LANÇAMENTO

Livro póstumo de Gabriel García Márquez explora inquietações e paradoxos de uma mulher que satisfaz seus desejos

O autor colombiano não queria que Em Agosto Nos Vemos fosse publicado por considerá-lo inacabado

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  • Tharsila Prates

Publicado em 13 de maio de 2024 às 06:00

O escritor colombiano Gabriel García Márquez
O escritor colombiano Gabriel García Márquez Crédito: divulgação

Ao terminar o primeiro capítulo do recém-lançado Em Agosto Nos Vemos (Record / R$ 60), veio à lembrança outro romance do colombiano e prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez (1927-2014) por suas oposições e também semelhanças.

Memória de Minhas Putas Tristes (2005) é protagonizado por um homem de 90 anos e narrado em primeira pessoa, diferentemente da história de Ana Magdalena Bach, 46, em terceira pessoa. O que chegou agora às livrarias foi publicado após a morte do escritor, e o anterior, após um intervalo de 10 anos longe dos romances.

Os dois livros, porém, são breves. ‘Em agosto...’, uma mulher casada, com dois filhos, aproveita o luto para idas anuais a uma ilha onde a mãe está enterrada e onde Ana passa a se comportar como uma pessoa diferente, por uma noite, a cada viagem, sempre no dia 16 do mês oito. Para “dormir pela primeira vez na vida com um homem que não era o seu”, Ana toma as rédeas do encontro com um engenheiro, que a questiona “Por que eu?”, e ela responde como o protagonista de ‘Memória...’: “Foi uma inspiração”.

Já o velho jornalista sem horizontes do livro de 2005 resolve se “dar de presente [de aniversário] uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. Logo ele, que havia estado pelo menos uma vez com contadas 514 mulheres até os 50 anos, “todas usadas”.

A atmosfera de ambos transpira boleros e solidão. Ana “nunca mais voltaria a ser a mesma”. O jornalista descreve seu encontro com a “ninfeta” como o “início de uma nova vida”. Os dois protagonistas admiram suas conquistas deitadas na cama, com os braços abertos em cruz. “A moral é uma questão de tempo”, dizia Rosa Cabarcas, a dona da casa clandestina em ‘Memória...’. E, sem dúvida, era o que ela diria se fosse posta diante de Ana Magdalena.

A relação entre um escrito e outro faz sentido cronológico. O editor Cristóbal Pera escreve que antes de retomar “com intensidade” o trabalho no manuscrito de ‘Em agosto...’, Gabo tinha acabado de se dedicar a ‘Ela’, título que mudaria para Memória de Minhas Putas Tristes, publicado no exterior em 2004. Cristóbal explica ainda que ‘Em agosto...’ teve cinco versões sucessivas (na última, dá para ler o “Grande Ok final” do escritor, datado de 5 de julho de 2004).

Em Agosto Nos Vemos
Em Agosto Nos Vemos Crédito: divulgação

Memória

Foi Mónica Alonso, secretária pessoal do autor colombiano, quem encontrou a pasta com todos os manuscritos. E a agente dele, Carmen Balcells, procurou Cristóbal para pedir que incentivasse Gabo a terminar o romance inédito.

É importante que se saiba que o próprio escritor já havia publicado alguns fragmentos e lido três capítulos de ‘Em agosto...’ como contos independentes, em grandes eventos, incluindo um fórum sobre a força da criação ibero-americana na Casa da América em Madri, ao lado do também vencedor do Nobel José Saramago.

Com a perda cada vez mais severa de memória, o autor disse aos filhos que “este livro não presta e que tem que ser destruído”. Rodrigo e Gonzalo García Barcha afirmam que ‘Em agosto...’ tem “muitíssimos méritos desfrutáveis”, embora não esteja “tão lapidado como seus maiores livros”.

O editor especifica que trabalhou apenas na confirmação e correção de dados, desde nomes de músicos ou autores citados até a coerência na idade da protagonista e na descrição do primeiro homem com quem Ana se deita (com e sem bigode, detalhe que a faz não reconhecê-lo anos depois). Apesar disso, Cristóbal classifica o romance de uma “maestria absoluta”, em um “tema original”.

De fato, o leitor terá em mãos um livro que, se não emociona totalmente, provoca tensão ao longo da narrativa, com camadas complexas acerca da psicologia de sua personagem principal, um trunfo.

Ana é mãe, ama o marido, não admite que o seu relacionamento seja algo morno, tem amigas e uma vida confortável e, mesmo assim, é inundada pelo desejo de noites felizes, de ser outra pessoa ao menos uma vez no ano e que, depois, vive o paradoxo pela “falta de um homem certo”. E um mistério ainda se resolverá no sexto e último capítulo.

Só Gabo para tratar o amor com tantas nuances, e, desta vez, pelo ponto de vista feminino. Um mérito trazer a história toda a público.