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Maria Raquel Brito
Publicado em 3 de março de 2026 às 05:00
Perder alguém querido é sempre um momento duro. A dor aumenta quando, somada ao luto, está toda a burocracia dos ritos fúnebres, desde o traslado até o sepultamento. Uma das formas de deixar esse processo um pouco mais fácil são os planos funerários, que crescem entre a população baiana: nos últimos cinco anos, a procura por esse serviço cresceu cerca de 30% no estado, estima o Sindicato das Empresas Funerárias da Bahia (Sindef/BA). >
Para Gisele Castro, presidente do Sindef, essa tendência reflete uma mudança na forma como as pessoas encaram a morte e as questões relacionadas à preparação financeira. Segundo ela, três principais fatores justificam o aumento.>
O primeiro é o custo elevado de um velório e sepultamento ou cremação, que podem chegar a R$ 8.000 em Salvador. “Sem um plano, famílias enfrentam custos altos no momento da perda, e os planos ajudam a diluir esse gasto ao longo do tempo”, diz. A consciência da necessidade de planejar despesas difíceis e evitar decisões precipitadas em momentos de dor é outro motivo. >
“Mudanças culturais e demográficas também são fatores incentivadores da adesão a planos funerários. O envelhecimento da população e o aumento de serviços como cremação e alternativas modernas tornam os planos mais procurados. E a facilidade na contratação, hoje com os modelos de contratações digitais e parcelamentos acessíveis, facilitam a adesão”, defende Castro.>
Um plano funerário consiste num serviço contratado de forma preventiva, que garante a cobertura de todas as despesas relacionadas à morte, incluindo itens como caixão ou urna, véu e coroa de flores. O valor é pago mensalmente ou anualmente, e também ajuda a evitar que seja desembolsado um valor alto, e muitas vezes repentino, com velório e sepultamento. >
Geralmente, os preços aumentam conforme a idade no momento da contratação, ou há limites de idade de adesão. “Isso porque o risco de uso aumenta com a idade, impactando no custo do serviço”, diz a presidente do Sindef.>
Em muitos casos, coberturas estendem-se à família ou dependentes, com limites de idades específicos. Os planos familiares são uma opção cada vez mais popular entre cemitérios e funerárias de Salvador e região. >
No Campo Santo Familiar, por exemplo, há quatro planos familiares, cujos preços variam entre R$ 89,90 e R$ 149,90, com base na idade da pessoa mais velha do grupo – que pode ter até 10 pessoas. Todos incluem coberturas funeral e cemiterial completas e acesso ao Cartão Minha Família, clube de vantagens que garante descontos em consultas e exames no Hospital Santa Izabel, benefícios em odontologia, exames de imagem e descontos em viagens e lazer.>
De acordo com Eduardo Fernandes, gestor de projetos do Campo Santo Familiar, apenas entre 2024 e 2025 houve um aumento de aproximadamente 70% nas vendas de planos familiares. Os números, diz ele, refletem um crescimento que já vem acontecendo nos últimos anos. >
“O setor já vinha se transformando há décadas, mas o grande divisor de águas foi mesmo o período da pandemia, entre 2020 e 2022, que nos obrigou a olhar de frente para a nossa fragilidade e mostrou como é difícil para uma família lidar com uma perda repentina sem nenhum preparo, tanto emocional quanto financeiro. De lá para cá, a busca deixou de ser apenas uma reação ao susto e passou a ser prevenção.”>
O Cemitério Bosque da Paz funciona de forma similar. São quatro opções, da Plus (R$ 77,90, para pessoas de até 60 anos) à Familiar (R$ 139,90, sem limite de idade), todas para grupos de até 10 pessoas. No Plano Familiar, além da assistência funerária, a família tem acesso imediato a descontos exclusivos em estabelecimentos parceiros, como Casas Bahia, Shopee e Drogasil. >
Já o Memorial Vale da Saudade oferece três planos. O mais básico, Acolher, contempla três pessoas e custa R$ 43,90 por mês. O Afeto, para seis, tem mensalidade de R$ 69,90 e inclui taxa cemiterial. No Saudade, também para seis pessoas, a mensalidade é R$ 129,90. Aqui, também são oferecidos serviços em vida, como consultas médicas online 24h, sorteios mensais de R$ 20.000,00 e auxílio alimentação de R$ 300,00.>
Entre os benefícios dos planos funerários, o maior é a previsibilidade. É o que afirma a planejadora financeira Anna Fonseca. Segundo ela, evitar um desembolso alto e imediato protege o orçamento da família e reduz risco de endividamento ou de precisar resgatar investimentos, por exemplo, em um momento ruim. >
Para ela, essa organização demonstra maturidade acerca de um assunto sensível, que por muito tempo foi um grande tabu. “Do ponto de vista financeiro, o luto já é um período de grande fragilidade emocional. Ter que tomar decisões rápidas, negociar valores e lidar com burocracia nesse contexto pode gerar ainda mais desgaste. Então, eu vejo como um movimento de maior consciência não por medo, mas por responsabilidade.”>
A especialista reforça, porém, que o plano precisa fazer sentido dentro da estratégia financeira da família. “Em alguns casos, é uma boa solução. Em outros, uma reserva financeira bem estruturada pode cumprir essa função. O que não pode existir é o improviso. Organização financeira também passa por essas decisões que a gente prefere não adiar, mas enfrentar e conduzir com maturidade”, afirma.>