu um quimono masculino antes de iniciar a jornada pela montanha sagrada.>
Com 3.658 metros de altitude, o Monte Fuji domina a paisagem da ilha de Honshu, no Japão. As encostas inferiores são cobertas por florestas de cedro e pinheiro, enquanto as áreas próximas ao topo exibem solo vulcânico e temperaturas severas. O ar rarefeito e a possibilidade de geada mesmo nos meses mais quentes tornam a subida um desafio para os peregrinos. >
Foi nesse cenário que Tatsu Takayama iniciou sua jornada, em outubro de 1832. Ela partiu acompanhada por cinco homens, entre discípulos, um carregador e o sacerdote Sanshi, líder da confraria religiosa Fuji-kō.>
Para evitar ser reconhecida como mulher, Takayama usava um quimono escuro, mais largo nos ombros e ajustado à cintura, além de manter a franja raspada. Levava apenas o indispensável para a travessia: bolinhos de arroz, amuletos da seita Fuji-kō e uma tira de sílex usada para acender fogo.>
Ao chegar à quinta estação da montanha, conhecida como Chūgū, o grupo precisou passar a noite sob neve acumulada. Na manhã seguinte, enfrentou rajadas de vento e trechos escorregadios até alcançar o portal Torii, símbolo da passagem para o espaço sagrado na tradição xintoísta.>
Sem cerimônia ou testemunhas numerosas, Takayama completou a subida. O feito foi registrado de forma discreta nos documentos da época como “uma mulher nascida no Ano do Dragão escalou a montanha no Ano do Dragão”. >
O sacerdote Sanshi anotou a conquista em um pergaminho que permanece preservado pela família Takayama, em Shinjuku, um dos raros registros que confirmam a histórica ascensão.>
Mesmo tendo desafiado a proibição vigente, Tatsu Takayama não foi detida após a escalada. A história de sua subida circulou lentamente entre moradores da região e, segundo a historiadora Fumiko Miyazaki, alguns chegaram a associar a presença da peregrina a desastres naturais ocorridos posteriormente. >
Apesar do episódio, a restrição às mulheres permaneceu em vigor por décadas. Registros reunidos na obra histórica Nihon Sangaku Fujin-shi indicam que a subida feminina continuou proibida durante grande parte do século 19.>
Em 1867, a viajante inglesa Fanny Parkes passou a ser citada como a primeira mulher a alcançar o cume do Monte Fuji, um marco que ajudou a abrir espaço para alpinistas estrangeiras. A restrição oficial só seria abolida alguns anos depois, em 1872, durante o período de reformas do governo Meiji, quando o país iniciou um amplo processo de modernização.>
A história de Takayama permaneceu praticamente esquecida até a década de 1980. Foi nesse período que os historiadores Kōichirō Iwashina e Hiroshi Okada localizaram documentos guardados pela família da peregrina, confirmando sua ascensão décadas antes dos registros mais conhecidos.>
Hoje, o túmulo de Takayama no Templo Saishō-ji continua simples e discreto, sem menção à façanha que realizou. Enquanto o Monte Fuji segue atraindo milhares de peregrinos e visitantes todos os anos, poucos sabem que a primeira mulher a chegar ao topo precisou enfrentar não apenas o frio e a altitude, mas também regras religiosas e o próprio anonimato para entrar na história.>