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Roberto Midlej
Publicado em 6 de agosto de 2025 às 05:00
Antonia Torreão Herrera já tinha escrito mais de 400 poemas quando, finalmente, publicou seu primeiro livro, Babel, em 2020, a pedido da Ufba. Se dependesse dela, talvez nunca publicasse. Afinal, o ato de escrever era o bastante para realizá-la. “Demorei de publicar por causa da minha exigência. Às vezes, eu mostrava a meus alunos, mas, às vezes, não mostrava a ninguém. Não sei se era por insegurança. Alguns textos que escrevo, gosto muito; outros, acho que são mais ou menos bobos”, diz, com modéstia, a doutora em Letras, que tem mais de 50 anos de experiência como professora de Teoria da Literatura da Ufba. >
Agora, novamente por iniciativa de terceiros, Antonia publica seu segundo livro, “poemas APENAS poemas” (Mondrongo / R$ 42 / 65 págs.), que será lançado neste sábado (9), na Flipelô, às 19h, na Igreja de São Pedro dos Clérigos. “Este é um livro dedicado ao ‘Amor’, com letra maiúscula. Minha concepção de Amor é muito peculiar: um pouco mística, talvez, como uma ponte entre o profano e o sagrado. É o amor em várias dimensões”, diz a escritora, de 78 anos.>
“Estão trançados esferas de amor que vão do amor eterno e eternizado por Dante na Divina Comédia, o eixo do Empíreo que tudo move, e nesse topo está a musa Beatriz, até o amor-paixão mais criticado e preconceituosamente visto como brega. Todos cabem no poema”, revela Antonia na apresentação do livro. A fixação dela pelo italiano Dante Alighieri (1265-1321) está revelada logo no título do primeiro poema, Dante em Desalinho.>
Novamente, mesmo com muitos textos prontos, foi necessário que terceiros insistissem para que Antonia publicasse um livro, como aconteceu há cinco anos, com Babel. Desta vez, quem tomou a iniciativa de publicar a obra foi o poeta José Inácio Vieira de Melo, amigo e ex-aluno de Antonia, em Oficina de Criação Literária. “Fiz a disciplina duas vezes, porque fiquei encantado com ela. Boa parte de meu terceiro livro, A Terceira Romaria, foi criado sob orientação dela”, observa José Inácio.>
O ex-aluno de Antonia assina o posfácio do livro e se entusiasma ao falar da obra: “É estupendo! Ali, está todo o conhecimento dela, a leitura de filósofos e pensadores como Foucault e Umberto Eco. Ela tem uma erudição profunda aliada a uma compreensão enquanto criadora, que quer se comunicar. Portanto, a erudição não fica na superfície do texto, que, apesar de profundo, é acessível. E Antonia tem algo fundamental na literatura e na poesia: o ritmo, que vai levando a gente”.>
“José Inácio botou uma faca no meu pescoço para que eu publicasse o novo livro”, brinca Antonia. O estopim para fazer José Inácio correr atrás da publicação foi um sarau que aconteceu há apenas dois meses, na casa de uma amiga em comum. Ali, o poeta novamente se encantou com a leitura dos textos de sua ex-professora. “Li uns poemas de amor e quando li Uma Ode à Música [que encerra o livro], José Inácio disse: ‘você já tem um livro! Pegue esses poemas de amor e bote num livro’”, lembra Antonia, imitando o jeito entusiasmado como o amigo falou.>
José Inácio correu, telefonou no dia seguinte para o editor Gustavo Felicíssimo, que imediatamente aceitou publicar o livro pela Mondrongo. Foi corrido, mas “poemas APENAS poemas” ficou pronto em menos de dois meses, para que pudesse ser lançado na Flipelô. Admiradores de Antonia colaboraram: Elizeu Moreira Paranaguá assina a orelha do livro; o compositor e poeta Salgado Maranhão escreveu na quarta capa.>
Por sugestão de José Inácio, o livro se chamaria Amor e Música, mas Antonia preferiu trocar: “O título Amor e Música poderia comprometer o livro, porque música não é meu campo de trabalho, não sei nem tocar um dó. O meu campo é a vibração das palavras”, diz a autora. O poema Ode à Música surgiu quando a poeta lia Doutor Fausto, de Thomas Mann, um dos livros que ela relê com alguma periodicidade.>
Aleilton Fonseca
Escritor e presidente da Academia de Letras da BahiaO começo>
Antonia nasceu em Ubaitaba, no sul da Bahia e mudou-se para Salvador aos seis anos, com os pais. Estudou no Instituto Feminino e de lá, foi para as Mercês, onde uma professora de língua portuguesa foi decisiva para sua paixão por letras. >
“Minha primeira professora nas Mercês era um terror, nem lembro o nome. Mas Estela Fróes nos mostrou Os Sermões, de Antônio Vieira. Aí, me encantei! Depois de Os Sermões, conheci os poetas modernos: Drummond, Bandeira, Cecília Meireles. Estela passou para mim a paixão dela por literatura”, lembra Antonia.>
Na Faculdade de Letras, deu continuidade à paixão e se aproximou dos clássicos, com destaque para as tragédias gregas. Ilíada e Odisseia, de Homero, também a conquistaram. De Clarice Lispector, leu tudo.>
Salgado Maranhão
poeta e compositorAntonia gosta tanto da autora de A Hora da Estrela que desenvolveu, na USP, sua tese de doutorado, sobre a ética da escrita literária, a partir da obra de Clarice. “Acho que compreendo um pouco a obra dela”, diz a escritora baiana, com uma modéstia que soa absolutamente sincera.>
Aposentada compulsoriamente como professora desde 2023, ainda assim faz questão de dar aula e orientar trabalhos, ainda que não receba um centavo para isso. “Ao contrário: gasto gasolina, levo café e bolo para alunos”, diz, com muita leveza. “Um amigo disse que não entende por que continuo dando aula. Eu digo que pago para dar aula, mas, em compensação, não pago terapia”, brinca Antonia.>
Lançamento do livro ‘Poemas Apenas Poemas’, de Antonia Torreão Herrera. Sábado (9), 19h. No espaço Casa das Editoras Baianas na flipelô (Igreja São Pedro dos Clérigos)>