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Maria Raquel Brito
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 05:00
Entre 2022 e 2023, uma em cada cinco mulheres grávidas em Salvador testou positivo para Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) curáveis e não virais. As informações são de pesquisadores da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e foram publicadas nesta sexta-feira (27) na Revista Latino-Americana de Enfermagem. >
As ISTs representam um risco significativo para gestantes e fetos, uma vez que, nesse período, grávidas já estão mais vulneráveis a complicações obstétricas e fetais decorrentes dessas infecções, como parto prematuro, aborto e infertilidade. A preocupação aumenta quando leva-se em consideração o caráter silencioso dessas infecções. >
ISTs são risco significativo durante a gravidez
Isso porque, de acordo com a pesquisa, mais da metade das gestantes que testaram positivo para alguma IST não apresentava sintomas, o que aumenta o risco de que as infecções não sejam detectadas e, consequentemente, tratadas.>
“Se elas não fizessem esse teste, não seriam diagnosticadas, muito menos tratadas e não evitariam os vários riscos à saúde materna e fetal que podem acontecer por conta dessas ISTs. Normalmente, nas unidades básicas de saúde, o profissional usa muito manejo sindrômico para essas ISTs, que é assim: a partir dos sintomas pensam nessas ISTs e prescrevem um tratamento. Mas imagine que 56,9% dessas mulheres não tinham sintomas”, diz a pesquisadora Darlene Silva de Souza, uma das responsáveis pelo estudo.>
A pesquisa, primeira do tipo no Nordeste, foi conduzida com 302 gestantes, entre 15 e 49 anos, pacientes do serviço pré-natal de 17 unidades básicas de saúde da capital baiana. >
Entre as gestantes, a maioria tinha idade igual ou superior a 25 anos, negras (pretas ou pardas), com ensino médio, ainda que incompleto, e renda familiar de até 1,9 salários-mínimos. A maioria das grávidas vivia em relação estável, com dois ou mais anos de relacionamento, e quase 14% nunca havia realizado o exame citopatológico de colo uterino, o papanicolau.>
Por 11 meses, profissionais de saúde coletaram seus dados sociodemográficos, obstétricos e comportamentais e realizaram testes rápidos para vírus da imunodeficiência humana (HIV), sífilis e hepatites B e C. Ainda, coletas de amostra vaginal foram realizadas para detecção de clamídia, gonorréia, micoplasma e tricomoníase, IST não virais e curáveis focadas na pesquisa.>
Os resultados mostraram que ao menos 21,52% das mulheres grávidas na capital baiana apresentam pelo menos uma das ISTs, sendo as mais prevalentes clamídia (11,6%) e mycoplasma (9,6%). A faixa etária de 15 a 24 anos é um fator preditivo, assim como a ausência de um relacionamento estável ou um período menor de um ano com a parceria. >
“A OMS já aponta essa alta prevalência de ISTs não virais e curáveis no mundo. Só que não tinha um estudo ainda realizado no Nordeste na época desse projeto. A gente tinha uma ideia de que Salvador podia acompanhar os resultados que a gente vê em boa parte do mundo, mas a pesquisa vem reforçar e trazer evidência científica de que aqui também, no Brasil e particularmente no Nordeste, essa prevalência é elevada”, afirma Souza.>
Os exames preventivos sempre foram um compromisso da contadora Melina de Andrade, de 38 anos. Quando soube que estava grávida, então, isso se intensificou. Fazendo acompanhamento pela rede privada, ela fez nos últimos oito meses testes de HIV 1 e 2, antígeno e anticorpos, Anti-HBs, sífilis, Hepatite B e C, e HTLV.>
“Ter uma médica atenciosa e com condutas minuciosas mesmo sem histórico acho importante. Dá segurança e mostra que a profissional está atualizada e preocupada com o andamento de uma gravidez tranquila e sem sustos para a mãe e bebê”, conta.>
Atualmente, não há na rede pública exames moleculares para detectar clamídia, gonorreia, tricomoníase e Mycoplasma genitalium, que foram os principais objetos do estudo. Estes estão disponíveis apenas na rede privada – o que, para uma parcela considerável da população, já é um grande empecilho. >
No Sistema Único de Saúde (SUS), um outro elenco de exames já faz parte da rotina do pré-Natal, como os das hepatites virais, HIV e sífilis, e podem ser feitos de forma gratuita e rápida, com resultados em até 20 minutos. Caso o resultado seja positivo, há a possibilidade de iniciar o tratamento imediatamente. >
Mesmo nesses casos, porém, há desafios. “Embora a gente tenha testes e diagnósticos amplamente no serviço público, muitas vezes os parceiros dessas gestantes não querem fazer a testagem. A mulher vem para cá com um resultado positivo e o parceiro se recusa a fazer o teste e a tratar também. E muitas vezes ela acaba se reinfectando durante os nove meses de gestação e transmitindo essa IST para a criança”, diz a pesquisadora Darlene Silva de Souza. >
O tratamento de ISTs disponíveis no SUS consistem na aplicação de três doses de penicilina, com intervalos de sete dias. Se o tempo entre uma dose e outra ultrapassa esses sete dias, é preciso reiniciar o esquema – o que representa outro problema, uma vez que muitas mulheres acabam não cumprindo o tratamento adequadamente em função desse prazo.>
Para Souza, um dos ganhos imediatos da pesquisa é saber que mulheres que normalmente não teriam acesso a esses exames puderam fazer e, assim, ter a chance de iniciar um tratamento. Agora, o desejo é que o acesso aos testes seja viabilizado pelo Ministério da Saúde, até que sejam oferecidos de forma universal. >
“Não tem previsão para isso acontecer, mas normalmente começa dessa forma, com estudo. A incorporação desses testes rápidos que hoje já são feitos amplamente, como esses de sífilis, HIV e hepatite, começaram a partir de estudos. A minha expectativa é que esses resultados caminhem também para isso”, afirma.>