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Em dia histórico, tataraneta do cangaceiro Corisco vai servir ao Exército

Maria Clara, descendente de Corisco e Dadá, está entre as primeiras mulheres recrutadas voluntariamente para o serviço militar no Brasil

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 3 de março de 2026 às 05:00

A tataraneta de Corisco, Maria Clara, se apresentando no Exército
A tataraneta de Corisco, Maria Clara, se apresentando no Exército Crédito: Exército / Divulgação

O sangue que carrega a história do cangaço também é soldado por vocação. Ontem o Brasil revolucionou as Forças Armadas ao recrutar, pela primeira vez, jovens mulheres para o Serviço Militar Feminino (SMIF), de forma voluntária. Até então, elas só podiam ingressar nas forças por meio de concurso público, como oficiais. E neste dia histórico, no meio das 57 jovens que foram incorporadas na capital baiana para servirem ao Exército, uma carrega a história do Nordeste e a ironia do destino: a militar Maria Clara dos Santos Alcântara é também tataraneta dos cangaceiros Corisco e Dadá.

Mesmo com seu jeito calado, Maria Clara foi a terceira melhor nos testes feitos de aptidão entre as mulheres com 18 anos que se voluntariaram para o serviço militar. E só foi avisar à família que passou depois da convocação. “Eu tomei um susto quando ela me disse: ‘vovó, entrei para o exército’. Só deu tempo de providenciar as coisas para ela se apresentar. Eu pensei, meu Deus, ela não come quase nada, é toda calada, mas aí o coronel me disse que ela foi destaque, que ela tem vocação. Por que será, né? Que orgulho! Ela me disse: vovó, será que Dadá ficaria orgulhosa de mim?’. Não tenho nem dúvida. Com certeza ela estava acompanhando a apresentação da tataraneta, foi lindo”, conta Indaiá Santos, avó de Maria Clara e neta de Corisco e Dadá.

Maria Clara participou despercebida na cerimônia militar que ocorreu nesta segunda-feira, na Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército (ESFSEx). Nem a corporação sabia dessa ligação entre ela e seus antepassados. “Não deu nem tempo, criatura. Não te disse que ela só foi falar para a gente perto de se apresentar? Eu estou aqui, acabei de sofrer uma queda, com fortes dores, mas arrumei força de onde não tinha para ir ver este dia histórico dela se apresentando. A neta de Dadá e Corisco defendendo o Brasil, veja como é o destino. Ela me disse que quer seguir carreira, vai ser oficial e defender o exército”, conta Indaiá, já com os olhos cheios de lágrimas.

“Ela só me dá orgulho. Criamos ela com todo amor, é uma doce, mas também não pode esquecer o sangue dela. É guerreira, valente que nem a tataravó. A primeira coisa que ela fez foi me levar para ver as armas: ‘olha vovó, que lindas’. Eu tenho pavor de armas, ela adorou, o olho brilhou. Tem jeito não, está no sangue”, conta Indaiá, que só vai ver a neta daqui a três meses. “Ela já está incomunicável. Vai voltar mais valente ainda. Como vou aguentar ficar três meses sem falar com ela? Disse que nestes primeiros meses ela só pode falar um pouco com a mãe, uma vez na semana. Vai voltar outra pessoa”, conta.

A neta de Corisco e Dadá, Indaiá, e a tataraneta, Maria Clara
A neta de Corisco e Dadá, Indaiá, e a tataraneta, Maria Clara Crédito: Divulgação

Se depender do sangue de Maria Clara, o Exército só tem a ganhar. Não apenas pelo apreço pelas armas, mas também pela estratégia militar. O próprio Corisco, o Diabo Loiro do cangaço e braço direito de Lampião, serviu ao exército antes de se tornar cangaceiro. Ele foi soldado em Aracaju, inclusive. Mas sua avó, Dadá, é um caso à parte. Ao contrário do que muitos pensam, Maria Bonita não foi o grande nome do Cangaço, mas Dadá, uma das únicas mulheres dos bandoleiros que combatiam. Há relatos que Lampião tinha total confiança nela. “Ter uma mulher como Dadá não precisava de segurança”, dizia o capitão.

