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Lotti mantém a tradição da velha Itália acrescentando um leve sotaque brasileiro ao novo cardápio

Novo menu criado pelo chef Daniel Buzzi viaja por várias regiões do país

  • Foto do(a) author(a) Ronaldo Jacobina
  • Ronaldo Jacobina

Publicado em 14 de março de 2026 às 05:00

Vitello Tonnato Crédito: Fotos: Divulgação 

Quando um restaurante anuncia uma “viagem pela Itália”, nossa expectativa vai às alturas. No novo cardápio do Lotti Cucina Italiana, apresentado na última terça-feira (10), na unidade da Bahia Marina, o chef Daniel Buzzi propõe exatamente isso: um percurso que atravessa regiões e receitas clássicas da gastronomia italiana. Mas, à mesa, o trajeto revela algo um pouco diferente — menos uma reprodução fiel da tradição e mais uma interpretação contemporânea, com acertadas adaptações que aproximam os pratos do gosto local.

Bastoncini e parmiggiano

Mas é bom que se diga que a identidade, o DNA da gastronomia daquele país, cuja reputação mundial foi construída sobre um princípio quase austero: poucos ingredientes, técnica precisa e respeito absoluto à tradição, aparecem lá nas novas criações incorporadas ao cardápio, onde essa lógica se apresenta, embora nem sempre intacta.

Pastel cacio e pepe

A proposta do chef Daniel Buzzi, nascido na região da Lombardia, é conduzir o comensal por diferentes regiões da Itália. No papel, a narrativa é sedutora: Piemonte, Calábria, Roma e Lombardia aparecem como paradas dessa viagem gastronômica. No prato, o percurso revela uma cozinha que alterna fidelidade e liberdade criativa.

Mare e monti

O vitello tonnato, clássico piemontês, abre o roteiro. A carne de black angus, cozida lentamente e servida em fatias finas, chega à mesa com textura correta e molho de atum equilibrado. É um prato bem executado, embora menos delicado do que as versões mais ortodoxas que fazem desse antipasto um ícone da elegância italiana. Mas nada que comprometa o resultado final. Ao contrário, funcionou bem demais.

Pesce e Gnocchi 

Entre as massas, o rigatoni alla vodka, prato que parece ter voltado à moda nos restaurantes italianos pelas bandas de cá do Atlântico, aposta na intensidade. O molho cremoso de tomate e grana padano ganha protagonismo dos camarões e da induja calabresa. Este último, um embutido apimentado de porco com textura de patê, típico da Calábria e que, segundo o chef, cada família da região tem a sua receita autoral. “A pimenta era a solução para conservar os alimentos das famílias menos abastadas”, afirma.

Rigatoni alla vodka 

O resultado é um prato vigoroso, saboroso, ainda que mais exuberante do que a simplicidade que consagrou tantas receitas italianas. Vale observar justamente que é quando se aproxima dos clássicos absolutos que o cardápio assume suas maiores licenças. O cacio e pepe, símbolo da cozinha romana em sua forma mais minimalista — massa, pecorino e pimenta — aparece acompanhado de filé mignon e molho demi-glace. A intervenção muda radicalmente o espírito do prato: sai a austeridade romana, entra uma leitura mais rica, quase francesa.

Filetto com cacio e pepejpg 

Outros momentos do menu mostram uma direção ainda mais interessante: quando o restaurante — cujo primeiro menu foi criado pelo chef brasileiro e cofundador da casa, Manoel Coelho, morto em 2024 —assume o diálogo com o Brasil. O robalo com gnocchi de banana-da-terra, que volta ao cardápio, cria uma ponte convincente entre ingredientes italianos e nordestinos. Talvez um dos pontos em que o Lotti encontra sua identidade mais clara.

Torta basca Romeu e Julieta

Tem muita outras novas opções criadas por Buzzi que não couberam nesta visita. Faltou experimentar, por exemplo, o gnocchi de abóbora com fonduta de taleggio, finalizado com trufas, que reflite uma tendência recorrente da gastronomia contemporânea de recorrer a este ingrediente como atalho para sofisticação. Mas Buzzi sabe o que está fazendo.

Mousse de chocolate

Nas sobremesas, vale destacar a Torta Basca Romeu e Julieta, um primor que, assim como outras gulodices, leva a assinatura da chef Amanda Grezzana que assumiu a confeitaria da casa.

Chef Daniel Buzzi 

Conclusão: no discurso que acompanha o lançamento do novo menu do restaurante de Múrcio Dias, cada prato conta uma história da cultura italiana. Mas na prática, o cardápio parece contar outra narrativa: a de uma cozinha que parte da tradição, mas não hesita em transformá-la. E acerta! Trocando em miúdos, diria que o Lotti não faz uma cozinha italiana na sua forma mais clássica, mas uma versão possível dela, reinterpretada a partir do Brasil. Curiosamente por um talentoso cozinheiro italiano.

Serviço:

@lotticucina

Bahia Marina e Salvador Shopping