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Maria Raquel Brito
Publicado em 20 de abril de 2026 às 05:00
A Justiça baiana deferiu quase 11 mil pedidos de medidas protetivas de urgência (MPU) nos primeiros meses de 2026. Foram 10.956 entre 1º de janeiro e 14 de abril, o equivalente a cerca de 103 medidas protetivas concedidas por dia. Os dados são do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ-BA). >
A tendência em relação a 2025 é de aumento, uma vez que, no ritmo atual, a média mensal de MPUs deferidas vem crescendo: no ano passado, foram concedidas 30.149, em média 2.512 por mês ou 82 por dia. >
Para a desembargadora Nágila Brito, presidente da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), essa crescente pode evidenciar duas coisas. A primeira é a eficácia da divulgação de informações, que faz com que as mulheres entendam que a violência vai muito além da agressão física, além de orientá-las em relação à denúncia. >
“É como se fosse uma propaganda boca a boca. Uma conta para outra, que conta para outra. Ela vê que a vida daquela amiga ou daquela colega melhorou, que ela está conseguindo ir para o trabalho, está conseguindo viver a sua vida, e isso a influencia a pedir a medida protetiva”, diz.>
O segundo ponto evidenciado pelos números é o próprio aumento das situações de violência doméstica familiar, que a desembargadora atribui à propagação de conteúdos misóginos na internet. “São os 'redpill', outros chamam nanosfera ou machosfera, conteúdos muito ruins que alimentam o ódio à mulher”, afirma.>
Mulheres foram mortas em casos de feminicídios no primeiro trimestre de 2026
As medidas protetivas de urgência são uma das maiores heranças da Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 para garantir o direito das mulheres a uma vida sem violência. Através dela, foram definidas cinco formas de violência: psicológica, sexual, moral, patrimonial e física, e garantidos instrumentos para proteger as mulheres de agressões sofridas ou iminentes. A punição prevista pela legislação para agressores que descumprirem as medidas protetivas é de até cinco anos de prisão.>
Esse é um instrumento muito importante para a integridade das vítimas de violência em todo o Brasil, mas, por se tratar de uma medida cautelar, nem sempre é o suficiente. Um caso em Ipirá, no Centro-Norte da Bahia, é um indicativo: em fevereiro deste ano, a jovem Liliane Bastos Azevedo, 25 anos, foi assassinada pelo marido, Aroldo Cintra Aragão, poucas horas depois de denunciá-lo por violência doméstica.>
Liliane registrou boletim de ocorrência por violência doméstica no site da Delegacia Virtual e solicitou medida protetiva de urgência após ser agredida e ameaçada ao se recusar a manter relações sexuais com Aroldo. Horas depois, o suspeito retornou à casa da jovem, no bairro 20 de Abril. >
Segundo Milena Pinheiro, advogada especialista em violência doméstica e crimes sexuais, para que a violência sofrida pelas mulheres não continue a escalar até o feminicídio, é essencial que os órgãos responsáveis instaurem inquéritos para investigar os crimes existentes nos relatos das vítimas. >
“Normalmente a vítima procura a DEAM porque apanhou a ponto de não se sentir mais capaz nem de trabalhar e ela precisa tomar uma atitude, porque até o emprego vai cobrar dela uma atitude em relação a isso. ‘Você não vem trabalhar porque você apanha do seu marido? Então eu preciso de uma prova.’ Olha quanto movimento essa vítima faz, já destruída e dilacerada”, diz. >
“Então, o que é que a população, a sociedade, a delegacia, o poder judiciário, o Ministério Público, a OAB, têm que fazer, é acolher essa vítima. Então, quando essa vítima vai registrar uma ocorrência, pedir uma medida protetiva, aquilo não pode ficar ali parado. Medida protetiva não é instrumento de punição, é um instrumento de proteção. O que pune o agressor é uma ação penal”, completa.>
Em um ato simbólico de enfrentamento ao feminicídio e à violência contra a mulher, a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA) recebeu na última terça-feira (14) o Banco Vermelho. A instalação do equipamento aconteceu na sede da instituição, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), em Salvador, e tem como objetivo chamar a atenção da sociedade para a urgência do combate à violência de gênero.>
Além do simbolismo, a iniciativa dialoga com a realidade observada no atendimento diário da instituição. Dados do Núcleo de Defesa das Mulheres (Nudem Bahia) apontam crescimento na procura pelos serviços em 2025. Foram registrados 5.645 atendimentos, número 26% superior ao de 2024, quando houve 4.466 registros. Também houve aumento nas medidas protetivas de urgência ajuizadas, que passaram de 608 em 2024 para 683 em 2025. >
Segundo Carolina de Araújo, coordenadora do Nudem Bahia, todas as ações educativas que visam ao enfrentamento da violência contra a mulher e o feminicídio são essenciais, e o Banco Vermelho é uma delas. >
“E ele não é vermelho à toa. Representa o sangue das mulheres assassinadas pelo fato de serem mulheres. A Defensoria Pública da Bahia instalou o banco na entrada de sua sede para que todos os homens e mulheres que por ali passem sejam alertados e alertadas da necessidade de enfrentar o feminicídio em seus meios íntimos e seus meios públicos, de falar dele, de pensar sobre ele. O feminicídio é o drástico fim, para uma mulher, de um ciclo de violência que começou muito antes”, afirma. >