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Maria Raquel Brito
Publicado em 28 de abril de 2026 às 20:12
A dentista Elizabeth Magalhães perdeu as contas de quantas crianças com vergonha de sorrir já conheceu. Ou adolescentes, no auge dos 15 anos de idade, que vivem tristes e acanhados, sem falar muito. Até que vem a virada de chave: atendimento odontológico de qualidade. Essa é a proposta da Megatriagem Odontológica da Turma do Bem.
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A iniciativa, que acontece simultaneamente em mais de 150 municípios brasileiros, seleciona crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social para receberem tratamento dentário completo e gratuito. A edição de 2026 aconteceu ontem (28), e Salvador não ficou de fora. Na capital baiana, a ação ocorreu na escola de arte Hora da Criança, no Horto Florestal.>
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Este ano, mais de 150 jovens passaram pela triagem. Depois desse processo, adolescentes entre 11 e 17 anos são “adotados” por consultórios particulares, que os acompanharão de forma gratuita até que completem 18 anos de idade.>
“Uma pessoa que precisa de canal, de um implante ou de uma prótese, tem muita dificuldade em conseguir. A nossa rede é justamente para atender esses pacientes que têm problemas graves e não conseguem atendimento”, afirma Elizabeth, que coordena a Turma do Bem em Salvador.>
Uma das jovens que participaram da nova edição foi Ananda Rosedal, de 15 anos. Sua mãe, Rosana Santos, soube da iniciativa pelo jornal e resolveu acompanhá-la. "[O atendimento odontológico] mudaria as coisas de uma forma que minha filha teria qualidade de vida, pois ela não costuma sorrir por conta das falhas dentárias. Como custear esse tratamento para mim no momento é difícil, seria maravilhoso", diz Rosana.>
A faixa etária atendida não foi escolhida à toa. O motivo é a proximidade da adolescência, que acompanha uma consciência maior em relação à própria aparência e experiências como o primeiro romance e o primeiro emprego.>
Outras idades, porém, também demandam atenção, como mostraram dados inéditos do relatório Saúde Bucal Brasil 2023, do Ministério da Saúde. De acordo com o documento, 41,71% dos adultos na Bahia não procuram atendimento em saúde bucal, o que contribui para o agravamento de quadros simples. As cáries não tratadas, por exemplo, atingem 58,21% da população adulta do estado e 55,68% dos moradores de Salvador, levando a perdas irreversíveis de dentes.>
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Esse cenário está diretamente ligado ao baixo acesso aos serviços odontológicos. Para a dentista Elizabeth Magalhães, ainda existe uma desinformação expressiva em relação à saúde bucal. “A gente sempre vê a movimentação em outras áreas, mas não para o dentista. O que a falta do dente pode causar, o que uma doença na boca pode causar, saber também que várias doenças apresentam muitos sintomas na boca no início. Eu acho que falta muito isso, divulgação”, diz.>
E, segundo ela, o que se vê na área atualmente é uma piora. “Hoje, o mercado está empurrando os jovens dentistas para fazer estética. Muito dentista agora está fazendo odontologia para fazer botox, preenchimento, lente de contato. Estou preocupada com isso.” >
Outros projetos da ONG contemplam um maior contingente. Em 24 anos, já impactou a vida de mais de 90 mil jovens e 1.200 mulheres vítimas de violência, devolvendo-lhes o sorriso e a dignidade por meio do atendimento gratuito. Fez isso através de iniciativas como o “Apolônias do Bem”, que garante tratamento odontológico para mulheres cis e transgênero que foram vítimas de violência doméstica. >
“Elas contam as histórias, são histórias terríveis. E essas mulheres, depois que saem com aqueles dentes maravilhosos de implante, elas falam: ‘é outra vida’. Elas dizem que a vida está começando naquele momento”, diz Elizabeth. >