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Maria Raquel Brito
Publicado em 4 de maio de 2026 às 05:00
A Bahia ainda tem grandes desafios para superar em relação à desigualdade no mercado de trabalho. Pessoas negras recebem em média R$ 3 mil a menos que as brancas no estado, aponta o Relatório de Transparência Salarial do primeiro semestre de 2026, produzido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Enquanto a remuneração média dos trabalhadores brancos é R$ 9.109,45, negros recebem, em média, R$ 5.934,43.>
Segundo João Gabriel Lopes, professor de Direito do Trabalho na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e advogado trabalhista, a desigualdade salarial é um produto direto de séculos de perpetuação de um modelo de racismo institucional que se estende desde políticas estatais de sujeição e superexploração da população negra até mecanismos – explícitos e implícitos – de violência nas empresas.>
“A ausência de políticas sérias de reparação da população negra acarreta uma segmentação do mercado de trabalho que se reproduz até hoje: trabalhadores negros são empurrados, de forma sistemática, para a informalidade ou para os postos mais precarizados, especialmente aqueles que historicamente foram associadas ao trabalho compulsório e ao corpo negro. Esse racismo se revela, ainda, em barreiras no acesso à educação de qualidade, à formação profissional e às redes de indicação, mecanismos de acesso a boas vagas”, diz. >
Áreas com alto índice de informalidade
O resultado, afirma ele, é que, mesmo na Bahia, onde a população negra é majoritária e equivale também à maior parte dos vínculos empregatícios (84,2%), ela é sub-representada no mercado de trabalho e ainda mais nos cargos de liderança, nas carreiras técnicas mais bem remuneradas e nos empregos formais com proteção social plena. >
A desigualdade, porém, persiste até quando as funções exercidas são as mesmas. De acordo com o levantamento Síntese de Indicadores Sociais, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trabalhadores negros no Brasil ganham menos em todos os grupos ocupacionais quando comparados a trabalhadores brancos. Em cargos de gerência ou diretoria, por exemplo, a diferença é de R$ 3.385.>
A tendência se mantém quando olhamos para a remuneração por níveis de instrução. Em todos os níveis, brancos ganham mais que pretos ou pardos, o que se acentua quando se trata de pessoas com ensino superior completo: nessa faixa, brancos ganham cerca de 45% a mais que negros. >
As punições para práticas discriminatórias nas relações de trabalho, inclusive por motivos raciais, estão previstas na legislação. Determinações como o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e as leis 9.029/1995 e 14.532/2023 dão conta disso, além das disparidades salariais serem vedadas pela Constituição Federal. >
“O problema é que essas normas existem há décadas e a desigualdade persiste, o que demonstra que lei sozinha, por mais que represente um avanço, não basta. É preciso que trabalhadores conheçam seus direitos, que sindicatos atuem com pauta antirracista efetiva, e que as instituições trabalhistas estejam preparadas para reconhecer situações que configurem o racismo em suas múltiplas dimensões: individual, institucional e estrutural”, diz Lopes. >
Em comparação com o salário médio dos homens não negros, grupo mais bem remunerado, os ganhos das baianas negras são R$ 2.473,89 menores. A remuneração média dessas mulheres é R$ 2.645,93. Elas compõem o grupo mais desvalorizado no mercado de trabalho baiano, apesar de ser o segundo mais expressivo em quantidade de vínculos empregatícios, atrás apenas dos homens negros: são 286.920 trabalhadoras negras, o equivalente a 34,4% do total. >
Naira Gomes, antropóloga, pesquisadora e cofundadora da Marcha do Empoderamento Crespo, afirma que, além das mulheres negras serem contratadas para cargos menos valorizados, tendem a ser menos remuneradas quando estão em cargos na mesma linha de CEO, diretoria e coordenação. Por isso, segundo ela, é fundamental pensar o salário na perspectiva de raça e gênero.>
“Não é à toa que precisou-se de uma lei em 2023 para equiparar isso, inclusive no serviço público. Não é da ordem da personalidade, um gestor privado que escolhe porque a empresa tem um regimento interno e ele mesmo pode escolher e pensar como funciona a sua empresa. Quando isso chega a cargos públicos, significa que é estrutural, que o racismo e machismo estão estruturando como as mulheres são lidas, valoradas e remuneradas”, define.>
Segundo a antropóloga, persiste o imaginário de que o trabalho de negras e negros não tem valor. Ela mesma passa por isso, toda vez que é convidada para fazer formações, palestras ou workshops e é questionada se não pode fazer “por militância”, sem remuneração. “Olha que violência, né? Olha o tipo de imaginário em que alguém se sente disposto e confortável a usufruir da capacidade intelectual, do acúmulo experiencial de uma pessoa negra sem remunerá-la por tal.”>
Ela ressalta que, ao falarmos de dinheiro, o foco não é só no consumo: é o acesso a espaços e experiências que vão de culturais a religiosas. “Para ir na igreja tem que ter direito de transporte, para fazer a eucaristia tem que ter uma roupinha nova branca, para fazer um ebó tem que comprar a farinha, tem que comprar o grão. Então, o dinheiro subsidia até mesmo a experiência religiosa. É claro que não é limite em si mesmo, mas é algo pragmático que atravessa todas as relações que a gente tem consigo mesmo com o mundo”, diz. >
Foi a dificuldade para entrar no mercado de trabalho formal que fez com que Beatriz Almeida, de 27 anos, buscasse seu próprio caminho de outra forma: através do empreendedorismo. Formada em jornalismo, pós-graduada em Gestão de Projetos e pós-graduanda em Gestão e Políticas Públicas, ela perdeu as contas de quantas vezes se frustrou na busca por emprego após sair da faculdade e em plena pandemia. >
“Cada entrevista, cada nova tentativa, atualização de portfólio, atualização de currículo, atingia bastante a minha auto-estima, e eu via claramente a cada entrevista que a pessoa não tinha intenção de me contratar. Via que era um cenário completamente competitivo e desleal para mim naquele cenário, saindo da faculdade”, conta. Apesar dos desafios, ela sempre soube impor seu valor: tentava sempre colocar seus termos e o que fazia sentido para ela. >
Agora, comanda a Pagode Por Elas, plataforma de conteúdo e projetos focados nas mulheres do pagode baiano. E nunca esteve tão satisfeita. >
“Hoje, para eu abandonar a vida confortável que tenho, de fazer os meus horários, de ter projetos no meu nome, que são assinados por uma empresa que é minha, em que eu contrato quem eu quiser, que eu trabalho com quem eu quiser, eu preciso realmente negociar esse lugar, coisa que o que o mercado não está nem um pouco a fim e acostumado, sobretudo com profissionais como eu: mulheres negras, nordestinas, baianas, porque existe uma visão deturpada de que nós não temos capacidade. E eu digo que é uma visão deturpada porque nós somos as profissionais que, de fato, fazem a engrenagem do mercado girar”, afirma. >