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Maria Raquel Brito
Publicado em 4 de março de 2026 às 05:00
Os professores da rede estadual da Bahia têm o quinto pior salário inicial do país. Enquanto as remunerações de entrada podem chegar a R$ 13 mil em outros estados, um professor baiano recebe R$ 4.965,24 no início da carreira. Os dados são de um estudo do Movimento Profissão Docente, divulgado nesta terça-feira (3). >
A pesquisa, que analisou a estrutura da carreira docente nas redes estaduais a partir do levantamento de legislações de cada estado, mostra que a remuneração na Bahia está menos de R$ 100 acima do Piso do Magistério do ano passado (R$ 4.867,77) e 20% abaixo da média nacional, que é R$ 6.212,36. >
Veja informações do estudo
“Por que a gente olha o salário inicial, o primeiro nível da carreira? Porque o primeiro nível da carreira é o nível que os jovens olham quando pensam em ser professor. ‘Vale a pena eu ser professor para ganhar R$ 5 mil ou ainda tem um outro trabalho que me agrada e que eu possa ganhar mais do que isso?’. Então, é importante que o nível inicial seja o mais alto possível para ser atrativo”, explica Haroldo Rocha, diretor do Profissão Docente.>
O estudo identificou que o salário inicial não reflete toda a remuneração que o professor pode receber, sendo mapeados 180 tipos de gratificações, adicionais e outros penduricalhos que, no entanto, os professores não mais levam para a aposentadoria, após a reforma da previdência de 2019. Com as eventuais gratificações, o salário inicial na Bahia pode ser de R$ 6.513,40, levemente menor que a média nacional (R$ 6.599,46).>
Após 18 anos de sala de aula, os docentes da rede estadual baiana atingem o topo da carreira e podem receber até R$ 6.396,58, um aumento de 28.8% em relação ao início da vida profissional. É o décimo menor aumento do país. >
Segundo Rocha, a amplitude atual mostra que a estrutura das carreiras do magistério na Bahia não estimula que o professor aperfeiçoe sua prática e contribua para que as crianças possam se desenvolver. >
“A Bahia vai precisar fazer uma reestruturação de carreira para que essa amplitude aumente. Isso depende muito da conjuntura do momento, tem que olhar recursos disponíveis, por exemplo. Mas esse deve ser um objetivo que a Bahia tem que perseguir: conseguir reestruturar a carreira para que se dê uma perspectiva melhor de remuneração para o professor que está na rede”, diz.>
Para o especialista, as posições baixas da Bahia em indicadores de avaliação de aprendizagem como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) certamente refletem as dificuldades e a falta de estímulo dos professores em sala de aula. >
“Um bom professor é um professor que tem competência profissional e motivação para ensinar. Tanto na remuneração de entrada quanto na remuneração de saída, a Bahia está abaixo da média. Então, o estado tem que fazer um esforço nesse sentido. A nossa intenção é que o estudo sirva para ajudar e orientar as políticas que cada estado vai adotar com seus professores”, acrescenta.>
Educação na Bahia em 2024
A nível nacional, a amplitude remuneratória – ou seja, a evolução salarial – média é de 49%, consideravelmente mais alta que o progresso observado na Bahia. Mas, de acordo com Haroldo Rocha, o ideal é que essa diferença seja ainda mais expressiva. >
“O professor, além de permanecer na rede, precisa ter uma perspectiva de conseguir melhorar. O que nós pesquisamos na literatura internacional, que é o mais praticado e o razoável, é que o final da carreira [a remuneração] supere de 70% a 100% o valor do início da carreira. Se olharmos de estado a estado, em uns o aumento é de 150% e em outros é zero”, diz. “Isso desestimula o professor a fazer um esforço de estudar, de aperfeiçoar seu processo de práticas pedagógicas para as crianças aprenderem mais, porque ele não tem perspectiva de melhorar e acaba se acomodando.”>
Para os jovens que estão prestes a entrar na faculdade, a preocupação com o salário anda lado a lado com o sonho de exercer a profissão desejada. No caso dos cursos de licenciatura, o percentual de jovens brasileiros interessados é menor do que os padrões internacionais, mas a matrícula é sempre grande, diz Haroldo Rocha. O problema está na evasão que acontece nos anos seguintes. >
“A qualidade dos cursos foi muito depreciada na última década, principalmente em função de uma descontrolada expansão da oferta de cursos auto instrucionais, à distância. Ou seja, uma plataforma em que alguns professores gravam e cada estudante vai ver esses vídeos sozinho, sem interação. O que no nosso juízo é uma forma absolutamente inadequada de formar professores, pela razão principal de que educação, ensino e aprendizagem são relação humana do professor com aluno. Se o professor que está em formação na universidade não interage com os colegas e com seu professor, humanamente falando, ele não vai aprender”, afirma Rocha.>
A Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC) foi procurada para oferecer um posicionamento em relação à remuneração dos professores baianos em comparação com outros estados, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. >