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Violência armada na Bahia: 258 crianças e adolescentes foram baleados em Salvador e RMS nos últimos quatro anos

Mais de 60% das ocorrências resultam em morte, aponta levantamento do Instituto Fogo Cruzado

  • Foto do(a) author(a) Maria Raquel Brito
  • Maria Raquel Brito

Publicado em 22 de abril de 2026 às 05:00

Rua em Tancredo Neves amanheceu cheia de cartuchos de balas após guerra entre facções
Só este ano, 26 jovens baianos foram baleados Crédito: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO

Em 23 de julho de 2023, Samile Costa sentiu a dor mais difícil para uma mãe. Seu filho, Gabriel Silva da Conceição Júnior, foi morto aos 10 anos de idade, após ser baleado perto de casa, no bairro de Portão, em Lauro de Freitas, durante uma operação policial.

Educado, dono do sonho de jogar futebol profissionalmente e, acima de tudo, apenas uma criança, Gabriel entrou para uma triste estatística de jovens baleados em Salvador e região metropolitana. Entre 2022 e 2026, 258 crianças e adolescentes foram vítimas da violência armada na região, aponta o mapeamento Futuro Exterminado, feito pelo Instituto Fogo Cruzado.

Caso Gabriel: Amigos e familiares fazem protesto pela morte do menino por Paula Fróes/CORREIO

Das 258 vítimas ao longo dos últimos quatro anos, 66,7% (172) morreram e 33,3% (86) ficaram feridas, uma demonstração da letalidade dessas ocorrências. Só em 2026, até o dia 11 de abril, foram registrados 26 casos de crianças e adolescentes baleados, dos quais 20 resultaram em mortes.

Em 2025, 69 jovens baianos foram vítimas da violência armada. À época, Dudu Ribeiro, integrante da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, cofundador e diretor-executivo da Iniciativa Negra, avaliou que Salvador convive há muitos anos com uma mudança lamentável, perceptível nas idades inscritas nas lápides dos cemitérios da cidade.

“Uma geração que nasceu nos anos 2000 e não consegue ter uma trajetória protegida de vida. Parte importante dessa violência sistemática e estrutural é perpetrada pelo próprio Estado, a partir, em grande parte, das políticas de segurança pública, mas não apenas. Há também violação de direitos na saúde, na educação e em outras áreas que deveriam proteger a trajetória desse jovem, e a gente tem um processo conduzido pela extrema direita que busca a criminalização ainda maior de adolescentes”, disse.

Caíque morreu durante operação da PM em São Marcos. por Reprodução

Um dos números que chama atenção é o de crianças e adolescentes baleados durante homicídio ou tentativa, equivalente a 56,2% dos casos. É essa a principal causa das ocorrências, seguida por ação policial (18,2%) e bala perdida (12,3%).

O perigo das armas de fogo está próximo da juventude até em locais onde a única preocupação deveria ser o aprendizado – e até isso é ameaçado quando a violência chega aos entornos das escolas, afetando sobretudo bairros mais pobres e majoritariamente negros. Em março deste ano, por exemplo, um grupo de crianças ficou preso em uma escola em Sussuarana devido a um tiroteio próximo à unidade de ensino.

Grupo de crianças fica preso em escola durante tiroteio em Sussuarana nesta segunda (23) por Web

Um levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado e pela Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas apontou que, no período entre 4 de julho de 2022 e 30 de agosto de 2024, foram registrados 728 tiroteios em um raio de até 300 metros de escolas públicas de Salvador. O número equivale a 26% de todos os tiroteios mapeados na capital baiana pelo Fogo Cruzado nesse período. Destes tiroteios, 43% ocorreram durante operações e ações da polícia.

“A gente está falando de um contexto em que a escola, que deveria ser o lugar do cuidado da proteção e da formação, corre risco na violência armada. E parte fundamental da mudança política do Estado é proteger as escolas. Proteger as escolas como espaço inviolável, garantidor de direitos, cuidador das crianças e dos adolescentes”, afirmou Dudu Ribeiro.

Menos armas, mais políticas públicas

No dia 5 de outubro de 2025, o adolescente Gilliarde de Jesus Santos Júnior, de 12 anos, de Camaçari, manuseava a arma do pai – que tem registro de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC) – quando foi atingido por um disparo acidental. O caso mostra que o perigo da violência armada vai além das ruas.

De acordo com Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz, é necessário que haja um conjunto de políticas públicas para prevenir que a violência atinja adolescentes e jovens. Políticas que promovam fatores de proteção e que envolvam também outras frentes, como educação, assistência social e saúde.

“É fundamental que o Estado promova uma política de segurança não letal, evite confrontos que põem em risco a população e aumentam a letalidade nas comunidades, dos adolescentes e jovens que estão nas ruas. O papel do Estado é prevenir. E a política de segurança tem que controlar a letalidade das forças policiais. Nós temos esse problema, ele se agrava em alguns estados e o caso da Bahia é um deles, que tem um alto índice de mortes pela polícia. O Estado não pode agravar o problema, não pode contribuir para aumentar a taxa de homicídio em razão do descontrole das atuações e operações policiais. Ao contrário”, diz.

Questionada se alguma estratégia foi estabelecida nos últimos anos para evitar que crianças e adolescentes sejam atingidos em operações policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP-BA) afirmou, em nota, que “cerca de R$ 1,2 bilhão foi investido pelo Governo do Estado nos últimos três anos nas Polícias Militar, Civil e Técnica, além do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia, garantindo a ampliação das ações preventivas e de inteligência contra o crime organizado”.

Destacou ainda que houve uma queda de 31,5% nas mortes violentas em Salvador nos primeiros meses de 2026 e que cerca de 500 operações foram deflagradas em 2025 “contra grupos envolvidos com tráficos de drogas e armas, lavagem de dinheiro, mortes violentas e corrupção de menores”.