Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maysa Polcri
Publicado em 12 de dezembro de 2023 às 06:00
Filé de petróleo. Filé mais famoso de Salvador. Diamante Negro. Filé à Juarez. São várias as formas que a clientela do tradicional Juarez Restaurante, no Centro Histórico de Salvador, conhece o principal prato do estabelecimento. A crosta escura, formada no banho de óleo quente, das 300 gramas de filé mignon, acrescida de rodelas de cebola, é servida desde a década de 50 do mesmo jeito. Mas afinal, quem foi Juarez e qual o segredo do preparo da carne mais famosa da cidade? >
Juarez Zenóbio da Silveira, natural de São Félix, era pracista do Mercado do Ouro, localizado na Avenida Jequitaia, durante as décadas de 40 e 50. Era o responsável pela comunicação entre quem trazia as mercadorias que abasteciam a capital baiana e os lojistas, em uma época em que grandes redes de supermercados não existiam. Enquanto trabalhava, fez amizade com Luís Miranda Formigli, descendente de italianos e dono de uma loja de cereais no mercado. >
Na década de 50, Luís decidiu abrir uma cantina dentro da loja. A ideia de vender refeições feitas em casa para os comerciantes que não tinham tempo de voltar para casa no horário do almoço fez sucesso e a clientela foi crescendo. “A gente morava em Itapagipe e a comida era feita lá em casa por minha mãe e as empregadas. Eu e meu irmão íamos buscar a comida de ônibus”, relembra Pedro Formigli, 76, filho do fundador.>
Os comentários sobre a comida caseira impulsionaram o lucro da cantina, que ultrapassou o da venda de cereais. Foi quando Luís convidou Juarez para ser uma espécie de gerente do restaurante. O famoso filé foi uma receita ensinada por um europeu, mas Juarez acrescentou alguns toques especiais. A preparação leva vinho e alho, mas a alquimia por trás do prato é segredo familiar até hoje. >
“Um amigo de Juarez trouxe a receita e ele fez uma adaptação. Através de uma experiência surgiu esse diamante negro da gastronomia baiana”, conta Agnoel Torres, 48, filho de consideração de Juarez e Luís. Foram os dois amigos que tomaram conta da educação do rapaz que, hoje, comanda o tradicional restaurante. Na segunda-feira (11), depois de um ano fechado para reformas, o estabelecimento voltou a funcionar no Centro Histórico. >
O prato continua sendo preparado da mesma forma e ai de quem tentar fazer alguma alteração. “Uma vez eu tentei mudar, apresentar a salada de uma forma mais sofisticada, mas foi problema”, diz Agnoel. Quem comanda a cozinha agora é Valdirene Santos Faria, de 56 anos, que aprendeu os segredos do preparo na década de 80 com o próprio Juarez. >
Acompanhado de arroz, feijão, salada e farofa, o prato sai a R$86 e pode servir até duas pessoas. Quem esteve na reinauguração do estabelecimento garantiu que o sabor é o mesmo da época dos seus fundadores. Foi a fama do prato que garantiu que a cantina tomasse conta de vez da loja de Luís Formigli. >
Depois de um incêndio, no final da década de 1960, o espaço foi reconstruído como Juarez Restaurante, atraindo personalidades, como Luiz Gonzaga. Só em 2005, depois que o cantor Carlinhos Brown transformou o antigo mercado no Museu Du Ritmo, o estabelecimento foi para outro local, na Avenida Jequitaia, 1. Juarez Zenóbio faleceu em 2013, aos 86 anos, deixando para trás um legado de temperos que atravessa gerações. >