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Maria Raquel Brito
Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 05:00
Apenas no ano passado, 498 pessoas foram internadas devido à depressão na Bahia, de acordo com o Observatório da Saúde Pública. Depois do diagnóstico, a etapa seguinte é o início do tratamento com medicamentos e terapias. Mas, às vezes, isso não é suficiente: os tratamentos existentes não têm efeito, os sintomas continuam lá. É a chamada depressão resistente ao tratamento, também conhecida como refratária, que impacta cerca de 40% das pessoas com depressão no Brasil, segundo o estudo observacional Treatment-Resistant Depression in America Latina (TRAL), realizado na América Latina com quase 1,5 mil pacientes. >
“É aquele tipo de depressão que não responde a pelo menos dois tratamentos antidepressivos, com dose adequada e por tempo adequado de tratamento. O paciente começa com um de uma classe, usa até o limite terapêutico. Se não resolve, passa a usar outro. Se esse tratamento não responde também, a gente já considera como depressão resistente”, diz o psiquiatra André Gordilho, diretor técnico-médico do Grupo Bom Viver.>
Nesses casos surgem outras possibilidades, como a potencialização do antidepressivo com associação de medicamentos. Quando isso também não é suficiente, entra na equação a psiquiatria intervencionista, que contempla medidas como infusão de cetamina endovenosa, estimulação magnética transcraniana, eletroconvulsoterapia e escetamina intranasal. >
Essas alternativas foram um dos assuntos centrais da 4ª edição do Bom Viver Convida – Encontros Sobre Saúde Mental, que aconteceu em setembro e contou com uma palestra de Gordilho sobre a psiquiatria intervencionista. >
“Eu acho que tem muito tabu em cima disso, criado por Hollywood, por vários filmes que retratam o tratamento como tortura, no caso da eletroconvulsoterapia. As pessoas, às vezes, nem sabem o que é. Precisam entender que existe algo além do comprimido e que se você não responde, por exemplo, ao tratamento convencional, a esperança não acabou. Muitas pessoas não se tratam adequadamente, agravam seus quadros e acabam indo a óbito por suicídio porque não são conduzidas corretamente”, afirma.>
Pioneirismo baiano>
Está na Bahia uma das principais pesquisas sobre tratamento com cetamina para a depressão resistente. Os estudos são realizados pelo Hospital Universitário Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (Hupes-UFBA/Ebserh) há alguns anos. Hoje, o Serviço de Psiquiatria do Hupes já dispõe de um centro de administração assistencial dessa medicação pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e já treinou profissionais de todo o Brasil no manejo dessa nova classe de medicamentos.>
“Os estudos e a aplicação assistencial já beneficiaram centenas de pacientes e os resultados promissores têm sido apresentados em congressos e revistas científicas ao longo dos anos. Mantemos um alerta de possíveis usos problemáticos, com fins recreativos, a fim de proteger pessoas com vulnerabilidade a esse tipo de uso de substâncias. As pesquisas buscam também não apenas comprovar a eficácia da cetamina, na verdade, escetamina, que é o tipo de molécula hoje disponível no Brasil, mas também encontrar formas mais econômicas e com melhor tolerabilidade para os pacientes”, afirma o psiquiatra Lucas Quarantini, que atua no Hupes. >
Segundo Quarantini, muito do efeito da escetamina é desconhecido, mas as evidências apontam que, em vez de atuar apenas em neurotransmissores mais conhecidos, como a serotonina e a noradrenalina, a molécula atua em receptores de glutamato, um neurotransmissor menos conhecido popularmente e que só recentemente passou a ser mais estudado pela ciência.>
A aplicação deve funcionar de forma a estimular a plasticidade neural – ou seja, as conexões entre os neurônios – que podem ser danificadas pela depressão crônica, proporcionando em alguns casos um alívio rápido dos sintomas. “Mas é importante lembrar que existem muitas pessoas que não respondem também às cetaminas”, pontua Quarantini. >
“O tratamento é geralmente administrado sob supervisão médica, para monitoramento dos efeitos adversos, sendo o mais preocupante o aumento da pressão arterial. Ele não é uma solução isolada, deve ser mantido o antidepressivo oral. Nosso objetivo científico atual mais relevante é tentar demonstrar e testar formas de psicoterapia que aumentem a eficácia desses tratamentos”, explica o psiquiatra.>
Tratamento multidisciplinar>
Além dos tratamentos psiquiátricos, os especialistas veem como essencial que haja uma abordagem multidisciplinar quando o assunto é a depressão refratária. Um ponto importante, por exemplo, é aliar os medicamentos ou intervenções a terapias, como aquelas que envolvem pintura, música e atividades físicas.>
“O ser humano tem sua dimensão biológica, mas tem a sua dimensão psíquica e social, ou seja, é um ser da linguagem, a gente significa e ressignifica experiências, elabora os nossos traumas e vivências, e isso vai ser feito a partir da palavra. Ao mesmo tempo em que você tem uma alteração de neurotransmissores, também existe essa dimensão do fenômeno que está no campo da palavra e no social. A psicoterapia permite ao sujeito conseguir lidar com suas emoções”, defende o psicólogo Wagner Ferraz, psicólogo e coordenador de psicologia do Grupo Bom Viver. >
Para ele, o primeiro passo para um tratamento que prioriza o paciente deve ser o acesso ao cuidado em sua forma mais completa, do atendimento psiquiátrico no serviço público às psicoterapias. “Não se trata de uma coisa ou outra, mas sim de toda essa composição terapêutica voltada para aquele sujeito”, diz.>