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Heider Sacramento
Publicado em 14 de abril de 2026 às 08:00
Spark escolheu a madrugada desta terça-feira (14) para apresentar ao público um trabalho que funciona menos como vitrine e mais como afirmação de identidade. Em “Ciclos”, novo EP do artista baiano, a proposta é clara: deixar para trás a dispersão de referências e mergulhar em um R&B mais coeso, noturno e emocional, guiado por seis faixas que acompanham os altos e baixos de um relacionamento. >
Natural de Feira de Santana, Spark construiu uma trajetória incomum ao equilibrar a carreira na música com a rotina no futebol profissional. Hoje vivendo na Turquia, ele mantém no país um estúdio em casa, onde desenvolveu o novo projeto ao lado do produtor TX. O ambiente mais íntimo de criação acabou influenciando diretamente o resultado final, que aposta em ambientação, densidade e interpretação vocal.>
O próprio artista define o EP como um momento de virada. “Eu levo a música com a mesma seriedade que levo o futebol. Não é um hobby. Eu estudo, passo horas no estúdio e busco evoluir sempre. Esse projeto é resultado de dedicação, disciplina e amor pela arte”, afirma.>
Spark
A fala ajuda a situar “Ciclos” como um passo importante na consolidação musical de Spark. Se em trabalhos anteriores o artista ainda transitava com mais força entre trap e R&B, agora a escolha estética parece mais fechada. “Estou passando por um processo de revolução, de transição muito grande musicalmente. Isso está me ajudando muito nas minhas produções, nas minhas composições, com os meus produtores. Tem uma certa diferença nos dois trabalhos porque o Notas Live é um trabalho mais trap, com duas, três faixas de R&B. E esse projeto Ciclo realmente é um projeto bem R&B, bem numa vibe noturna, bem atmosférica. Então, é um trampo onde eu me empenhei ao máximo e cheguei a um resultado muito bom”, diz.>
Essa decisão de linguagem é justamente o que dá força ao EP. Em vez de tentar abraçar muitas direções ao mesmo tempo, Spark prefere concentrar energia em uma atmosfera mais fechada, sensual e emocional. O disco se move entre a tensão, o desejo, a reconexão e a saudade, transformando essas sensações em eixo narrativo.>
“Ciclos fala muito sobre os momentos que todo mundo vive em um relacionamento. Sobre errar, voltar atrás, sentir desejo, sentir falta e tentar entender o que ainda existe ali. É um projeto muito sincero, que mostra uma fase mais madura minha como artista e como homem”, resume.>
Mais do que organizar faixas, Spark constrói uma espécie de roteiro emocional sobre relações que não seguem linha reta. O mérito do projeto está justamente em entender que os afetos se repetem, tropeçam, voltam atrás e deixam marcas. Em “Ciclos”, essa oscilação vira argumento musical.>
O processo criativo também revela esse cuidado. “O projeto, esse Ciclo, eu comecei idealizando ele, escrevi todo num papel, num caderno, o que eu queria trazer com essa nova versão, com esse ciclo novo, com o que eu estou passando também. Então, eu procurei começar o trabalho pelas batidas. Como eu já fui percussionista, isso me ajudou muito a criar as minhas batidas. Mas principalmente nesse trampo, nesse projeto novo, tá com essa qualidade ainda mais das batidas, da dinâmica dos beats. Então, eu comecei o processo todo pelas batidas e depois eu coloco as camadas de melodia”, conta.>
Essa origem percussiva ajuda a explicar por que o EP parece nascer tanto do clima quanto da canção. O beat, em “Ciclos”, não serve apenas de base. Ele define espaço, temperatura e sensação. TX, produtor do projeto, reforça essa leitura ao dizer que um dos aspectos mais valorizados no trabalho foi a “espacialidade”, com faixas que buscam ambientação, imersão e contraste.>
Há também um grau maior de entrega pessoal. “Consegui ir mais a fundo nas emoções, porém numa vibe mais melancólica, mais carinhosa, mais aconchegante, também muito quente. Foram músicas fundamentais para o momento exato que eu tô passando, para o momento exato que o Spark também tá crescendo e tá evoluindo. Então, musicalmente, esse projeto pra mim foi incrível porque realmente foi 100% eu nesse projeto”, afirma.>
Ao mesmo tempo, Spark evita tratar o disco como confissão literal. Para ele, o real também passa pela observação do entorno. “É uma narrativa muito real. O projeto é 70% real, de composições, realmente, de não só histórias minhas, mas como histórias de amigos, histórias de alguns relacionamentos de amigos que eu convivo. Isso fez com que eu pudesse extrair o máximo da minha composição. Mas o projeto é 100% real, de letra, de vibe, de coisas que já aconteceram”, diz.>
Esse equilíbrio entre experiência pessoal e leitura emocional mais ampla é um dos pontos que tornam “Ciclos” mais interessante. O EP não soa como simples coleção de faixas românticas para consumo rápido. Ele funciona como um retrato de amadurecimento artístico, em que Spark parece menos preocupado em provar versatilidade e mais interessado em sustentar uma voz.>
O próprio artista reconhece que esse processo exigiu escolhas. “O ciclo mais difícil pra mim foi realmente entender aquilo que eu quero fazer, aquilo que eu preciso fazer. No meu início eu ficava um pouco confuso, me descobrindo, entendendo a minha dinâmica, a minha região vocal, o processo criativo que eu tinha que seguir. E eu precisava realmente ter essa virada de chave com o ciclo. Foi uma decisão comigo mesmo de poder realmente entender aquilo que eu preciso fazer, aquilo que realmente eu sei fazer”, afirma.>
É essa consciência que atravessa “Ciclos”. O EP marca uma fase em que Spark parece ter encontrado um ponto de convergência entre intenção, linguagem e presença. Em vez de um trabalho disperso, o que ele entrega agora é um projeto mais controlado, mais íntimo e mais definido.>
“Ciclos” chega também como preparação para uma nova aproximação com o público brasileiro. Em maio, Spark desembarca no país para uma série de apresentações, abrindo mais um capítulo de uma trajetória que, ao menos na música, parece entrar em fase de maior nitidez.>