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Miro Palma
Publicado em 23 de abril de 2026 às 17:20
O problema do Bahia não é a derrota para o Remo. É o que ela representa. O placar de 3x1 na Fonte Nova não abre só uma desvantagem na 5ª fase da Copa do Brasil, ele escancara um padrão que já deixou de ser coincidência faz tempo. Quando o jogo pede imposição e o cenário cobra um passo à frente, o Bahia recua. Não necessariamente em campo, mas na postura. E isso, em mata-mata, cobra caro. >
Não foi diferente agora. Também não foi na pré-Libertadores, quando o time deixou escapar a classificação dentro de casa para o O’Higgins. Nem na Sul-Americana, contra o América de Cali. Nem na Copa do Brasil passada, diante do Fluminense. Trocam-se os adversários, mudam-se os contextos, mas a sensação é sempre a mesma. O Bahia chega competitivo, até organizado, mas não chega pronto para decidir. Falta aquele algo que separa quem participa de quem avança. Falta ambição traduzida em atitude.>
E aqui é importante deixar claro. Não se trata de terra arrasada. Não é um time ruim. Ao contrário, é uma equipe que, em pontos corridos, costuma se sustentar, competir, pontuar. Mas futebol não se resume a regularidade, principalmente para um clube que fala em dar salto de patamar. Esse salto não acontece em um domingo qualquer de Brasileirão. Ele aparece justamente nas noites decisivas, eliminatórias. E é nessas horas que o Bahia tem falhado.>
A impressão que fica é de um elenco montado para manter nível, não para elevá-lo. Há peças e opções, mas poucas mudam o jogo de verdade. Poucas impõem respeito. Em mata-mata, isso pesa. Não basta ter volume, é preciso ter impacto. E o Bahia, hoje, tem mais volume do que impacto. Mais controle do que contundência. Mais discurso de evolução do que entrega efetiva quando o sarrafo sobe.>
Essa conta começa fora de campo. Passa, inevitavelmente, pela montagem do elenco. Cadu Santoro, como diretor de futebol, e Raul Aguirre, como CEO, são peças centrais do processo. Se a ideia é construir um time mais forte, competitivo e confiável em jogos grandes, as escolhas precisam refletir isso com mais clareza. Até aqui, não refletem. O Bahia monta grupos que sustentam temporada, mas não constrói um time que intimida em decisão. E isso é direcionamento.>
Depois, a cobrança desce para o vestiário. Porque, no fim, são os jogadores que entram em campo. E partidas desse tamanho pedem mais do que organização. Pedem personalidade, protagonismo, capacidade de não se esconder quando a pressão aumenta. E o Bahia, repetidamente, falha também nesse ponto. Falta resposta dentro de campo.>
O torcedor já entendeu o roteiro. E é isso que mais incomoda. Não é só perder, é perder do mesmo jeito. É ver o time travar quando o clima está desfavorável, hesitar quando precisa ser agressivo, oscilar quando o erro custa eliminação. O tricolor não entra derrotado em campo, mas também não entra com a autoridade de quem sabe que pode decidir. Fica no meio do caminho. E, em mata-mata, o meio do caminho costuma ser o fim.>
Se 2026 foi projetado como um ano de evolução em relação a 2025, o que se vê até aqui vai na direção oposta. O Bahia não evoluiu. Em alguns aspectos, até regrediu. Reincide nos mesmos erros, repete os mesmos comportamentos e mantém a mesma dificuldade de se impor quando mais precisa. Já não dá para tratar como processo, nem como amadurecimento em curso. É um limite que se repete. E, enquanto não for enfrentado de frente, o clube vai seguir sendo competitivo o suficiente para iludir, mas insuficiente para decidir.>
Miro Palma é jornalista e coordenador do impresso>