Chamada de 'droga da esperança', a Fosfoetanolamina ainda não tem eficácia comprovada

A substância estudada de forma independente pelo químico Gilberto Chierice tem gerado polêmica e muitas controvérsias no meio médico

Publicado em 29 de outubro de 2015 às 13:00

- Atualizado há 10 meses

Nos últimos meses, um dos assuntos mais comentados da área de saúde é a fosfoetanolamina sintética. A substância que seria eficaz na cura do câncer e está sendo chamada de 'droga da esperança' ainda não tem sua eficácia comprovada. Apesar disso, milhares de pessoas entraram na justiça para ter o direito de receber doses para o tratamento da doença. A distribuição de fosfoetanolamina sintética para fins medicamentosos no tratamento de câncer pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) havia sido suspensa, mas voltou a acontecer graças a liminares judiciais. A substância estudada de forma independente pelo professor Gilberto Orivaldo Chierice no laboratório da universidade tem gerado polêmica e muitas controvérsias no meio médico. Sem registro na Anvisa, os efeitos nos pacientes ainda são desconhecidos.Milhares de pessoas entraram na justiça para ter o direito de receber doses para o tratamento do câncerPara o oncologista João Claudio Neiva, da Hapvida Saúde, a fosfoetanolamina sintética sequer pode ser denominada como medicação. "Ela é apenas uma substância que foi submetida às primeiras fases de estudos", afirma. O alerta do especialista é para a administração da droga em seres humanos sem a devida aprovação dos órgãos reguladores: "Não existem estudos publicados que autorizem a sua utilização em seres humanos, no máximo observamos resultados promissores em estudos iniciais sugerindo sua investigação em fases subsequentes de pesquisa".Em 19 de outubro, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica divulgou seu posicionamento oficial sobre a fosfoetanolamina sintética. A nota afirma que estudos clínicos são essenciais para que a vida dos pacientes não seja colocada em risco. "O estudo determina os efeitos colaterais, a melhor administração e as indicações de medicação. Isso vale para um antibiótico e para um remédio contra o câncer. É o que dá noção de eficácia e segurança para ser usado", explicou Evanius Wiermann, presidente da instituição.De acordo com os estudos do químico Gilberto Chierice, acredita-se que esta substância seja um substrato formador de diversas estrutura (fosfolipídeos) das membranas celulares. O profissional alega que a fosfoetanolamina sintética tem função antitumoral comprovada através de vários anos de pesquisa. Doutor João Neiva explica que alguns estudos realizados em camundongos atribuíram à fosfoetanolamina efeitos anti-inflamatórios, além de promover a apoptose, ou seja a morte das células tumorais e capacidade de impedir a disseminação metastática. "Cabe agora a investigação de seus efeitos em seres vivos", ressalta o médico.O Ministério da Saúde já anunciou que vai criar um grupo de trabalho para estudar a questão da fosfoetanolamina e apoiar a realização dos estudos necessários para avaliar a eficácia da substância contra o câncer. Não se sabe ainda o tempo de duração, mas o órgão pretende destinar R$ 10 milhões para financiamento de trabalhos na área. Enquanto isso não é posto em prática, milhares de pessoas procuram consultórios médicos para mais informações sobre a 'droga da esperança'. "Expomos os fatos reais e explicamos aos pacientes que não dispomos de informações seguras para difundir o uso desta substância", assegura o oncologista da Hapvida.Atualmente a melhor forma de lidar com o câncer é a prevenção, fazendo consultas periódicas e se antecipando aos riscos. Quanto antes o paciente descobrir a doença mais fácil e rápido é o tratamento. "A busca incessante pelo diagnóstico precoce, porque sabidamente é a identificação do tumor em sua fase inicial que vai aumentar a chance de cura", conclui o doutor João Neiva.