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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 05:00
A possibilidade de perda de um dos mais relevantes símbolos da história médica do país reacende o debate sobre preservação do patrimônio nacional. Para o presidente da Academia de Medicina da Bahia, Cesar Augusto de Araújo Neto, o que está em jogo vai muito além de um prédio antigo. Sede da primeira Escola de Medicina do Brasil, fundada em 1808 por Dom João VI, o imóvel no Terreiro de Jesus concentra 218 anos de memória, documentos, acervos e símbolos que ajudaram a moldar o ensino superior no país. “Ali não estão só as paredes. Está o histórico ali dentro”, afirma. O médico defende a conclusão de um projeto global de restauro, com captação de recursos via Lei Rouanet, além da criação de um Centro de Convenções capaz de gerar autossustentabilidade financeira e manter viva a história da medicina brasileira. >
Quem é >
Cesar Augusto de Araújo Neto é médico radiologista, professor da Universidade Federal da Bahia e presidente da Academia de Medicina da Bahia>
Qual a sua avaliação sobre a atual situação da sede da Faculdade de Medicina da Bahia, que enfrenta um risco real de desabamento?>
Esta foi a primeira Escola de Medicina do Brasil. Não só a primeira Escola de Medicina do Brasil, mas foi a célula mater do ensino superior do Brasil. Foi também a primeira Escola Médica da América do Sul, veja a representatividade. Foi criada pelo príncipe regente Dom João VI, que foi expulso de Portugal pelas invasões napoleônicas. Ele veio para o Brasil para se resguardar. E passando aqui em Salvador, ele fez algumas ações, entre elas, a fundação dessa escola. Nós estamos falando de 1808. Então, essa escola é um monumento à medicina brasileira.>
O que representaria a queda desse monumento?>
É a perda da memória da medicina brasileira. Ali não estão só as paredes, está o histórico ali dentro. O prédio está ativo, porque funciona a diretoria da faculdade e o colegiado do curso, que organiza todo o curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. E ali tem dois museus ativos, inclusive um de antropologia. Tem uma biblioteca, onde tem o histórico da criação dessa escola. Então, ali está a essência da história médica do Brasil. Tem o salão nobre da nossa escola, onde se fazem os eventos solenes. A representatividade é muito grande, além, claro, de fazer parte daquele conjunto histórico do Terreiro de Jesus no Pelourinho.>
Médicos ex-alunos da Faculdade de Medicina da Bahia, que completou 218 anos nesta quarta-feira (18), organizaram ato para alertar sobre a situação do prédio
O governo tem sido omisso?>
Eu tenho participado de várias comissões. A responsabilidade de gerir, de conservar, é da Universidade Federal da Bahia. Mas nós fomos buscar o reitor, que nos disse claramente: ‘nós temos verba insuficiente para gerir os prédios que compõem o patrimônio da Universidade Federal da Bahia. E não dá para manter os prédios históricos que demandam mais recursos’. A proposta que nós estávamos encaminhando era fazer um projeto e submeter esse projeto de restauro geral ao Iphan. O Iphan aprovando, submeteríamos à Lei Rouanet, buscando recursos de empresas. Foi essa a proposta que eu recebi da reitoria. Foi essa a proposta que eu recebi de alguns dos nossos parlamentares, com quem nós fomos conversar. Só que esse projeto global de restauro ainda não foi concluído, porque faltou recurso. E a gente estava buscando tirar algum recurso de emenda parlamentar para injetar na conclusão do projeto. Mas só que agora apareceram problemas emergenciais: infiltração, comprometimento da infraestrutura do prédio, rede elétrica com risco de gerar circuitos e, consequentemente, incêndios. E o Iphan esteve lá vendo a situação difícil e caótica que nós estamos passando. E o reitor simplesmente nos disse que eles não têm recurso orçamentário para fazer as intervenções necessárias ali.>
A Escola de Medicina deveria voltar a funcionar neste prédio como forma de garantir sua revitalização?>
O prédio antigo não tem capacidade de abraçar toda a escola, mas nós temos lá dois cursos de pós-graduação. A parte administrativa toda da faculdade funciona. Em 2002 ou 2003, nós conseguimos, através da Petrobras e da Coroa Espanhola, na gestão de ACM, fazer uma boa reforma, mas não tem recursos para manter. A gente precisa dar autossustentabilidade àquela casa. A universidade não tem historicamente recurso orçamentário para manter os seus prédios. Então, nesse projeto que nós estamos desenvolvendo, está previsto fazer um centro de convenções para 200 ou 300 pessoas, para compor até o conjunto de investimentos que estão sendo feitos naquela região, como hotéis como Fasano e Fera Palace. Seria um centro cultural ativo para receber eventos científicos, feito no anexo que fica no fundo do prédio, com vista para a Baía de Todos-os-Santos. A ideia era recuperar esses anexos.>
O poder público tem negligenciado a preservação da história do nosso país?>
A gente precisa ter mais recursos para preservar a nossa cultura e a nossa história. Nós temos coisas maravilhosas para preservar. A nossa biblioteca conta a história ao longo desses 218 anos da evolução da Medicina no Brasil. Então, precisa ter um olhar com mais objetivo e fazer maiores investimentos nesses prédios.>