As roupas que conhecemos hoje dos cangaceiros também foi ela que implantou. Antes de Dadá entrar no bando de Lampião, as roupas dos cangaceiros eram azuis. Ela, pensando na camuflagem dentro da caatinga, mudou as cores para marrom como conhecemos hoje. Dadá e Corisco só foram pegos em 1940, dois anos depois da morte de Lampião. Corisco morreu em combate, Dadá perdeu parte da perna com um tiro (ela mesma arrancou, pendurada somente pela pele, com uma faca). Pelo visto beber sangue de galinha no mato não será tarefa difícil para Maria Clara…

Capturada, Dadá foi presa em Salvador, onde foi acolhida inclusive por outra mulher histórica, Irmã Dulce. Já solta, fez amizades como Jorge Amado e Fidel Castro, que chegou a presenteá-la com uma farda militar em uma visita que fez à Bahia. Contudo, apesar das amizades, uma mania que Dadá não perdeu morando em Mussurunga foi andar armada.

“Ninguém mexia com ela, pois sabia que Dadá só andava armada, uma pistola que guardava no sutiã. Também dormia armada, debaixo do travesseiro. Uma vez, estávamos todos vendo TV na casa dela, à noite, quando ela ouviu um barulho. ‘fiquem todos quietos, abaixem o volume da TV e desliguem as luzes’, disse. Ela foi até a cozinha, pegou a arma, mirou no escuro mesmo e atirou. Colocou todo mundo pra dormir na sala. No outro dia, tinha rastros de sangue no quintal. Nunca mais ninguém tentou roubar a casa dela”, conta Indaiá.

Maria Clara não conheceu sua tataravó. Ela nasceu em 2008, Dadá morreu em 1994. Mesmo assim, comparando a foto de Corisco e Dadá, a semelhança com Maria é evidente. Ela lembra muito o tataravô. Para Indaiá, ela tem muito do jeito da tataravó, calma, calada, mas ao mesmo tempo brincalhona e braba. “Ela está com muito orgulho dessa conquista. Ela sabe que carrega uma história que muita gente não entende, que tem preconceito. Mas ela que faz sua própria história agora. Ela disse que vai se dedicar, que fará história no exército. Pode escrever aí: a tataraneta de Dadá vai fazer história nas Forças Armadas”, completa Indaiá. Já tá escrito…

Mulheres nas forças

De fato, foi um dia especial. Segundo o Comando da 6ª Região Militar do Exército, 57 jovens foram incorporadas na capital baiana. Elas serão distribuídas entre o Colégio Militar de Salvador (CMS), o Hospital Geral de Salvador (HGeS) e para a Escola de Formação e Saúde Complementar do Exército (ESFSEx). O serviço pode durar até oito anos e elas podem chegar até a patente de sargento. Mais que isso, só por meio de concurso público.

No Brasil, mais de 33 mil mulheres alistaram-se para o serviço militar voluntário, incluindo também a Marinha e a Aeronáutica. O Exército Brasileiro vai incorporar 1.010 mulheres como soldados em 2026, incluindo as 57 voluntárias de Salvador. Cerca de 300 estarão na Força Aérea e 157 na Marinha.

“O ingresso feminino no serviço militar inicial também se alinha aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no âmbito da Agenda Mulheres, Paz e Segurança das Nações Unidas, fortalecendo nossa credibilidade e interoperabilidade em missões internacionais, além de promover maior capacidade de inovação, adaptabilidade e legitimidade social”, disse o ministro da Defesa, José Múcio, para a Agência Brasil.

Em nota, o Exército disse que “O Serviço Militar Feminino contribui para a manutenção da prontidão e da disponibilidade permanente das Forças Operacionais no cumprimento das missões, fazendo parte de um processo gradativo de incorporação de mulheres no Exército Brasileiro, desde o período Imperial, ampliando progressivamente a participação do segmento feminino no seu quadro militar”. Vale lembrar que o serviço obrigatório é apenas para o público masculino. As mulheres ainda são alistadas de forma voluntária. Elas ocupam apenas 10% das forças. Com a força e história de mulheres como Maria Clara, tem tudo para este quadro mudar.

A tataraneta de Corisco, Maria Clara, se apresentando no Exército por Exército / Divulgação

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Dadá Exército Corisco Cangaço