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Maria Raquel Brito
Publicado em 6 de maio de 2026 às 05:00
Já era rotina. Todos os dias, Edimilson Couto Santana pegava a moto para levar seu filho do sítio onde moravam até o centro de Santa Teresinha, no interior da Bahia, onde o garoto seguia para o colégio de transporte escolar. Até 16 de abril de 2025. Naquele dia, no trajeto diário de menos de 5 km, a motocicleta se chocou com um caminhão que estava parado na beira da estrada, sem sinalização.
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Edimilson morreu no local, aos 59 anos. O filho, Átila, com apenas 13 anos, foi encaminhado a um hospital na cidade de Santo Antônio de Jesus, com lesões graves na coluna que o deixaram com tetraparesia. >
“Eu brigava todos os dias para ele usar capacete, falava sempre. Porque evita um acidente grave como o que aconteceu, uma morte de uma pessoa querida”, diz Glaucia Melo, esposa de Edimilson e mãe de Átila. “Meu marido sempre falava: ‘não, é rapidinho, não precisa’. E aconteceu essa fatalidade.”>
Átila está entre as 13.923 pessoas que foram internadas em 2025 devido a acidentes com motocicletas na Bahia. O número representa uma alta de 82.59% em cinco anos – em 2020, esse tipo de acidente causou 7.625 internações. >
Só nos dois primeiros meses de 2026, foram registradas 2.340 internações em território baiano. Desses, a maioria eram homens: 1.873, ou 80%. A maior parte das pessoas envolvidas nos acidentes (671) eram pessoas jovens, entre 20 e 29 anos. >
O número de crianças e adolescentes, porém, também chama atenção: 280 das pessoas internadas tinham até 19 anos. Dessas, 228 eram adolescentes entre 15 e 19 anos. >
Presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Trânsito (IBDTrânsito), Danilo Costa afirma que o aumento expressivo das internações de motociclistas está diretamente relacionado à ampliação do uso da motocicleta como meio de transporte e instrumento de trabalho. “Trata-se de um modal naturalmente mais vulnerável, que expõe o condutor a riscos significativamente maiores em comparação com outros veículos”, diz.>
Além da intensificação do uso da motocicleta para deslocamentos urbanos, transporte de passageiros e atividades de entrega, ele menciona outro fator importante para o número expressivo de acidentes: a persistência de comportamentos de risco, como o excesso de velocidade, a realização de manobras proibidas e o desrespeito às normas de circulação.>
“O não uso do capacete, ou seu uso inadequado, agrava significativamente as consequências dos sinistros, especialmente no que diz respeito a lesões graves e fatais. Portanto, não se trata de uma única causa, mas de uma combinação entre maior exposição e condutas inseguras”, defende Costa.>
Os cuidados com sinistros de trânsito passam, sobretudo, pelo comportamento do condutor. De acordo com Danilo Costa, estudos indicam que aproximadamente 90% dos acidentes de trânsito estão relacionados a falhas humanas.>
“Nesse contexto, é fundamental que o motociclista adote uma postura de condução defensiva, o que inclui antecipar riscos, manter distância segura dos demais veículos, respeitar os limites de velocidade e observar rigorosamente a sinalização viária”, afirma.>
Nas rodovias, indica ele, os cuidados devem ser redobrados, porque a maior velocidade dos fluxos exige atenção constante, planejamento das ultrapassagens e previsibilidade nas ações. Além disso, é indispensável o uso adequado dos equipamentos de segurança e a manutenção preventiva da motocicleta.>
Se Glaucia Melo costumava alertar o marido sobre o uso do capacete, hoje amplifica esse alerta para o máximo de famílias que consegue. Afinal, viu sua vida mudar do dia para a noite por conta da ausência do equipamento. “A gente não acredita. A ficha não cai, mudou muito a minha rotina, a minha expectativa de vida, meu emocional. E o de Átila também. Mas eu acredito no propósito de Deus”, diz. >
Átila Melo está no processo de reabilitação
Desde o acidente, se dedica a cuidar de Átila e de seu processo de reabilitação. Mudaram-se de Santa Teresinha para Salvador, onde o adolescente, hoje com 14 anos, tem acesso a terapias mais avançadas. >
“Os médicos diziam que ele não ia andar. E é um milagre de Deus, porque Átila já está dando os passos, já tem alguns movimentos. Alguns, mas tem. Eu tenho muita confiança de que ele vai voltar a ter a vida dele, a rotina dele”, diz. >
Átila deu início ao processo de reabilitação em outubro, seis meses depois do acidente. Com tetraparesia, devido a lesão medular, ele chegou para a reabilitação sem controle de tronco, usando fralda, precisava de cuidados para realizar as atividades mais simples.>
A tetraparesia, condição de Átila, é semelhante à tetraplegia, que é mais conhecida popularmente. As duas são alterações na força muscular dos quatro membros, mas a diferença se dá na intensidade. É o que explica Rafael Calazans, médico da Clínica Florence, onde Átila faz uma parte de sua reabilitação. >
“Enquanto a tetraplegia é uma alteração total da força muscular nesses quatro membros, a tetraparesia é uma alteração parcial. De resto, é tudo muito semelhante. A diferença é: total é plegia, parcial é paresia. Isso tende muitas vezes a impactar no prognóstico, que são as chances de evolução. Tende a ter um prognóstico muitas vezes mais favorável quando é uma tetraparesia”, diz.>
De outubro para cá, o adolescente tem mais controle de tronco e consegue dar os primeiros passos desde o ocorrido, com apoio. Não usa mais fraldas, vem ganhando mais autonomia para sentar-se, já usa cadeira de rodas e participa mais ativamente da própria rotina, em momentos como o de se alimentar. Também continua os estudos, de forma on-line e por comando de voz, no mesmo colégio em que estudava em Santa Teresinha. O momento preferido dele, porém, é quando pode se dedicar aos videogames. >