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Maysa Polcri
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 05:30
Eles viveram a época dos desfiles de jegues e dos sambas em torno das barracas mais famosas da Lavagem do Bonfim. Anos depois, seguem acompanhando, cada um do seu jeito, o evento religioso que arrasta multidões em Salvador. Mais uma edição da festa acontece nesta quinta-feira (15), e ninguém melhor do que os devotos 'raiz' para dar dicas de como evitar perrengues ao longo dos oito quilômetros que levam até a Colina Sagrada. >
A história da aposentada Jane Souza Conceição se confunde com a da festa que homenageia o Senhor do Bonfim na capital baiana. Levada pelos pais pela primeira vez quando era criança, a baiana de 69 anos agora percorre o trajeto acompanhada da filha. "Me reconheço na Lavagem desde sempre, faz parte de quem eu sou. É algo transmitido pelas gerações", diz. Ela, que desde cedo aprendeu que 'quem tem fé vai a pé', teve as diferentes fases da vida marcadas pela festa. >
Na adolescência, era atrás dos sambas que ela ia com as amigas ao longo do percurso entre a Conceição da Praia, no Comércio, até a Basílica do Senhor do Bonfim. "A gente ia para sambar, subia nas mesas e dançava. Voltava para casa já na lama, de madrugada", relembra aos risos. O casamento a aproximou ainda mais da festa. "Meu marido sempre acompanhou. Mas, se não podia ir por causa do trabalho, era tchau para ele porque eu nunca deixei de ir", conta, bem humorada. >
Para garantir não perder nenhum detalhe da Lavagem do Bonfim, Jane Souza indica: quem faz questão de acompanhar de perto a saída da imagem do Senhor do Bonfim da Conceição da Praia, deve chegar cedo, por volta das 7 horas. Mas a devota também dá dicas para quem planeja curtir a parte profana. "Quem quer ir no embalo dos sambinhas, os cortejos já estão passando a partir das 9 horas", diz. >
Procissão marítima do Senhor do Bonfim
Se você não tem pressa para terminar o cortejo, lá vai outra dica preciosa. Paradas estratégicas podem ser feitas ao longo do trajeto, seja ele feito em dias de sol ou de chuva. O desenvolvedor de sistemas Edval Serpa, 39, também cresceu ouvindo as histórias sobre a Lavagem do Bonfim, já que parte da família mora na Cidade Baixa e sempre frequentou a festa. Desde 2019, quando se mudou para o Caminho de Areia, faz questão de participar com a companheira, Adrielle. >
Há dois anos, Edval e Adrielle colocaram no roteiro da Lavagem as paradas na Praça da Mãozinha, no pé da Ladeira da Água Brusca e nos Mares. O objetivo? Recarregar as energias e evitar o perrengue que viveram há dois anos. "Nosso grupo de amigos acabou se dispersando ao longo do trajeto. Ao chegar no Largo de Roma, tive que voltar até a Feira de São Joaquim para encontrar o restante do grupo e caminhar de novo até a Igreja", conta. >
"Por conta da caminhada 'extra' em 2024, passamos a adotar os pontos de parada ao longo do percurso, para podermos reagrupar os amigos e assim todos possam chegar juntos", acrescenta. Os momentos de pausa são ideais para se hidratar. Em 2026, serão cinco pontos de hidratação distribuídos pelo trajeto. Eles estarão localizados em frente ao Trapiche Barnabé, Mercado do Peixe, Corpo de Bombeiros na Calçada, Largo de Roma e na Igreja do Bonfim. >
"Além do cuidado ao andar em grupo, a caminhada exige uma boa hidratação, além de maneirar na bebida. Com o sol forte e a sede, a gente bebe a cerveja rápido e quando vê, já foi...", comenta Edval Serpa. >
Na quinta-feira (15), a previsão do tempo indica a possibilidade de 50% de chance de chuva e temperaturas variando entre 22 °C e 33 °C. Ou seja: mesmo se chover, baianos e turistas devem enfrentar o mormaço e o calorão. Opte por roupas leves - de preferência nas cores branco e azul - e não esqueça do protetor solar. Bonés e óculos de sol também são bem-vindos. >
Igreja do Bonfim é cenário de lavagem histórica
Nascida na Ribeira e criada desde pequena no fervor da Lavagem do Bonfim, a aposentada Célia Maria de Souza, 77, se lembra bem dos anos em que curtiu os sambas ao longo do cortejo. O dia mais marcante aconteceu na década de 1970, quando viu a cantora Clara Nunes se apresentar em cima de uma carroça na festa. "Os tempos eram outros. Havia desfile de carroças, de jegue, a Igreja ficava aberta para receber os visitantes", relembra. >
Sem acompanhar o cortejo desde o início, Célia Maria ainda faz questão de comparecer à Colina Sagrada. Para quem, como ela, não pretende percorrer os oito quilômetros, ela conta como ir ao Bonfim mesmo assim. "Chego bem cedinho, durante a manhã, estaciono no Bonfim, atrás da Igreja, e vou andando fazer a minha oração", conta o segredo. >
Mas quem chegar na Colina com a fome de quem já andou muito, a dica é comer a tradicional feijoada nos bares e restaurantes da região. Com tudo que se tem direito: farofa, vinagrete e pimenta. >
Jane Souza Conceição, que vai caminhar com a filha, garantiu a dela. "Já escolhi onde vou parar porque a feijoada é de tradição", conta. E por falar em tradição, a baiana não esconde a felicidade em falar da festa. "A Lavagem do Bonfim é uma tradição que não podemos perder. É uma coisa que conta parte da nossa história e faz parte da nossa terra", resume. >
Com o aumento do fluxo para a região da Cidade Baixa no dia da Lavagem, o trânsito será alterado a partir das 19 horas de quarta-feira (14). Barreiras fixas e semi-fixas serão instaladas em vias do Comércio, Cidade Baixa e bairros adjacentes. As intervenções incluem acessos à avenida Lafayete Coutinho, avenida Estados Unidos, avenida Jequitaia, Largo da Calçada, Caminho de Areia, Dendezeiros do Bonfim, Largo dos Mares, entre outros. >
No dia do cortejo, será proibida a circulação e o estacionamento de veículos no período das 0h às 22h, na avenida Lafayete Coutinho e Rua da Conceição da Praia. Por isso, evite ir dirigindo para a Lavagem do Bonfim. Linhas de ônibus que circulam por regiões próximas terão trajetos modificados ao longo do dia, com reforço em momentos de pico. Dezenove linhas regulares operarão com horário estendido, até 0h, atendendo diretamente a área do evento (veja abaixo). >